Por estes dias, uma rara obra de Amadeo de Souza-Cardoso está ao alcance dos olhares mais curiosos. Até quarta-feira, dia em que será disputada em leilão na Veritas, em Lisboa, a pintura Copo branco belleza dos objectos (1915-1916) pode ser apreciada gratuitamente pelo público. Pertencente a um colecionador privado que prefere manter o anonimato, a tela reaparece agora perante os visitantes, oferecendo uma oportunidade pouco comum para observar de perto uma obra que ajuda a reconstituir o percurso daquele que é, porventura, o nome mais sonante do modernismo português. Embora a importância de Amadeo seja consensual, a oportunidade de contemplar o seu legado de perto é escassa, sobretudo quando guardado fora do circuito público. Esta natureza-morta, espelho fiel da linguagem pictórica do pintor, nasceu num dos períodos mais decisivos da sua curta vida. Resta agora a expectativa de que o seu próximo destino seja uma instituição ou um colecionador empenhado em mantê-la acessível ao público.
Para compreender o peso histórico desta tela, é preciso recuar até ao final de 1916. Em plena Primeira Guerra Mundial (1914-1918), Amadeo de Souza-Cardoso regressara a Portugal vindo de Paris e, num gesto de audácia, organizara duas exposições individuais que abalaram o panorama artístico nacional: primeiro no Porto, no Salão de Festas do Jardim Passos Manuel, e depois na Liga Naval, em Lisboa. Copo branco belleza dos objectos foi uma das obras escolhidas pelo próprio pintor para confrontar o público português com a vanguarda europeia. Numa época em que o país ainda recuperava do choque do modernismo, a ousadia de Amadeo foi recebida com incompreensão por muitos, mas fixou as bases da modernidade na arte portuguesa.
Com uma base de licitação que começa nos 375 mil euros (sendo que o valor final de venda ainda está em aberto), a obra em óleo sobre tela, pertencente ao período final da produção artística de Amadeo, reflete uma “fase marcada pela experimentação formal e pela assimilação de linguagens ligadas ao cubismo e às vanguardas europeias”, assinala a Veritas num comunicado sobre o leilão. Registada no catálogo raisonné do artista, publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian, o percurso do quadro prolonga-se por mais de um século e “acompanha alguns dos momentos mais relevantes da receção crítica da obra de Amadeo”, sublinham.
Ao Observador, a historiadora de arte e docente da NOVA FCSH Joana Cunha Leal sumariza os momentos-chave deste percurso. “Amadeo de Souza-Cardoso não vendeu muitas obras em vida (há exceções notáveis, como o conjunto de três obras que vendeu no Armory Show, em 1913), pelo que a maioria das suas obras vem do legado da sua mulher, Lucie (as que a Gulbenkian comprou) e, em menor número, da família. O catálogo raisonné da obra de Amadeo, realizado sob a direção da historiadora de arte e curadora Helena de Freitas, dá-nos indicações precisas quanto à proveniência: pertenceu a Armando José de Sousa Cardoso (sobrinho de Amadeo) até 1959. Entrou, portanto, no mercado tardiamente, ainda num momento em que a pintura de Amadeo era muito menos conhecida e valorizada. Creio que passou depois por vários colecionadores particulares”, conta.
Sendo datada de cerca de 1915-16, a historiadora sustenta que a tela foi certamente pintada em Manhufe, no atelier de Amadeo, e que, também pelas dimensões, atesta “uma proximidade com os trabalhos que o pintor estava a desenvolver no âmbito do coletivo Corporation Nouvelle”. Tratou-se de uma plataforma efémera de circulação artística através de exposições itinerantes, um projeto criado pelo casal de artistas Sonia e Robert Delaunay, exilados em Portugal neste período, no qual colaboraram Amadeo, Eduardo Viana e Almada Negreiros, assim como Blaise Cendrars, Guillaume Apollinaire e o pintor russo Daniel Rossiné.
Além das exposições de 1916, sabe-se ainda que Copo branco belleza dos objectos fez parte das grandes retrospetivas dedicadas ao artista no Palácio Foz, em Lisboa, e no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, em 1959. Participou também numa exposição realizada em 1985 na Galeria Jornal de Notícias (Porto), na mostra Amadeo de Souza-Cardoso: Diálogo de Vanguardas, organizada pela Gulbenkian em 2006, e na grande retrospetiva apresentada em 2016 no Grand Palais, em Paris. São, aliás, destas duas últimas exposições que se encontram as respetivas etiquetas coladas no verso do quadro.
Obra marcada pelo uso da cor e pela geometria
Nascido em Manhufe, Amarante, em 1887, Amadeo de Souza-Cardoso é considerado uma das figuras centrais da arte moderna portuguesa e um dos mais destacados representantes das vanguardas europeias do início do século XX. Entre Paris e Manhufe, onde manteve atelier, o artista desenvolveu “a mais séria possibilidade de arte moderna em Portugal num diálogo internacional, intenso, mas pouco conhecido, com os artistas do seu tempo”, como sublinhou Helena de Freitas.


De um modo aberto, a sua prática cruzou movimentos como o cubismo, o futurismo ou o expressionismo. Por sua vez, o quadro agora em leilão está, no entender de Joana Cunha Leal, “perfeitamente enquadrado na sua obra, sempre muito marcada pelo uso da cor, e que atesta o diálogo que Amadeo manteve com os desenvolvimentos do cubismo”. O título da mesma concede por isso uma pista importante na leitura da obra. “Trata-se da representação de um copo branco cuja ‘beleza’ é acentuada pelo registo da sombra e das reverberações de luz. É, portanto, uma natureza-morta onde encontramos outros elementos característicos do trabalho de Amadeo nos anos de 1915 e 1916: a inscrição de eixos quadrangulares quebrados (a lembrar a letra C) e a assinatura a pochoir [marcada a escantilhão]”, explica a historiadora.
A constante experimentação – que aqui também se sugere – reflete o percurso de um verdadeiro autodidata no campo da pintura. Amadeo de Souza-Cardoso estudou brevemente arquitetura nas Belas-Artes, em Lisboa, mas foi em Paris que frequentou as academias livres em pintura, construindo um percurso artístico considerado voraz, livre e diversificado. Num vídeo-ensaio disponibilizado pela leiloeira, Joana Cunha Leal explica que nesta tela se vê um copo e uma base quadrangular, onde o pintor “projeta a sua sombra em tons azulados”, surgindo ali “elementos que têm reverberações de outras obras de Amadeo de Souza-Cardoso, nomeadamente as aguarelas que o artista produziu para o álbum da Corporation Nouvelle”.
A historiadora destaca igualmente a proximidade ao cubismo, até pelo tema que trata. “É uma natureza-morta, o que é algo muitíssimo trabalhado pelos cubistas, num género artístico ancestral. É uma celebração do objeto e da beleza, muito ligada à reverberação da luz”, sintetiza no mesmo ensaio.
Uma nova tentativa de leilão
Sendo uma obra tão marcante e com um historial de exposições tão rico, a sua vinda a público reacende o debate sobre o valor de Amadeo no mercado de arte contemporâneo. A obra em causa já tinha sido alvo de um leilão em 2021, pela Cabral Moncada. Nesse passado próximo, com o mesmo valor de licitação, a tela não encontrou, no entanto, quem a comprasse. Ao Observador, o CEO da Veritas, Igor Olho-Azul, diz ter mais motivos agora para acreditar no sucesso da sua venda. O Observador, por intermédio da Veritas, tentou obter um esclarecimento junto do vendedor anónimo sobre os motivos que levam agora à venda da obra, mas não obteve resposta.
“Passou algum tempo e isso permitiu também perceber como o mercado evoluiu e por que razão, na altura, não esteve tão recetivo à peça. Provavelmente, estava integrada numa coleção muito grande, com outras obras que acabaram por desviar atenções. Chegou agora o momento de fazermos o nosso trabalho, que passa por perceber como apresentar esta obra da melhor forma e encontrar uma nova casa para ela, seja uma coleção privada ou uma instituição”, explica ao Observador.
Presente num lote com mais de 140 obras de arte moderna e contemporânea, a tela de Amadeo é o grande cartão de visita deste leilão e uma das obras mais importantes leiloadas pela Veritas até hoje. “Nesta escala e importância, é a obra mais significativa do Amadeo e por isso as expectativas são altas”, acrescenta o CEO, sublinhando que no passado foi leiloada uma pequena tabuleta do artista, assim como um múltiplo completo do seu álbum XX Dessins.
Da análise feita pela leiloeira ao percurso de Copo branco belleza dos objectos, Igor Olho-Azul explica que, depois de 2021, a tela voltou para o seu colecionador. “Sabemos que está na posse deste vendedor há muitos anos, mas há informação que precisa de ser atualizada. Esta obra já estava no nosso radar há algum tempo, porque gostamos de vender peças boas e tem a ver com fazermos bem o trabalho de casa e a maneira como mostramos as peças ao público. Naturalmente queremos ser uma leiloeira que tem critério e qualidade e são estas obras que nos dão prazer em apresentar”, salienta.
O lugar de Amadeo
Caso a obra não encontre comprador no momento, a leiloeira explica que poderá existir uma negociação pós-leilão através de conversas com colecionadores interessados. “Somos intermediários, não nos cumpre a nós adquirir. O que queremos é encontrar um comprador”, sublinha Igor Olho-Azul. No trabalho desenvolvido pela Veritas, a comparação com outros casos de mercado, o valor do artista e a escassez de obras em circulação são fatores determinantes na hora de fixar o preço, num processo que é explicado por Maria Moser, especialista de Arte Moderna e Contemporânea da leiloeira.
“Trata-se de um artista com pouca obra a circular e, mais ainda, uma obra deste período e com esta qualidade. Em relação à documentação, foi feito todo um trabalho ao longo dos últimos anos por vários historiadores, pelo que acaba por ser relativamente fácil contextualizá-la, o que também simplifica o processo. Neste caso, o interessante é de facto existir uma obra destas no mercado, fazendo chegar ao público esta possibilidade de adquirir um Amadeo e ajudando a compreender a dimensão que ele teve como artista”, sustenta a especialista.




É neste ponto que se sublinha também a morte abrupta do pintor aos 30 anos, em 1918, vítima da pneumónica. Foi o fim prematuro de uma produção em fase de crescente maturidade e de uma carreira internacional promissora, mas ainda em consolidação. Como escreveu a historiadora Helena de Freitas, esse trágico facto biográfico vetou o artista a um esquecimento que se estendeu no tempo dentro e fora de portas: “O silêncio que durante longos anos cobriu com um espesso manto a visibilidade interpretativa da sua obra […], e que foi também o silêncio de Portugal como país, não permitiu a atualização histórica internacional do artista”.
Só a partir dos anos 50 – com uma exposição evocativa do seu cinquentenário na Galeria Alvarez, no Porto – e nas décadas seguintes é que esse trabalho de resgate existiu, ainda que de forma espaçada. Aquando do centenário do seu nascimento, em 1987, com uma grande mostra retrospetiva no Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Calouste Gulbenkian, consolidou-se o seu caminho de reconhecimento historiográfico. Hoje, o reconhecimento de Amadeo estende-se muito para além dos museus, refletindo-se numa vasta bibliografia, em documentários e até numa longa-metragem biográfica (Amadeo, 2020).
O desejo de ver a obra acessível ao público num futuro próximo é, também por isso, partilhado por Maria Moser e Joana Cunha Leal. “A razão seria dar ao Amadeo o destaque que ele merece e colocá-lo até em diálogo com outros artistas e com os vários discursos da modernidade, sendo que ele fez sempre o seu próprio discurso autoral”, explica Maria Moser.
“Creio que se fez já um trabalho notável de divulgação da obra de Amadeo e que a generalidade do público em Portugal identifica minimamente a sua obra. Já fora do país, sim, o Amadeo continua a ser muito mal conhecido. Seria ótimo se esta tela pudesse vir a integrar a coleção de um museu de referência lá fora”, acrescenta Joana Cunha Leal. Para isso, diz a historiadora, é preciso continuar a garantir a visibilidade do seu trabalho. “As últimas grandes exposições da obra de Amadeo aconteceram em 2016 e, desde então, apenas foram expostas ao público poucas obras. Aliás, até há relativamente pouco tempo não havia, de todo, onde ver a arte produzida em Portugal no século XX. Felizmente, o panorama no último ano e meio alterou-se um pouco.”
Aqui chegados, voltamos a debruçar-nos sobre a obra e o percurso de um artista que foi fulgurante, mas efémero. E se o diálogo com as vanguardas do início do século XX será o grande motor por detrás da obra de Amadeo, também o seu país – com as suas idiossincrasias – fez sempre parte do seu léxico visual. Numa carta de 1908, o artista queixava-se da grande ausência de meio artístico, mas contrapunha-a à ideia de um “Portugal prodigioso, país supremo para artistas”.
Por cá, fez, como se mencionou, importantes exposições e envolveu-se em projetos editoriais como a revista Portugal Futurista. Alvo de críticas, foi defendido por Fernando Pessoa e Almada Negreiros, ambos reconhecendo-o como o pintor mais significativo do seu tempo. Na sua pintura, deixou uma obra mapeada pela luz e pela cor, com alusões às figuras e tradições populares, mas também às paisagens do país onde nasceu. É também daqui que terá surgido Copo branco belleza dos objectos, que, além de uma obra significativa, serve de lembrete para a urgência de fixar o património modernista português. Mais de um século depois, resta saber qual o próximo rumo na viagem desta obra.