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(A) :: Hu! Hu! Hu! Haaland trouxe o Natal mais cedo a Nova Iorque (a crónica do Noruega-Senegal)

Hu! Hu! Hu! Haaland trouxe o Natal mais cedo a Nova Iorque (a crónica do Noruega-Senegal)

Noruegueses invadiram Times Square entre remadas viking e ioga, noruegueses invadiram MetLife Stadium em Nova Iorque para novo triunfo com bis de Haaland. E a invasão promete não ficar por aqui (3-2).

Bruno Roseiro
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Por mais que se tente ver o Mundial como um todo, há sempre algumas equipas que não passam ao lado de ninguém. Pela parte desportiva, Cabo Verde e Curaçau estão no topo. Pela parte competitiva, Países Baixos, Marrocos, EUA e México além dos habituais candidatos ao título. Depois, por tudo isso, a Noruega está num patamar diferente. Um exemplo prático: depois do espectáculo que já tinha sido ensaiado nas bancadas do Gillette Stadium, em Boston (só pela forma como contornou as regras da FIFA com uma espuma de barbear à frente do logo merece ser assim referido), a enorme falange de apoio norueguesa, toda vestida a rigor com o equipamento vermelho, voltou a fazer a coreografia a remar em plena Times Square. Mais: como o jogo era só à noite, ainda aproveitou para ensaiar uma aula de ioga com os restantes presentes. Sem palavras.

De fora de campo para os relvados, Erling Haaland e companhia viviam um momento como há muito não se via no futebol dos escandinavos. Até de uma forma “injusta”, esta qualificação para o Mundial acabou por ser uma coroação da ascensão a outro patamar do desporto da Noruega. São bons no futebol? Sim. Mas isso não bate outros projetos como aqueles que têm no andebol, no atletismo ou nos desportos de inverno. É quase um case study – aqui, dos relvados, das pistas e dos pavilhões também para fora de campo. Havia quase uma empatia inconsciente por aquela onda vermelha que veio para fazer a festa na esperança de que essa festa possa levar a uma campanha histórica na principal competição de seleções. São vikings mas, de vikings, têm o tamanho, muitas vezes os capacetes na cabeça (embora exista quem ande por ali de tronco nu) e a vontade de ganhar, a que aliam ambição, civismo e uma boa disposição que fez escola em Nova Iorque.

Era quase uma antítese daquilo que se passava no Senegal. Depois da derrota com a França, foram surgindo várias notícias a dar conta dos problemas internos que assolavam a equipa, das críticas à escolha feita pelos responsáveis para sediar os africanos durante este Mundial a situações de prémios, passando pela insólita situação do técnico Pape Thiaw que estaria a trabalhar há cinco meses… sem contrato. Agora, sabendo que nova derrota seria um carimbo quase definitivo na viagem de regresso a casa, havia também uma questão de orgulho a defender depois da rábula na final da Taça das Nações Africanas. Juntando as premissas, estava cozinhado aquele que seria um dos melhores jogos da fase de grupos do Mundial, daqueles que merecia ter quatro e não apenas duas horas como o que aconteceu no outro jogo do grupo I, o França-Iraque.

Quer mais uma imagem do que é esta Noruega? Após o apito final, que terminou nove minutos de tempo extra, o selecionador norueguês Stäele Solbakken, foi a correr para a bancada, subiu uma série de degraus como se fosse um Carlos Alcaraz ou um Jannik Sinner em Wimbledon e foi abraçar a mulher entre lágrimas à mistura enquanto milhares de adeptos faziam coreografias com os jogadores com Ödegaard a tocar o bombo para o Hu! Hu! Hu! Para quem percebe de grupos, que às vezes são tão ou mais importantes do que o futebol em si, a Noruega é cada vez mais uma equipa a ser uma verdadeira sensação neste Mundial.

O encontro começou com a Noruega a montar o cerco em torno da baliza do Senegal, ganhando três cantos consecutivos para começar a testar a estrutura defensiva dos africanos. O primeiro, não trouxe perigo. O segundo, também não. O terceiro, aí, trouxe a melhor versão de Edouard Mendy, com uma grande defesa em cima da linha a um cabeceamento de Ajer (3′). Os vikings começavam melhor mas a saída de Ryerson por lesão, a par da reação do Senegal a apostar nas transições rápidas, acabou por arrefecer esse ímpeto até perto do intervalo, altura em que o plano A dos escandinavos voltou à prática: bola longa em Haaland, desvio de cabeça do avançado para Ödegaard e remate forte para nova intervenção de Mendy (37′). Era o guarda-redes que segurava os africanos a par de Koulibaly na retaguarda mas foi a partir das duas grandes referências que tudo começou a ruir: o central do Al Hilal teve um corte deficiente que foi parar aos pés de Pedersen, o lateral arriscou o remate e Mendy acabou por não ficar bem na fotografia ao não impedir o 1-0 (43′).

Os adeptos estavam em delírio, os elementos da família real estavam em delírio, todos estavam em delírio. Todos incluindo Erling Haaland, que num raro exemplo que vai entrar para os “apanhados” ganhou a bola na pressão a Mendy mas, de baliza aberta, descaído sobre a direita, acertou no poste. No entanto, seria apenas uma questão de tempo até ao Robocop voltar para um filme mais à medida: marcou o 2-0 numa transição rápida com assistência fantásica de Ödegaard (48′), não se resignou ao golo de Ismaïla Sarr depois de um passe de Sadio Mané (53′) e voltou a bisar para o 3-1 apenas cinco minutos depois, com Pedersen a descer bem pela direita, Berg a ganhar a segunda bola na área e a assistir o avançado do Manchester City (58′). A partida estava de vez controlada pelos escandinavos, que ganharam outra vivacidade na frente com as entradas de Schjelderup e Oscar Bobb e beneficiaram de oportunidades para aumentar a vantagem mas seria o Senegal a reduzir distâncias já em período de descontos, de novo por Ismaïla Sarr (90+3′).

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A estrela

  • Se tivesse o nome de António, Joaquim ou Manuel nas costas (ou o equivalente em norueguês, como Noah, Jan ou Jakob), aquele lance nos descontos da primeira parte em que fez o mais difícil que era roubar a bola a Mendy e falhou o mais fácil que era marcar de baliza aberta ia ser motivo de gozo nos próximos dias. No entanto, aquele número 9 da Noruega tem Erling Haaland nas costas. E, com ele, é uma questão de tempo até o gozo ser outro: teve duas oportunidades na segunda parte, voltou a marcar dois golos e foi novamente a referência ofensiva da equipa bem secundado por Ödegaard.

O joker

  • Quando acordou esta segunda-feira, Marcus Pedersen terá pensado que já seria bom se ganhasse uns minutos no jogo com o Senegal. No entanto, e como no futebol tudo pode mudar num instante, foi logo chamado no quarto de hora inicial para render o indiscutível Ryerson, que saiu lesionado. Podia ser uma “crise”, tornou-se uma oportunidade: o lateral que em 2025 assinou a título defintivo pelo Torino fez o primeiro golo do jogo, esteve na jogada do 3-1 e deu boa resposta também no plano defensivo tendo muitas vezes nesse terreno Sadio Mané. Entre tantos heróis noruegueses, ele foi o mais improvável. Já do lado contrário, uma menção honrosa para Ismaïla Sarr, que bisou e deu esperança ao Senegal.

A sentença

  • Com esta vitória, a Noruega já carimbou a passagem aos 16 avos de final do Campeonato do Mundo, tendo agora um bom teste com a França não só para perceber em que patamar está a equipa mas para discutir ainda o primeiro lugar do grupo I (com o empate a beneficiar os gauleses). Já o Senegal está na mesma posição do Iraque, o próximo adversário: não está ainda matematicamente eliminado mas, mesmo ganhando a última partida, vai precisar de uma conjugação cósmica para seguir em frente.

A mentira

  • Com ou sem título na Taça das Nações Africanas, num troféu que foi ganho em campo mas perdido de seguida na secretaria (embora esteja ainda a decorrer o recurso da decisão), o Senegal chegava a este Mundial como uma das equipas africanas que melhor defendia. Tinha jogadores conhecidos e com experiência, primava pela boa organização defensiva, sofrera apenas dois golos em sete partidas feitas na última CAN. Neste Mundial, tem sido por aqui que a equipa mais tem vacilado, levando já um total de seis golos sofridos em apenas 180 minutos de competição. Com isso, era difícil aspirar a algo mais do que procurar um triunfo no último encontro com o Iraque quase como prémio de consolação…