Já tínhamos visto André Ventura chorar uma vez. E não há mal nenhum nisso. Já dizia o hino de campanha do Menino Guerreiro, político que o líder do Chega já apoiou convictamente no passado: “Um homem também chora”. Na II Convenção do Chega, em Évora, em 2020, quando muito pouca comunicação social acompanhava o partido, o líder do Chega só conseguiu aprovar a sua direção à terceira tentativa e depois de subir ao palco para fazer um apelo em lágrimas. O que foi mais insólito foi vermos André Ventura fazer chorar, de comoção e alegria, o líder da CGTP, Tiago Oliveira.
A decisão de Ventura na última sexta-feira, de chumbar a reforma laboral ainda na fase de generalidade, é mais um sinal que o Chega está muito longe de se posicionar na direita económica. Apesar de simular em algumas circunstâncias que é um partido liberal — que fica bem a quem quer, nas palavras de Ventura, acabar com a “mama” do Estado — a prática mostra o contrário. Ventura enquadra-se muito mais num social-populismo. E, ocasionalmente, até num socialismo-populismo. A inspiração de Ventura é, sem dúvida, mais populista que socialista, mas não deixa de fazer propostas ou dar respostas que são, no espírito, socialistas.
É verdade que, nos últimos meses, o Chega esteve mais tempo contra as mudanças na legislação laboral do que a favor. Mas também é verdade que nunca excluiu negociar com a AD e que, um dia antes da votação, disse que ia conseguir a “maior vitória das últimas décadas em Portugal” para os trabalhadores. Um dia depois erguia o punho fechado em direção às galerias onde as centrais sindicais aplaudiam o resultado da ocasional coligação PAN-BE-PCP-PS-Chega.
A grande motivação de André Ventura em chumbar a legislação laboral foi a mesma que o levou a estar quase sempre contra ela nos últimos meses: ser impopular. Os eleitores não queriam esta reforma. E o líder do Chega é incapaz de querer o que os eleitores não querem. Ainda para mais quando insuflado por uma sondagem que o colocou à frente do PSD.
Mas o irresponsável populismo de Ventura não começou na sexta-feira à hora de almoço. A grande moeda de troca que Ventura sempre propôs para aprovar as alterações foi a descida da idade da reforma. O próprio ídolo do líder do Chega, Passos Coelho, disse que essa mesma proposta é de um “absurdo” e “irrealismo”, que “mostra populismo em excesso” e terminou com uma demolidora questão: “Quando as coisas assumem este caráter, eu pergunto: são não socialistas? Nem os socialistas têm coragem de baixar a idade da reforma”. Atestado por Passos, a proposta que Ventura insistiu ad nauseam é populista. E socialista.
Outra das contrapartidas do Chega, as subvenções vitalícias, era igualmente populista. André Ventura dizia ter chegado a acordo com o Governo para acabar com a atribuição destas subvenções quando, na verdade, elas acabaram em junho de 2005. A decisão do Governo de José Sócrates — que nessa altura já tinha a sua subvenção garantida — acabou com esta “regalia” quatro meses depois de tomar posse. Todos os políticos (do continente, foi diferente nas regiões autónomas) que receberam subvenções vitalícias depois dessa data foi porque já tinham, legalmente, direito a ela até 8 de junho de 2005. Ou seja: Ventura quis acabar com o que já não existia.
Embora não relacionado diretamente com a legislação laboral, houve outra atitude de Ventura que foi tão flagrantemente populista e demagógica que é difícil de ignorar. No debate quinzenal com o primeiro-ministro, o líder do Chega propôs à Federação Portuguesa de Futebol que desse os bilhetes dos convites a políticos para assistir a jogos da seleção “a pais com crianças no IPO que possam viajar”. Desde logo, o Chega só tinha direito a dois bilhetes, um para o líder parlamentar, Pedro Pinto, outro para o líder do partido, André Ventura. Pedro Pinto pediu, aliás, autorização a Aguiar-Branco para ir aos EUA e só recuou depois de sair uma notícia a dar conta disso. Além disso, a última coisa que os pais que têm crianças no IPO pensam é em viajar para os EUA. Usá-las assim para o combate político é lamentável. Mesmo que a ideia fosse boa, que não era, teria valor se Ventura o tivesse feito no recato, nunca assim.
Sobre o populismo de Ventura, estando tão presente, dispensa mais casos que o comprovem. Já a veia socialista e estatizante do Chega, que parece mais esbatida, pode passar despercebida aos mais distraídos. Mas ela manifesta-se em vários exemplos. O partido de Ventura quer — como se pode ler na página 239 do programa eleitoral de 2025 — “uma maior presença do Estado em setores críticos, quer através da regulamentação, quer através da participação estratégica em infraestruturas essenciais”. Leia-se nacionalizar ou aumentar a participação em várias empresas.
Sobre o controlo público da TAP, embora a posição de Ventura vá oscilando, ainda em janeiro o então candidato presidencial enviou ao Observador uma resposta em que disse que “tendencialmente” a companhia deve ser maioritariamente detida pelo Estado, embora tenha admitido que isso pode não ser “necessariamente” assim se houver garantias de que continua a ser uma companhia de bandeira. Também no programa eleitoral das legislativas, na página 160, Ventura exigia que o Estado mantivesse uma participação acionista que “assegurasse presença no Conselho de Administração da TAP e da ANA”.
Também em matéria de despesas sociais, o líder do Chega tem defendido mais encargos para o Estado. No programa eleitoral de 2025, o Chega propunha “assegurar o aumento da pensão mínima, que numa primeira fase, deve igualar-se ao valor do IAS e, posteriormente, ao valor do Salário Mínimo Nacional”. Para não esquecer que Ventura chegou a propor, em 2023, utilizar fundos europeus para pagar este aumento, ideia que só entrontra paralelo nos 10 mil milhões de euros que Pedro Sánchez desviou do PRR espanhol.
Para sermos totalmente justos, é preciso dizer que Ventura também defende medidas liberais, como a descida de todos os impostos e o fim de tudo quanto for taxas, mas, mais do que uma motivação ideológica ou estratégia económica (que é evidente por parte da IL), a motivação do Chega é muito mais o benefício eleitoral de curto prazo. Em matéria de valores e visão de sociedade, o Chega é, sem dúvida, um partido de direita e conservador. Mas em matéria económica, não é de esquerda, nem de direita. É do que for popular. A “ideologia” única é o populismo.
As reformas são, pela própria natureza, impopulares. Porque trazem mudança, porque mexem com as estruturas de uma determinada área. E, muitas vezes, significam custos. O Governo, este ou qualquer outro, até pode contar com o Chega para mexer na PSU (por ir ao encontro da toada contra a subsidiodependência), mas dificilmente contará com André Ventura para uma reforma laboral ou mesmo para qualquer alteração legislativa que seja necessária à reforma da modernização administrativa. Mais depressa, pela natureza do Chega, veremos Ventura a votar novamente ao lado de José Luís Carneiro, Paulo Raimundo ou Fabian Figueiredo do que a aprovar uma reforma para o país.