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(A) :: Os novos amigos de Israel

Os novos amigos de Israel

Israel continuará a precisar do armamento, da tecnologia e do veto americano nas instâncias internacionais por muitos anos, e a Índia, fiel à sua tradição, guardará para si a margem de manobra

Manuel Castello Branco
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Com a assinatura, a 17 de junho, de um memorando de entendimento entre os Estados Unidos e a República Islâmica do Irão espera-se um ponto final, ou pelo menos um parêntesis, na guerra que começou a 28 de fevereiro com uma operação conjunta americano-israelita que matou o líder supremo iraniano e desmantelou boa parte do aparelho militar do regime. Mas se a guerra se iniciou como um projeto conjunto, não parece terminar da mesma maneira. Donald Trump proclama uma vitória total e sem reservas, ainda que não tenha alcançado os objetivos que traçou de início, ao passo que Benjamin Netanyahu não tem escondido a sua insatisfação. É que Israel não só ficou de fora das negociações como vê o documento deixar por resolver precisamente aquilo que mais o preocupa: o programa de mísseis balísticos iraniano e o que resta da rede de proxies de Teerão. Uma guerra prolongada teria sido um desastre para a economia global, mas uma paz que congela as capacidades convencionais iranianas sem as desmantelar é, para Telavive, igualmente má, e o atrito daí resultante é apenas o sintoma mais recente de uma brecha mais profunda entre Washington e Telavive que se vem abrindo há já algum tempo. É esta brecha, com Israel isolado no Ocidente por causa da ofensiva em Gaza e cada vez menos seguro do guarda-chuva americano, que está a empurrar a diplomacia israelita a romper com a ortodoxia de meio século que ancorava a sua política externa nas alianças ocidentais e a procurar a Leste novos parceiros, com a Índia a emergir como primeiro entre pares.

Para perceber a verdadeira dimensão deste reposicionamento convém recuar e olhar para a história entre estas duas nações. Jawaharlal Nehru, primeiro chefe de governo da Índia independente e uma das vozes fundadoras do Movimento dos Não-Alinhados, fizera da causa árabe e palestiniana um pilar da identidade externa do país, e foi isso, pelo menos em parte, que, em 1947, levou a Índia a votar contra a partição da Palestina, defendendo em alternativa um Estado único onde judeus e árabes tivessem autonomia. A posição devia tanto à estratégia de não-alinhamento como ao trauma ainda fresco da partição religiosa que nesse mesmo ano dividiu o subcontinente indiano, e era de tal modo firme que nem Einstein, que escreveu a Nehru em junho desse ano a pedir apoio à nação judaica, a conseguiu influenciar. O reconhecimento de Israel pela Índia acabou por chegar em 1950, mas como concessão pragmática a um facto consumado, e durante mais de quatro décadas a relação entre os dois Estados foi marcada pela distância, distância essa mantida sobretudo por cálculo. A ambiguidade servia à Índia em vários planos ao mesmo tempo, deixando-a apaziguar as tensões religiosas internas, preservar o petróleo árabe e proteger os milhões de indianos empregados no Golfo. Apenas em 1992, depois de a Guerra Fria ter baralhado o tabuleiro e de os Acordos de Oslo darem cobertura política a Nova Deli, se estabeleceram relações diplomáticas plenas entre os dois Estados.

O primeiro grande ponto de viragem na substância da relação chegou em 1999, durante a guerra de Kargil contra o Paquistão, quando o apoio militar israelita se revelou crucial para uma Índia que se tornara mais isolada e sancionada após os testes nucleares de Pokhran no ano anterior. Israel converteu-se então num dos maiores fornecedores de armamento da Índia, fornecendo sistemas de armas, drones e cooperação de informações que Nova Deli dificilmente encontraria noutro lado, cooperação essa que se aprofundou ainda mais depois dos atentados de Bombaim em 2008.

A abordagem ambígua resistiu, ainda assim, a estes laços crescentes, e durante muito tempo a Índia preservou o apoio à causa palestiniana e recusou uma aproximação explícita a Israel que pudesse comprometer as suas relações no Médio Oriente. Foi Modi quem desfez esse equilíbrio, e desfê-lo num momento em que o terreno regional o permitia. Em 2017 tornou-se o primeiro chefe de governo indiano a visitar Israel e, posteriormente, os Acordos de Abraão de 2020 deram-lhe a cobertura diplomática de que precisava. À medida que os Estados árabes normalizaram as suas relações com Israel, o velho consenso estabelecido que obrigava a Índia a manter a sua distância vis-à-vis Israel foi-se desfazendo. A lógica culminou em setembro de 2023, na cimeira do G20 em Nova Deli, quando a Índia propôs o Corredor Económico Índia—Médio Oriente—Europa (IMEC), apresentado oficialmente como projeto de comércio e desenvolvimento, mas que visava sobretudo a normalização entre a Índia, Israel e os parceiros árabes do Golfo.

A guerra no Irão deu a esta trajetória uma carga simbólica ainda mais clara. A ofensiva conjunta americano-israelita começou poucas horas depois de Modi deixar Israel na sua segunda visita, e o silêncio de Nova Deli nos dias seguintes pesou mais do que pesaria noutro país. A Índia sempre cultivou relações próximas com Teerão, que valoriza como fornecedor de energia, como corredor de trânsito para o Afeganistão e a Ásia Central e como contrapeso à influência paquistanesa, relação cuja profundidade o porto de Chabahar, recuperado e operado por indianos, bem ilustra. Perante o conflito aberto entre Israel e o Irão, a Índia absteve-se de tomar partido em público, mas as suas ações, e sobretudo os seus silêncios, deixaram transparecer de que lado se inclinava. E esta convergência, que ainda não está cristalizada ao ponto de merecer o nome de aliança, não se alimenta apenas de interesses.

Alimenta-se também de uma afinidade ideológica genuína entre os dois líderes. Modi e Netanyahu apresentam-se, ambos, como defensores de uma maioria religiosa supostamente ameaçada, hindu num caso e judaica no outro, e como baluartes contra o terrorismo islâmico, do qual fizeram argumento central de venda dos seus governos. A governação de Modi e do seu partido BJP está ligada à Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), a organização paramilitar nacionalista hindu onde Modi começou a sua carreira política, e à ideologia Hindutva, com o seu projeto de afastamento das fundações seculares do Estado indiano. Estas posições encontram eco no projeto de Netanyahu de se distanciar das origens seculares e de esquerda do Estado de Israel para impor uma leitura judaico-nacionalista, bem visível na escolha de parceiros de coligação como o Poder Judaico e o Partido Sionista Religioso. Tanto Modi como Netanyahu cultivaram, e cultivam, durante os seus mandatos ambientes em que a hostilidade às minorias religiosas dos seus respetivos países se intensificou, em que o poder das instituições independentes e do Estado de Direito se erodiu. A ambos serve a gramática de segurança nacional, que enquadra a maior minoria religiosa de cada país, em ambos os casos muçulmana, como ameaça demográfica e existencial à identidade dominante. E encontramos até uma simetria nas mitologias territoriais, com Netanyahu e os seus aliados a difundir de forma cada vez mais aberta (tanta na retórica como nas suas ações) a visão de Eretz Israel ou Grande Israel e Modi associado, pelos seus laços à RSS e ao peso desta no BJP, ao conceito de Akhand Bharat, que propugna uma Índia “unificada” com territórios que hoje pertencem a países como o Paquistão, Nepal, Bangladesh, Sri Lanka, entre outros do Sul Asiático.

É por isto que, enquanto a reputação de Netanyahu se afunda no Ocidente, sobretudo por causa da catástrofe humanitária provocada pela ofensiva em Gaza, mas também pela conduta israelita na Cisjordânia e no Líbano (com o próprio Trump a sugerir que Israel poderia delegar a questão do Hezbollah à Síria por desaprovar a forma como Telavive conduz as suas operações), a leitura em Nova Deli é radicalmente outra, nomeadamente, a de um aliado que combate um inimigo comum. Neste enquadramento, para um país cada vez mais isolado como Israel, a perspetiva de ter um parceiro comercial de grande dimensão como a Índia com quem partilha visão geopolítica e até ideológica constitui um ativo de valor substancial.

Seria, porém, um erro tomar esta afinidade pelo único motor da convergência. O que dá a este alinhamento emergente uma fundação durável é antes uma lógica estrutural de segurança que sobreviverá a ambos os líderes.

Os Emirados Árabes Unidos têm reforçado, em simultâneo, as suas relações com Israel e com a Índia, ao passo que a Arábia Saudita se aproximou do Paquistão, com quem assinou em setembro de 2025, em Riade, um pacto de defesa mútua cuja cláusula central declara que qualquer agressão contra um dos países será considerada agressão contra ambos. Israel sempre olhou com apreensão para o arsenal nuclear paquistanês, e essa apreensão agudizou-se com a perceção de que o pacto estende ao reino saudita um guarda-chuva nuclear de facto, ainda que a leitura mais sóbria advirta que se trata mais de um escudo simbólico de irmandade do que de um gatilho automático, dado que a postura nuclear paquistanesa gravita quase exclusivamente em torno da Índia e do Sul Asiático. Adote-se ou não uma interpretação maximalista do pacto, o que conta para Telavive é a ameaça àquilo que se chama a sua escalation dominance na região, ou seja, a sua capacidade de impor, a todas as fases de um conflito armado, um prejuízo maior aos seus inimigos do que estes lhe conseguem impor. Esta ameaça ganha contornos mais nítidos com a reorganização que se desenha em paralelo, com o Paquistão e a Arábia Saudita a estreitarem a cooperação com a Turquia de Erdogan, que Netanyahu enquadra como a maior ameaça ao Estado judaico depois do enfraquecimento do regime iraniano. Essa parceria prolonga-se ainda para o norte e o leste de África, sobretudo no Sudão, na Etiópia e na Somália, onde os interesses saudita, turco, egípcio e paquistanês parecem colidir de forma cada vez mais clara com os de Israel, da Índia e dos Emirados.

É com este plano de fundo que a aproximação entre Israel e a Índia se passa a ler como um contrapeso deliberado ao agrupamento que se forma do outro lado. Cada movimento do eixo sunita encontra, do outro lado, um incentivo para o aprofundamento do eixo rival. O pacto saudita-paquistanês, ao estender a Riade a cobertura de um Estado nuclear, dá à Índia mais uma razão para aprofundar a parceria de defesa com Israel, que continua a ser um dos poucos fornecedores capazes de lhe dar a vantagem tecnológica que procura perante Islamabad. A entrada da Turquia nesta equação, por sua vez, alarma simultaneamente Telavive e Abu Dhabi, desde logo pelos laços do partido de Erdogan (o AKP) com a Irmandade Muçulmana. E a disputa que se trava no Corno de África e no Mar Vermelho, onde os interesses dos dois agrupamentos colidem de forma cada vez mais direta, confirma que o que algumas pessoas insistem em ler como rivalidades avulsas se cristaliza numa única linha de fratura que atravessa três regiões. A lógica que governa o realinhamento é, para além de alinhamento ideológico, no fundo, a mais elementar de todas: o inimigo do meu inimigo.

Nada disto significa que as alianças aqui referidas estejam irreversivelmente seladas, nem que a relação de Israel com Washington se vá romper no curto prazo, e seria imprudente dá-lo por garantido. Israel continuará a precisar do armamento, da tecnologia e do veto americano nas instâncias internacionais por muitos anos, e a Índia, fiel à sua tradição, guardará para si a margem de manobra de que sempre recusou abdicar. Mas a direção é inequívoca e é precisamente por a relação assentar em adversários partilhados e em interesses de segurança convergentes, e não apenas na química passageira entre dois homens, que ela tem todas as condições para sobreviver a Modi, a Netanyahu e às guerras que hoje a aceleram.