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(A) :: De Brexit a nacionalizações, que planos para o país tem o homem que pode suceder a Starmer?

De Brexit a nacionalizações, que planos para o país tem o homem que pode suceder a Starmer?

Se chegar a primeiro-ministro, Burnham vai apostar em políticas económicas à esquerda. Trabalhista não exclui eleições antecipadas, mas partido discorda. Ministra das Finanças deverá ser substituída.

José Carlos Duarte
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Coroado na liderança do Labour, sobram poucas dúvidas de que Andy Burnham deverá ser o próximo líder trabalhista. A demissão desta segunda-feira de Keir Starmer, após ser pressionado por membros do Governo e pelo próprio partido, deu ao antigo presidente da área metropolitana de Manchester a possibilidade de o substituir no cargo. Não só em termos partidários, como também no Governo britânico — é que Andy Burnham pode mesmo converter-se no próximo primeiro-ministro.

Haverá agora uma eleição interna dentro do Partido Trabalhista no próximo mês. Mas será mais um procedimento interno: a não ser que haja uma grande mudança, quase nenhuma figura de relevo do Labour deverá desafiar Andy Burnham, que já anunciou a intenção de se candidatar. Wes Streeting — o antigo ministro da Saúde de Keir Starmer — não perdeu tempo em adiantar que o vai apoiar e não vai entrar na corrida. Assim sendo, o caminho está praticamente livre para o antigo líder de Manchester ser o novo primeiro-ministro. A não ser que decida convocar eleições antecipadas, uma hipótese que ainda está no ar.

https://observador.pt/liveblogs/keir-starmer-primeiro-ministro-britanico-vai-fazer-comunicacao-ao-pais-demissao-e-provavel/

Como será Andy Burnham — conhecido pelos apoiantes como “Rei do Norte” — se chegar a Downing Street? Esta é a pergunta que muitos britânicos estão agora a fazer. Enquanto esteve à frente da área metropolitana de Manchester, cunhou um novo termo — o “manchesterismo”. Mais Estado, a defesa da gestão pública de setores-chave da economia, a aposta na descentralização política e colocar as pessoas “em primeiro lugar”: esta é a fórmula que o político usou quando governou a região do norte de Inglaterra.

https://observador.pt/especiais/critico-de-thatcher-e-defensor-do-socialismo-amigo-das-empresas-quem-e-andy-burnham-o-rei-do-norte-que-pode-desafiar-starmer/

Se for mesmo o próximo primeiro-ministro britânico, os desafios serão maiores do que aqueles que enfrentou em Manchester. Andy Burnham vai herdar um Governo que não conseguiu dar resposta a muitos problemas dos britânicos. Keir Starmer até pode ter ganhado as eleições com uma expressiva maioria absoluta há dois anos, mas não conseguiu utilizá-la para mudar o país, sendo a perceção sobre o seu mandato francamente negativa. Nas sondagens, o Reform UK, liderado por Nigel Farage, está à frente com uma vantagem substancial. É neste difícil contexto que o “Rei do Norte” poderá ter de governar o país.

O que defende Andy Burnham? Levar o “manchesterismo” para Westminster

No Labour, a posição ideológica de Andy Burnham não é tão centrista como a de Keir Starmer, conhecido por seguir as pisadas do antigo primeiro-ministro, Tony Blair, que fundou a Terceira Via. Está mais à esquerda, mas ainda está longe dos antigos apoiantes de Jeremy Corbyn, o ex-líder que abandonou o partido e fundou um novo. O “Rei do Norte” está inserido na fação da “esquerda suave” — políticas progressistas com medidas económicas mais à esquerda, sem nunca hostilizar a iniciativa privada. Um social-democrata europeu, no fundo.

Andy Burnham foi secretário de Estado e ministro nos governos de Tony Blair e Gordon Brown, conhecidos por se identificarem com a ala mais centrista do Labour. À frente da área metropolitana de Manchester, o político trabalhista demonstrou, ainda assim, uma política mais à esquerda — um “socialista amigo de empresas” que tanto conseguiu que o serviço de autocarros voltasse à tutela pública, como atraiu investimentos estrangeiros multimilionários para a região.

Na eventualidade de assumir a chefia do Governo britânico, espera-se que o político siga a mesma linha ideológica. O plano já está delineado e o próprio fez questão de o enfatizar várias vezes: a expansão do modelo do manchesterismo para todo o Reino Unido. Chegar a Downing Street é, de resto, um objetivo de longa data. Andy Burnham nunca escondeu o desejo de liderar o Partido Trabalhista, tendo-se candidatado às eleições internas em 2010 e 2015 — derrotas que não o impediram de continuar a traçar, a partir de Manchester, o seu caminho rumo ao poder.

Será esse um mero slogan político sem grande significado? Andy Burnham recusa essa crítica. “É um modelo político e económico baseado na devolução, no planeamento a longo prazo e no crescimento sustentável. Quer seja uma forma de governar, quer seja uma estratégia para reconstruir a economia industrial moderna”, escreveu o político, num ensaio no portal Politicsuk, argumentando: “É um sistema — uma resposta deliberada à armadilha da elevada desigualdade e do baixo crescimento que o Reino Unido registou desde a década de 80, quando o poder estava excessivamente centralizado em Westminster e as principais instituições públicas eram privatizadas ou estavam fragmentadas”.

Crítico de Margaret Thatcher, o antigo líder de Manchester apresenta uma reversão das políticas adotadas pela antiga primeira-ministra britânica. Andy Burnham prometeu enfrentar as “consequências da desregulação, privatização, austeridade e Brexit”, depois de décadas de decisões consecutivas que “deixaram o Reino Unido incapaz de garantir infraestruturas fiáveis e obrigaram pessoas e empresas a pagar mais por bens básicos”.

"É um sistema — uma resposta deliberada à armadilha da elevada desigualdade e do baixo crescimento que o Reino Unido registou desde a década de 80, quando o poder estava excessivamente centralizado em Westminster e as principais instituições públicas eram privatizadas ou estavam fragmentadas."
Andy Burnham sobre manchesterismo

O grupo Mainstream, que trabalha de perto com Andy Burnham, publicou esta segunda-feira um relatório a que deu o nome O Estado Produtivo: um quadro para o manchesterismo. No documento, defende a “propriedade pública, uma reforma democrática e melhor tributação da riqueza”, sublinhando também a importância de o setor público controlar os setores-chave da economia.

Energia, água e transportes. O antigo responsável político de Manchester acredita que o Estado devia ter um papel a desempenhar no controlo daquelas infraestruturas. Não necessariamente com a nacionalização total, mas com uma supervisão rigorosa estatal e parcerias público-privadas. Após vencer o cargo de deputado em Makerfield na passada sexta-feira (e que assumiu formalmente esta segunda-feira) — que lhe permite tornar-se líder do Labour e possivelmente primeiro-ministro —, realçou que é necessário “baixar o preço da conta da água, da luz e dos transportes para tornar a vida mais acessível para as pessoas”.

Ainda assim, Andy Burnham pretende nacionalizar empresas privadas que são responsáveis pela gestão da água, escolhendo a Thames Water como prioridade absoluta. “A propriedade pública é absolutamente uma opção. Diria que, no caso da Thames Water, é exatamente isso que deve ser feito”, afirmou o ex-líder de Manchester ao Guardian, defendendo que as empresas devem ser geridas em prol do interesse público e não dos acionistas.

“Não pode acontecer que, num serviço crucial [como a água ou a energia], o interesse privado se sobreponha ao interesse público”, afirmou Andy Burnham numa entrevista ao The Times, antecipando que adotaria uma “abordagem amiga dos negócios, mas intervencionista” em Downing Street. Aquele que poderá ser o novo primeiro-ministro britânico rejeitou ainda a “caricatura” de que aumentaria exponencialmente a despesa pública, preferindo defender o conceito de “socialismo aspiracional”: “Dá-se a toda a gente o que se pode dar para ajudar a sua vida”.

Andy Burnham tem também prometido reforçar os apoios sociais e não descarta um aumento de impostos sobre as grandes fortunas. Em simultâneo, a habitação surge no topo das suas prioridades, comprometendo-se a adotar medidas estruturais para travar a crise imobiliária que diz afetar o Reino Unido. Ao mesmo tempo, o “Rei do Norte” quer liderar uma “reindustrialização” do país. “É mais do que tempo de começarmos a apoiar a indústria e os negócios britânicos”, afirmou, citado pela BBC.

Como seria um Governo de Andy Burnham?

Até setembro. Segundo o Telegraph, este terá sido o prazo que Andy Burnham pediu aos seus aliados para formar um Executivo e delinear a nova estratégia de governação. Keir Starmer terá concordado com o calendário, assegurando que se manterá na chefia do Governo de forma a garantir uma “transição ordeira de poder”. O ainda primeiro-ministro britânico deverá, por isso, representar o país na cimeira da NATO, em Ancara, já no próximo mês de julho — ainda que a da União Europeia-Reino Unido tenha sido adiada na sequência da sua demissão.

A 9 de julho, a comissão nacional executiva do Labour abrirá formalmente as candidaturas para a liderança do partido. Andy Burnham já confirmou que se vai candidatar, mas ainda não é claro se terá adversários. Caso existam, as eleições internas só ficarão concluídas no final do verão. Porém, se se confirmar o cenário mais provável, o antigo líder de Manchester pode assumir a liderança do partido e do país em poucas semanas.

Uma transição rápida e sem adversários diretos daria a Andy Burnham um trunfo: legitimidade imediata para governar. Ao Telegraph, um aliado próximo do trabalhista confessou que, embora existam “muitas opções” em cima da mesa, a maioria do partido deseja um desfecho rápido, temendo que arrastar o processo faça o possível primeiro-ministro perder o bom momento político que atravessa.

De qualquer forma, já começam a surgir rumores sobre como será um futuro Executivo de Andy Burnham. Conhecida pelo rigor nas contas públicas, a atual ministra das Finanças, Rachel Reeves, deverá abandonar o cargo. Pode ser substituída por Ed Miliband, o antigo líder do Labour que comandou o partido entre 2010 e 2015, antes de Jeremy Corbyn. Contudo, a atual ministra dos Negócios Estrangeiros, Yvette Cooper, e o ministro do Trabalho, Pat McFadden, também se perfilam como fortes candidatos à pasta das Finanças. Outro dos grandes favoritos é Wes Streeting — o que levanta a hipótese de ter sido a moeda de troca pelo antigo ministro da Saúde não se candidatar à liderança do partido.

Em sentido inverso, Shabana Mahmood deverá manter-se no Ministério da Administração Interna. Gerindo tópicos sensíveis como a segurança ou imigração, a governante tem endurecido as restrições e o controlo nas fronteiras, apesar de pertencer a um partido de centro-esquerda. Andy Burnham não deverá querer mexer nessa pasta, embora isso vá gerar críticas da ala mais à esquerda dos trabalhistas.

A grande reviravolta de um eventual Governo de Andy Burnham seria que John Healey fosse novamente nomeado ministro da Defesa. Há uma semana, o governante demitiu-se em protesto contra a recusa de Keir Starmer em aumentar os investimentos na segurança e modernização das forças armadas, o que deu mais força aos seus críticos para exercer pressão para que se demitisse. Segundo o Telegraph, o antigo líder de Manchester poderá voltar a confiar no homem que entrou em rota de colisão com Keir Starmer.

Brexit, contas públicas e a relação com Trump: as dificuldades de Andy Burnham

Se tomar posse, Andy Burnham terá várias dificuldades para impor as políticas do manchesterismo numa primeira fase. Não existe uma almofada financeira suficiente para colocá-las em prática. O político subscreveu o manifesto do Labour de 2024, que tinha a promessa de que impostos — como o IVA — não seriam aumentados. À BBC, Helen Miller, diretora do Instituto dos Estudos Fiscais, avisa: “Quem quer que seja o primeiro-ministro vai descobrir que, dentro das regras fiscais, existe uma margem muito limitada para aumentar as despesas numa área específica sem cortar nas despesas noutras ou aumentar os impostos”.

"Quem quer que seja o primeiro-ministro vai descobrir que, dentro das regras fiscais, existe uma margem muito limitada para aumentar as despesas numa área específica sem cortar nas despesas noutras ou aumentar os impostos."
Helen Miller, diretora do Instituto dos Estudos Fiscais

Para já, o antigo líder de Manchester prometeu que vai aumentar as despesas na área da Defesa — um assunto que gerou controvérsia no Governo de Keir Starmer (que privilegiou o equilíbrio das contas públicas) e a demissão do ministro John Healey. Ao The Times, até admitiu que não tem “qualquer receio em dizer” que reduzirá a fatura na área dos apoios sociais para esse fim, desde que mais pessoas sejam recolocadas no mercado de trabalho. O Ministério da Defesa estima que serão necessários 28 mil milhões de libras (cerca de 32 mil milhões de euros) adicionais para que se cumpra a meta de fixar pelo menos 3% do PIB naquela tutela nos próximos anos.

Outra das grandes mudanças que Andy Burnham quer implementar é na área da educação. Para o trabalhista, deve haver uma maior aposta no ensino profissional, mudando a ideia de que o sistema educativo deve estar exclusivamente focado na entrada para a universidade. O trabalhista defende um “caminho para toda a gente”, equilibrando o “ensino académico e o técnico”. Nesse sentido, o plano passa por alargar a oferta de estágios, de forma a garantir que mais jovens, a partir dos 16 anos, tenham acesso a programas de aprendizagem técnica no mercado de trabalho.

Haverá outro assunto com o qual o trabalhista terá de lidar. Nos dez anos desde o Brexit, várias alas do Labour têm feito pressão para que se pondere um referendo, que desta vez pergunte aos britânicos se desejam que se iniciem novamente negociações para a entrada na União Europeia (UE). Andy Burnham já tinha dito que gostava que o Reino Unido voltasse ao bloco comunitário “durante o seu tempo de vida”. Wes Streeting teria ponderado fazer campanha nas eleições internas (se se tivesse candidatado) precisamente em redor deste tema.

Numa entrevista ao The Guardian, Andy Burnham corrigiu a rota e clarificou a sua posição sobre a UE. “Voltar a debater o Brexit agora seria um erro, porque apenas serviria para entrincheirar o sentimento de divisão. Temos de resolver os nossos problemas estruturais antes de pensarmos na nossa relação com outros países. O nosso foco tem de ser a política interna neste momento, deixando outros assuntos para outra altura”, afirmou. A porta está fechada, mas crescem as vozes no Labour e na oposição a exigir que se repense a relação com a União Europeia.

Tal como Keir Starmer, o antigo líder de Manchester é um atlantista e defende laços mais estreitos quer com a União Europeia, quer com a NATO. A grande questão: como será a relação entre Andy Burnham e o Presidente norte-americano? O ainda primeiro-ministro foi criticado pelo próprio partido por ter sido permissivo e submisso nas relações com Donald Trump. Por agora, ainda não é claro que estratégia é que o eventual próximo chefe de Executivo vai adotar para lidar com o Presidente dos Estados Unidos.

A conjuntura doméstica e internacional que Andy Burnham vai enfrentar, se chegar a Downing Street, será desafiante. Apesar de prometer uma nova filosofia e de ter a ambição de mudar a forma de fazer política no Reino Unido, as condicionantes económicas podem travar o ímpeto mais reformista do fundador do “manchesterismo”. Com uma agravante: após Keir Starmer, o Partido Trabalhista dificilmente perdoará muitos deslizes — e já demonstrou que consegue derrubar primeiros-ministros friamente.

O antigo primeiro-ministro, Boris Johnson, já deixou um aviso a Andy Burnham, esta segunda-feira. “Não tem muito tempo” e a “lua de mel não vai durar muito”, preconizou, incentivando-o a agir “rapidamente” e a ser “corajoso” para implementar medidas ousadas. O antigo líder de Manchester parece ter a ambição suficiente para isso. Mas terá os recursos e o partido consigo?