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(A) :: Sim, Messi fica na história. Mas sim, Mbappé vai lá chegar – nem que os jogos durem quatro horas (a crónica do França-Iraque)

Sim, Messi fica na história. Mas sim, Mbappé vai lá chegar – nem que os jogos durem quatro horas (a crónica do França-Iraque)

França-Iraque foi o primeiro jogo do Mundial suspenso pelas condições climatéricas. Em vez de duas, demorou quatro horas. Quatro horas que se podem resumir em dois números: 16 jogos, 16 golos (3-0).

Bruno Roseiro
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Apesar da goleada, sobraram histórias. E quase todas boas histórias. Os erros do experiente (pelo menos em termos de idade) Jalal Hassan foram uma das imagens de marca da estreia, acabando mesmo por valer um passaporte direto para o banco a partir daí, mas a estreia do Iraque num Mundial quatro décadas depois teve, em paralelo com a goleada sofrida frente à Noruega, um golo na competição 14.618 dias depois pelo avançado Hussein, a estreia do primeiro jogador com raízes paquistanesas na maior prova de seleções e uma imagem positiva pela forma como tentou fazer um jogo de igual para igual contra uma equipa que era superior (aliás, bastava haver Erling Haaland e a balança desequilibrava logo). No entanto, aquilo que mereceu mais elogios foi também o início do fim para os iraquianos – e o teste que se seguia era ainda mais complicado…

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A França é sempre aquela equipa favorita a ganhar qualquer grande competição mas que funciona como uma caixinha de surpresas: primeiro, abre-se; depois, espera-se uns dias; a seguir percebe-se como estão as coisas em termos internos; por fim, chega-se a uma conclusão. Foi por isso que 2002 e 2010 correram tão mal e não foram além da fase de grupos, foi por isso que 2006 só não correu melhor devido à derrota nos penáltis com a Itália na final. Com Didier Deschamps no comando, a partir de 2012, depois de uma “estabilização” de toda a estrutura na sequência de um tenebroso final de Raymond Domenech (que começou com a exclusão de quase todos os jogadores de signo escorpião da convocatória do Mundial-2010), tudo foi mudando. Começou a ser quase prova-sim-prova-sim com sucesso, com uma exceção no Europeu de 2020 onde bastou o técnico não controlar o balneário e tudo ruiu. De resto, e desde 2016, entrou sempre no top 4 dos Mundiais e dos Europeus, venceu o Mundial de 2018 e foi às finais do Euro-2016 e do Mundial-2022.

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Pode gostar-se mais ou menos do estilo ou da forma, não há como beliscar o conteúdo – mesmo que seja o capítulo final de uma era de 14 anos. Deschamps teve o mérito de gerir da melhor forma o balneário. Nem sempre foi fácil, na maioria das vezes conseguiu. Com isso, era só escolher os melhores entre os melhores e colocar a equipa a jogar de forma segura, numa estrutura que faz muitas vezes lembrar aquela que integrou como jogador e que foi campeã mundial (1998) e europeia (2000) com a nuance de ter duas unidades mais pelo meio na frente, apesar de toda a mobilidade de movimentos e posições, e não a figura de um 10 num triângulo do meio-campo como nos tempos do mágico Zidenide Zidane, o provável sucessor de Deschamps no comando técnico gaulês. Foi isso que permitiu que, apesar do triunfo diante do Senegal, o técnico fizesse três alterações sem perder qualidade, trocando Théo Hernández, Tchouaméni e Doué por Lucas Digne, Koné e Barcola. São muitas opções, são todas boas opções. Ainda assim, há uma “opção” acima das outras.

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Como seria de esperar, a França não demorou a assumir o comando do encontro mas com uma diferença em relação à estreia com o Senegal: estava melhor, mais rápido e muito agressivo na reação à perda, o que fazia com que o Iraque não tivesse mais do que três/quatro passes seguidos e a bola andasse sempre na fronteira do último terço gaulês. Koné teve uma primeira ameaça que Kylian Mbappé não conseguiu desviar, o mesmo Kylian Mbappé comemorou da melhor forma a sua 100.ª internacionalização com um golo fantástico de pé esquerdo de fora da área – e recordou tudo e todos que, enquanto se faz a festa pelos históricos 18 golos de Lionel Messi em Mundiais, ele já vai nos 15… e só tem 27 anos, podendo fazer esta mais duas fases finais (14′). As notícias já não eram famosas para o Iraque e pior ficaram na paragem para hidratação, quando o avançado Hussein, a grande estrela da companhia, saiu agarrado ao adutor por troca com Ali Alhamadi.

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O jogo entrou depois numa toada de menor interesse, com a colocação de Olise mais por dentro, apesar da assistência para Mbappé, a não permitir que o ala do Bayern entrasse tantas vezes em situações de 1×1 como gosta a partir do corredor direito. Ainda houve mais uma jogada fantástica de Mbappé com um corte fulcral no momento decisivo de um defesa iraquiano mas aquilo que se falava era de outro “fenómeno”: a partir dos 37′, os adeptos começaram a sacar as capas para a chuva, pouco depois havia um dilúvio a cair com o céu cada vez mais escuro e, como se temia, o início da segunda parte acabou por ser suspenso inicialmente por meia hora devido à possibilidade de trovoada que levou ao pedido cumprido por quase todos para que encontrassem um local para se abrigarem até indicações ao contrário. Pela primeira vez na história das fases finais de um Campeonato do Mundo, as condições climatéricas faziam com que um jogo fosse interrompido.

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Ainda houve quem preferisse andar a brincar à chuva mas os avisos de tempestade e relâmpagos eram para ser levados a sério. Tanto que foi preciso esperar exatamente duas horas para a segunda parte ter início, na sequência de um pequeno período de aquecimento. A chuva parou, o relvado foi secando, um erro da defesa do Iraque quando nem tinha recomeçado mal deitou tudo a perder, com a resposição de bola num pontapé de baliza a transformar-se numa assistência de Dembélé para Mbappé (54′). O jogo estava de vez fechado mas foi aí que a França começou a dar espectáculo. Espectáculo e a dois níveis: pelo brilho que as principais estrelas foram dando ao jogo e pela forma como todos corriam após a perda de bola. Olise ainda teve uma bola de génio na trave (58′) mas o 3-0 não iria demorar, com o mesmo Olise a assistir Dembélé na área para o remate cruzado (66′). Depois, o ritmo abrandou. Mas quem pode tirar aos 70′ Olise e Dembélé para lançar no encontro Doué e Cherki é alguém que se tem de assumir como um dos grandes candidatos.

A estrela

  • Quando olhamos para os números de Lionel Messi em Mundiais, sobretudo após ter batido o registo de Miroslav Klose chegando aos 18 golos, ficamos rendidos. Mas calma, e se virmos os de Mbappé? Já foi campeão mundial em 2018, já esteve numa outra decisão perdida com a Argentina em 2022 e, depois de mais um bis neste Campeonato do Mundo, leva um total de 16 golos… em 16 jogos. Tudo no dia em que chegou à 100.ª internacionalização pela França, com mais uma exibição de sonho em que voltou a mostrar como está bem mais solto em termos físicos do que na segunda metade da época em Madrid.

O joker

  • Michael Olise, um dos mais discretos da França fora de campo que não consegue ser discreto quando joga, não tem propriamente esses patamares de jogar bem ou mal. Não, não é assim – ou joga bem ou joga muito bem. Foi isso que voltou a acontecer no triunfo francês, primeiro a ocupar posições mais centrais no eixo do ataque que não lhe são tão confortáveis (mesmo assim, fez a assistência para o 1-0 de Mbappé) e depois a partir mais na direita para criar desequilíbrios como aquele que valeu um chapéu à trave da baliza do Iraque. Ainda antes de ser “poupado”, saindo a 20 minutos do final, o ala do Bayern aproveitou a dinâmica coletiva ofensiva para ir ao meio de passagem e assistir Dembélé para o 3-0.

A sentença

  • Com este triunfo, a França já assegurou a passagem à próxima fase do Mundial, defrontando a Noruega pela luta pelo primeiro lugar do grupo I na última jornada (o empate pode ou não ser suficiente, tendo em conta que os escandinavos ainda jogam com o Senegal). Já o Iraque, que defronta o Senegal na última jornada, não está ainda automaticamente eliminado mas vai precisar de uma cojugação cósmica para chegar aos 16 avos de final caso vença os africanos tendo em conta o atual saldo de golos (1-7).

A mentira

  • Havia esse risco, a chuvada na parte final da primeira parte fez soar de novo os alarmes, o inevitável lá aconteceu ao intervalo. O França-Iraque foi o primeiro encontro de sempre de um Mundial suspenso pelas condições climatéricas, neste caso o risco de relâmpagos e trovoadas, com um alerta no Lincoln Financial Field sobre a possibilidade de descargas elétricas próximo do estádio. As “regras” são essas, como já se tinha visto no Mundial de Clubes do ano passado (o Benfica-Chelsea ainda tem o recorde, com 4h38 desde o apito inicial), mas a questão é outra: sabendo-se que é assim, que pode acontecer e que não é assim tão raro quanto isso, não deveria haver planos B para evitar esperas de duas horas a meio de uma partida? E, caso exista um problema destes na última jornada em que os jogos de cada grupo têm de começar à mesma hora, como poderá ser resolvida a situação?