Quando acaba este calor? A resposta à pergunta que muitos portugueses fazem, depois de vários dias com temperaturas próximas dos 40 graus e noites tropicais em grande parte do país, é curta e simples: falta pouco. Dois dias. O pico deste episódio teve lugar entre esta segunda e amanhã, terça-feira, em que se manterá o céu nublado, mas ficará ainda um pouco mais quente. Depois, a partir de quarta, as temperaturas vão começar a descer, e a pique, e quinta-feira já será um dia completamente diferente: com chuva e até menos 10 graus que neste início de semana.
Cidades que têm estado próximas dos 38 ou 40 graus deverão regressar a máximas entre os 26 e os 30 graus até quinta-feira. Uma descida em média entre 5 a 7 graus. Na maior parte das regiões, os modelos meteorológicos e o IPMA apontam para a possibilidade de aguaceiros e trovoadas. A culpa é da depressão em altitude que nos colocou, mesmo assim, mais frescos que o resto dos nossos vizinhos da Europa e que nos vai afetar nos próximos dias.
Ainda se vão manter avisos para Vila Real, Bragança e Guarda para calor, “devido ao calor acumulado nos vales dessas regiões”, explica Paula Leitão, meteorologista do IPMA. Garantindo que apesar de as temperaturas descerem para “os 25/26ºC para Lisboa”, por exemplo, vão manter-se “quentes”, “dentro dos valores normais para a época” e não vamos entrar no inverno. Até porque a partir do fim de semana volta a haver “uma pequena subida”.

França: 18 mortes, entre elas 2 crianças dentro de um carro
Porque enquanto Portugal começa a ver o fim deste episódio de calor, França, sobretudo, enfrenta uma realidade muito diferente. Os 40ºC diários e os 28ºC noturnos são recordes para os franceses e já causaram pelo menos 18 mortes. Treze morreram afogadas enquanto procuravam rios, lagos e zonas balneares para escapar às temperaturas extremas, a maior parte no Sena e nos seus canais. Outras três, idosas, devido ao calor. As mortes mais chocantes foram, porém, as de duas crianças de dois e quatro anos encontradas dentro de um automóvel estacionado no sul do país.
A procuradora responsável pelo caso admitiu que as causas exatas da morte ainda estão a ser investigadas, mas reconheceu que a hipótese mais provável continua a ser a relação direta com o calor extremo que afeta a região. Naquele departamento do sul de França, os termómetros rondavam os 39 graus. No interior de um carro exposto ao sol, a temperatura pode ultrapassar facilmente os 50 graus em poucos minutos. Segundo as primeiras informações da investigação, as crianças terão entrado no carro sem que a mãe se apercebesse depois de ela regressar das compras. Terão ficado presas no interior durante várias horas. Quando foram encontradas já era demasiado tarde.
O episódio tornou-se um dos símbolos mais dramáticos da vaga de calor que atravessa atualmente a Europa. A agência meteorológica Météo-France colocou 54 departamentos em alerta vermelho, um recorde. Mais de 90% da população francesa encontra-se sob avisos laranja ou vermelhos. A agência meteorológica francesa admite que este poderá tornar-se um dos episódios de calor mais graves desde agosto de 2003, a vaga de calor que provocou cerca de 15 mil mortes em França.
https://twitter.com/MundoEConflicto/status/2068796975558832329
Recordes no Reino Unido e alertas em Espanha
Em Espanha, 85% dos municípios encontram-se sob algum nível de alerta sanitário devido ao calor. Segundo a AEMET, a agência de meteorologia espanhola, mais de 21 milhões de pessoas vivem em zonas classificadas com risco médio ou elevado para a saúde. No domingo, 76 estações meteorológicas espanholas registaram temperaturas iguais ou superiores a 40 graus.
Em Almería, no sul do país, a temperatura não desceu dos 30 graus durante a noite — um exemplo extremo das chamadas noites tórridas.
No Reino Unido, o Met Office emitiu um raro aviso vermelho para calor extremo para quarta e quinta-feira. É apenas a segunda vez que a Agência de Segurança Sanitária britânica emite um alerta vermelho deste tipo. As previsões apontam para temperaturas próximas dos 39 ou 40 graus, valores que poderão destruir o recorde histórico de junho no país. As autoridades britânicas alertaram mesmo para um risco para a vida não apenas dos grupos vulneráveis, mas também de pessoas saudáveis expostas ao calor extremo.
https://twitter.com/Met4CastUK/status/2068632049909444700
Quando se fala em ondas de calor, a atenção concentra-se normalmente nos valores máximos. Mas vários especialistas alertam que as noites tropicais podem representar um risco igualmente importante. Quando as temperaturas não descem o suficiente durante a noite, o organismo tem mais dificuldade em recuperar do calor acumulado ao longo do dia.
Esse é também um dos pontos comuns entre Portugal, Espanha, França e Reino Unido: não são apenas as tardes muito quentes que preocupam. São também as noites em que a temperatura não baixa o suficiente para permitir a recuperação do organismo e dos solos, como já explicou ao Observador.
https://observador.pt/especiais/dias-de-40-a-45oc-preocupam-os-especialistas-mas-noites-de-20-a-25oc-preocupam-ainda-mais-o-perigo-das-noites-tropicais/
Esta massa de ar quente vinda do norte de África, que durante os últimos dias fez uma cúpula sobre a Península Ibérica, França e sul de Inglaterra, está agora a deslocar-se para a Bélgica, Alemanha e Países Baixos. E o que até aqui era sobretudo um problema ibérico, transformou-se numa emergência europeia. Há alertas de calor ativos em 26 países europeus, da Irlanda à Grécia.
Para vários países da Europa Ocidental, incluindo França, Espanha e Portugal, esta é já a segunda grande vaga de calor em menos de um mês. Mas enquanto em Portugal o alívio deverá começar a chegar a partir de quarta-feira, França continua sem conseguir responder à mesma pergunta que muitos portugueses fazem: quando acaba? A ministra francesa da Saúde, Stéphanie Rist, admitiu esta semana que as autoridades ainda não sabem quando começará a descida das temperaturas. Olhando para os modelos, a resposta é de facto uma incógnita, mas vale a pena arriscar que será entre sexta-feira e o fim de semana.
https://observador.pt/especiais/duas-ondas-de-calor-em-menos-de-um-mes-o-atlantico-esta-a-ferver-os-solos-estao-secos-e-os-especialistas-avisam-e-assustador/
As descidas de dez graus
Em Portugal, embora os valores previstos estejam acima da média para esta altura do ano, o próprio IPMA sublinha que são relativamente habituais em muitas regiões do país. Ainda assim, algumas estações meteorológicas do interior Norte e Centro poderão aproximar-se de máximos históricos para junho. No domingo, a estação meteorológica do IPMA de Pinhão (Santa Bárbara), no Douro, registou a temperatura mais elevada, com 42,7 graus. Alvega atingiu 42,5 graus e Mirandela chegou aos 40,6 graus. Durante a noite, a temperatura mínima mais alta foi observada em Castelo Branco, onde os termómetros não desceram dos 23,4 graus.

A principal razão para a descida das temperaturas em Portugal está na alteração da circulação atmosférica sobre a Península Ibérica. O calor atual resulta da tal combinação entre uma crista anticiclónica que arrasta o calor de África sobre a Península Ibérica e uma depressão posicionada a oeste do continente cujos ventos puxavam ainda mais esse calor. Uma configuração que favorece o transporte de ar muito quente.
Mas os modelos meteorológicos indicam que essa configuração deverá começar a alterar-se a partir de quarta-feira. À medida que a depressão (é uma DANA, uma depressão em altitude) se aproxima do continente e o anticiclone perde força, o fluxo de ar quente será substituído por massas de ar mais frescas provenientes do Atlântico Norte. É essa mudança que explica por que razão algumas cidades poderão cair até dez graus em apenas dois ou três dias. “Na quarta-feira já começa a mudar o padrão, é um dia em que a precipitação é muito mais provável e a temperatura vai descer”, confirma Paula Leitão, meteorologista do IPMA, dizendo que também se vai manter o nevoeiro na costa.
Em cidades como Braga, Vila Real, Bragança, Guarda ou Viseu, que têm tido alertas laranja, os valores máximos previstos para terça-feira poderão situar-se entre os 36 e os 40 graus. Na quinta-feira, essas mesmas cidades deverão registar máximas entre os 25 e os 30 graus. Lisboa deverá regressar a valores próximos dos 28 a 26 graus e o Porto poderá ficar abaixo dos 26 graus.
https://twitter.com/tiempo_guada/status/2068659790650220904
Além da descida das temperaturas, existe ainda a possibilidade de aguaceiros e trovoadas em vários distritos do Norte e Centro. Chuva que pode aparecer um pouco por todo o país. “Durante a próxima madrugada pode haver alguma trovoada associada a essa depressão nas regiões centro e sul. A partir da tarde será mais provável nas regiões norte e centro, mas depois é na quarta-feira que é mais provável a ocorrência de aguaceiros e trovoada associados a essa depressão e com uma descida da temperatura que será bastante significativa”, diz Paula Leitão.
Não se trata de uma mudança para tempo frio. Trata-se de um regresso a valores muito mais próximos daquilo que é habitual para o final de junho. E por pouco tempo, já que no fim de semana já há sol e a partir da próxima semana tudo aponta para que o tempo quente esteja de volta. “Não vamos ter temperaturas com valores de inverno. Vamos estar com o verão quente. Continua quente, mas não tão quente”, diz Paula Leitão.
No entanto, o SPLIU pediu ao ministro da Educação o fim antecipado das aulas e o reagendamento dos exames nacionais previstos para esta semana, justificando o pedido com a falta de climatização, ventilação adequada e proteção solar em muitas salas de aula, onde dizem que o calor não baixa dos 40ºC. Mas não existiu qualquer decisão nacional quanto a um possível encerramento de escolas devido ao calor.
Vários países europeus, contudo, já estão a adaptar o funcionamento das escolas às temperaturas extremas. Em França, 1.352 escolas e colégios encerraram e mais de 4.000 alteraram horários. Em muitos casos, os alunos regressam a casa ao início da tarde para evitar as horas mais quentes do dia.
Há, no entanto, uma diferença importante entre Portugal e o resto da Europa. Em Portugal discute-se quando acaba o calor. Em Espanha discute-se quanto tempo vai durar. E em França e no Reino Unido discute-se até onde ele pode chegar.