Há 10 anos, a 23 de Junho de 2016, 52% dos britânicos votaram para sair da União Europeia. Vale a pena olhar para esse momento. Não com a arrogância de quem “tinha razão”, mas com a serenidade de quem procura compreender o que ele revelou sobre a Europa e o que representa para o projecto de integração.
Comecemos pelos factos: O Gabinete de Responsabilidade Orçamental, o organismo independente que avalia as contas públicas britânicas, mantém desde 2016 a estimativa de que as exportações e importações do Reino Unido são 15% inferiores ao que seriam dentro da União; isto associado a uma quebra de 4% na produtividade potencial a longo prazo. Estudos mais recentes apontam números mais impressionantes: o National Bureau of Economic Research estima que, até 2025, o impacto acumulado tenha atingido entre 6% a 8% do PIB. Em valor absoluto, falamos de dezenas de milhares de milhões de libras anuais que ficaram “de fora” da economia britânica.
A dimensão mais reveladora não é, porém, económica. É política. A saída britânica foi, a certa altura, encarada como o início de uma debandada: o primeiro dominó de uma reacção em cadeia que desmantelaria a União. Uma década depois, nenhum dos restantes 27 Estados seguiu o exemplo. Pelo contrário: mesmo as forças nacionalistas e populistas do continente fazem agora questão de garantir aos seus eleitores que não pretendem sair. O referendo que devia provar que a Europa era dispensável acabou por demonstrar precisamente o contrário. O Brexit não foi o paciente zero de uma pandemia anti-europeia; acabou por ser uma vacina contra as narrativas nacionalistas.
A prova mais eloquente vem da própria opinião pública britânica. Segundo um estudo do European Council on Foreign Relations (ECFR) publicado ontem, 66% dos britânicos avaliam negativamente o Brexit. Já no mês passado, um estudo do YouGov indicava que 56% apoiariam o regresso à União (apenas 35% se oporiam, bem longe dos 52% que apoiaram a saída há uma década). O debate sobre o rejoin (o regresso) ganhou nova vida e tornou-se parte do quotidiano político britânico, que está particularmente agitado com a demissão do Primeiro-Ministro nas últimas horas.
Convém, no entanto, não retirar daqui conclusões fáceis ou precipitadas. O caminho de regresso é complexo: a União mudou na última década e questões como a moeda única, Schengen ou as contribuições orçamentais – sobretudo depois do Conselho Europeu da semana passada – seriam pontos de negociação exigentes.
O arrependimento de uns – por muitos que sejam, hoje – não apaga as causas que levaram outros ao voto de 2016. E é aqui que reside a verdadeira lição.
O Brexit foi, antes de tudo, um sintoma. Uma resposta (errada, mas real) a sentimentos legítimos de distância, de aversão à burocracia, de rejeição de decisões tomadas longe de quem com elas lida.
Esses sentimentos não desapareceram com a saída britânica. Continuam vivos no continente, alimentados pelos mesmos populismos que prometem soluções simples para problemas complexos.
O paradoxo deste aniversário é esse: os cidadãos europeus continuam a esperar mais da Europa, mas pedem eficácia, não formalismo. Não rejeitam a União; exigem que ela decida melhor, mais depressa e que esteja mais presente nas suas vidas. O problema europeu não é excesso de ambição. É, demasiadas vezes, défice de execução.
A lição do Brexit não é, por isso, só para o Reino Unido. É para os que ficámos.
Uma União que não escute os seus cidadãos, que não responda às suas preocupações concretas, que não se aproxime de quem dela depende, cria as condições para que o erro se repita noutro lugar. Dez anos depois, o caminho não é celebrar o fracasso alheio. É garantir que ele não volte a acontecer.