Uma tesoura tornou-se num dos acessórios mais usados nos balneários do futebol profissional. Bukayo Saka, Jude Bellingham, Leroy Sané e muitos outros jogadores entram em campo com as meias cortadas na face anterior da perna, numa prática que já dura há pelo menos oito anos e não dá sinais de abrandamento – nem sequer nos maiores palcos, como o Campeonato do Mundo. Na última terça-feira de madrugada, o embaixador da prática era o argelino Hadj Moussa, que jogou diante da seleção da Jordânia com vários golpes na parte de trás das suas meias.
A razão principal é simples: conforto. As meias de futebol modernas são fabricadas em poliéster, um material que mantém a forma e repele a água, mas que pode tornar-se demasiado justo e restritivo. Os jogadores acreditam que os buracos reduzem a pressão na zona do gémeo, melhoram o fluxo sanguíneo e ajudam a prevenir cãibras e lesões ao longo dos 90 minutos. A ideia de “personalizar” o equipamento não é exclusiva do futebol: no críquete, os lançadores cortam a ponta do calçado para evitar que os dedos do pé de apoio, ao deslizarem dentro do sapato, sofram toda a pressão do peso corporal do atleta no momento do lançamento.
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Há também uma dimensão psicológica. “Quando te sentes bem, jogas bem. É sempre uma questão de estares o mais confortável possível no campo”, afirmou Frank Nouble, ex-avançado do West Ham, ao The Athletic. O problema é que a ciência não acompanha a crença. Em elemento do staff médico de um clube da Premier League explicou ao talkSPORT em 2024 que “muitos jogadores acham que as meias atuais são demasiado justas e compressivas nas pernas, e alguns associam isso às cãibras nos gémeos, mas não há evidências concretas disso”, afirmando que “é mais uma questão de desconforto”.
Raj Brar, médico fisioterapeuta, é perentório: “Uma forma de reduzir medicamente a pressão nos gémeos é precisamente o oposto de fazer furos nas meias – através do uso de meias de compressão de maior pressão entre os jogos, como medida de recuperação”. Brar acrescenta que “isso aumenta a circulação e reduz o inchaço em diferentes graus, consoante o nível de pressão da meia”. Além disso, “os futebolistas já têm atividade mais do que suficiente nos gémeos para não precisarem de se preocupar com a circulação”.
Do lado da indústria, a explicação é igualmente reveladora. Allan Vad Nielsen, ex-CEO da Hummel, admite que “algumas marcas tricotam as suas meias de forma muito densa para melhorar a visibilidade e a nitidez dos seus logótipos, o que pode resultar num ajuste muito justo que alguns jogadores acham desconfortável”. Nielsen acrescenta que “as novas tecnologias permitiram criar melhores zonas de amortecimento nos tornozelos e zonas de compressão que proporcionam uma melhor circulação sanguínea, reduzindo o risco de lesões e melhorando o desempenho”. As instâncias do futebol raramente intervieram nesta questão – com uma exceção notável: em 2017, um árbitro da LaLiga ordenou ao defesa argentino Ezequiel Garay, ex-Benfica, que trocasse as meias rasgadas, por considerar que violavam o regulamento de equipamento. Apesar do incidente, as leis do jogo não proíbem explicitamente as meias com furos.
Gary Neville, ex-estrela do Manchester United, foi mais crítico em relação a esta “moda”: “Têm cerca de 400 pares de chuteiras, têm tudo feito à medida. Não acredito que a Nike ou o patrocinador do equipamento não lhes consigam fazer um par de meias ligeiramente maior”, atirou no seu podcast Stick to Football. José Mourinho foi na mesma direção, com uma publicação sarcástica no Instagram dirigida às “autoridades do futebol” por permitirem o fenómeno. “Meias lindas para o Lindo Jogo… Aprovadas pelas autoridades do futebol”, escreveu.
Nos escalões inferiores, a história é outra. Em clubes onde o equipamento é escasso e o orçamento apertado, cortar as meias tem um custo real – e são os próprios jogadores quem acaba por pagar a fatura, revelou Alan Evans, secretário do Northwood, ao mesmo jornal. Do lado dos fabricantes, ainda não há uma resposta formal de grandes marcas, mas algumas empresas começam a explorar designs que ofereçam mais conforto e flexibilidade — atentas ao facto de que as preferências dos jogadores influenciam o comportamento dos consumidores, como já se verificou na cor das chuteiras.
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