Desde as notícias da semana passada que tenho estado a reflectir sobre o Movimento Armilar Lusitano e julgo que consegui identificar o principal problema do grupo. É o nome. MAL? Uma organização terrorista que se dê ao respeito não pode ter um nome saído de um filme do 007. O James Bond combate a Special Executive for Counter-intelligence, Terrorism, Revenge and Extortion, cujo acrónimo é o espectral SPECTRE. Que, tratando-se de uma sinistra organização ficcional que luta contra um agente secreto ficcional, é bem esgalhado.
Mas o propósito do Movimento Armilar Lusitano não parece ser o de protagonizar fitas de acção. Ao que tudo indica, é mesmo uma entidade com objectivos bem definidos na vida real. Isto de a sigla ser ler “MAL”, apesar de ser bem visto, acaba por distrair. Soa a nome de grupo de vilões dos desenhos animados. O caderno de encargos até pode ser tenebroso, mas a forma como se apresentam à sociedade é infantil.
Se a escolha acabou por ser MAL, nem quero imaginar a qualidade das opções que ficaram para trás. Clube de Reconquista e Unificação Étnica Lusitana – CRUEL? Movimento Ultramontano de Repressão e Repatriamento organizado – MURRO. Ou Portugueses Irritados com a Vinda Extemporânea de Trabalhadores Estrangeiros – PIVETE?
Se calhar, acabou por ser o MAL menor.
Quem teve a ideia estava mais preocupado com futuras capas de jornais do que propriamente com a prática de malfeitorias – aliás, MALfeitorias. De certeza que, nas reuniões iniciais, em vez de gizar os planos de atentados, já só estavam a pensar nas manchetes. Quando atacassem um talho halal: “Carne MAL passada”. Quando se descobrisse que os seus fundos vêm do tráfico de droga: “MALdita cocaína!” E, quando atacassem uma florista que vende cravos: “Bem me quer, MAL me quer”.
Essa falta de foco naquilo que deve ser a actividade principal de um grémio deste tipo pode explicar os problemas de planeamento. Designadamente, o facto de terem um rol de alvos maior do que a lista telefónica de uma cidade média. Não há ali trabalho de sapa, não há selecção criteriosa, é só enfiar nomes à balda, sem cuidar se os atentados são fazíveis ou não. Até associações lá estão, como o Colectivo Andorinha, o Coro da Achada ou o OVO PT – Observatório Violência Obstétrica em Portugal. Uma salgalhada aleatória, espalhada por todo o país. Quem fez aquilo, além de não ter noção do preço da gasolina, não tem capacidade de concentração para odiar seriamente, só consegue registar antipatiazinhas.
É parecida com a lista que eu fiz aos 15 anos, em que anotei as minhas potenciais namoradas. Estavam lá a Sharon Stone, a Claudia Schiffer, a Cindy Crawford, a Sofia Aparício, mais uma data de nomes igualmente inalcançáveis. Tal como a do MAL, a minha lista também incluía grupos. A equipa de andebol feminino da Escola Secundária do Restelo, por exemplo. Eram muitos alvos, todos inacessíveis. Se eu soubesse o que sei hoje, tinha-me concentrado num grupo mais restrito, dois ou três elementos no máximo. Zero em três não parece tão mal como zero em 157.
Como esta bandalheira claramente indica, os Malitas não retiraram dos nazis o mais importante: a eficácia organizativa. Se, em vez de concentrarem nos judeus, os nazis tivessem dispersado o ódio por uma lista demasiado extensa de minorias étnicas, hoje em dia o Holocausto não precisava de ser negado pelos anti-semitas.
Mas não é só o nome, atenção. O símbolo do MAL também não os ajuda. Não suscita o temor que, por exemplo, uma suástica transmite. Com aquele símbolo, é impossível ser levado a sério. Faz lembrar um bonequinho irritado com as mãos na anca, como uma mãe a ralhar com o filho. Só falta estar a segurar um chinelo para parecer a minha tia quando se zangava com os meus primos. Se calhar é isso. Eles portavam-se mesmo MAL.