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(A) :: Calor chegou mais cedo. Vamos ter um verão com mais fogos? Ou um inverno com mais tempestades?

Calor chegou mais cedo. Vamos ter um verão com mais fogos? Ou um inverno com mais tempestades?

Em entrevista, Jorge Miguel Miranda explica como a falta de manutenção de florestas e infraestruturas é uma das falhas estruturais em Portugal para a mudança de clima: com mais chuva e mais calor.

Filomena Martins
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Miguel Feraso Cabral
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Jorge Miguel Miranda é um dos especialistas em riscos naturais mais influentes em Portugal, com uma carreira longa ligada ao estudo do clima, do oceano e da proteção civil. Geofísico de formação, foi presidente do Instituto Hidrográfico, dirigiu o Instituto de Meteorologia (hoje IPMA) e esteve em vários órgãos de coordenação científica (como a Organização Meteorológica Mundial e o Centro Europeu de Previsão do Tempo) e gestão operacional ligados à gestão do território e à prevenção de catástrofes. Na entrevista, fala como técnico e como cidadão: explica porque é que Portugal aqueceu nas últimas décadas, como isso está a agravar os incêndios, as cheias e as tempestades, e insiste que o maior problema já não é só meteorológico, é estrutural e cultural.

Nestes últimos anos, Portugal tem vivido verões marcados por grandes incêndios: 2017 foi uma tragédia e desde então parece haver um padrão. Estamos perante uma tendência estrutural? É o novo “normal”?
“Normal” é uma palavra usada pelos meteorologistas para classificar uma média de 30 anos: se estivermos a falar perto do que foram esses 30 anos, estamos numa situação normal. Na verdade, nunca vamos estabilizar exatamente esse conceito, porque se calcula “normal” para 60–70, 70–80, 80–90, 90–100. Basta ir à página dos institutos meteorológicos do mundo para perceber que as normais foram evoluindo – e é natural que continuem a evoluir com essa taxa –, o que significa, seguramente, que vamos ter um tempo um bocadinho mais quente.

Parece haver um padrão de verões cada vez mais quentes, secos e propícios a grandes incêndios. Do ponto de vista meteorológico, a subida das temperaturas de 30 em 30 anos já é uma tendência consolidada?
Se considerarmos o que nos vai acontecer para o ano ou daqui a dois anos, o risco é muito determinado pela meteorologia. Por isso existe o índice mais famoso para determinar o risco de incêndio rural, em Portugal e em qualquer país, inicialmente definido pelos canadianos, o FWI, Fire Weather Index, um índice meteorológico. Contudo, o principal fator de risco não é a meteorologia: é a forma como está ocupado o território. Enquanto tivermos uma grande área de floresta não-gerida, entregue à sua própria “autoridade” ou à falta dela, o risco será sempre crescente. Se aumentar a área dessa floresta deixada ao deus-dará, o risco vai continuar a aumentar.

Além desse índice de que falou, fala-se muito dos chamados 3D: calor acima dos 30 graus, vegetação seca, desidratação dos solos. Este “cocktail” está hoje mais presente do que há 10 ou 20 anos?
Está mais presente porque a temperatura média aumentou. O aumento de temperatura tem a ver com o equilíbrio radiométrico da Terra e com a composição da atmosfera. O aumento de temperatura também aumenta a evapotranspiração das plantas e temos mais aridez. Estamos numa zona do mundo muito variável. Sempre foi assim. Vamos ter ciclos de estio e anos chuvosos que se vão alternando à medida que a temperatura vai subindo. Inexoravelmente. Os ciclos de estio têm tendência a ser mais intensos e os ciclos de chuva aparentemente têm tendência a ser mais concentrados.

Existe um drama nos anos bons: quanto mais anos bons temos, piores são os que se seguem, porque a biomassa vai sempre aumentando. Dizemos: “Passámos perto, tivemos quase uma desgraça, mas safámo-nos bem (...) mas para o ano vai ser pior. Cada vez o desafio é mais difícil, a menos que haja uma mudança grande de pensamento coletivo.

E mais intensos?
E mais intensos.

Já é possível antecipar se este verão será particularmente perigoso? Há indicadores? Há sinais que apontem para elevado risco de incêndios?
Do ponto de vista da capacidade de previsão meteorológica de uma estação para a outra, aquilo a que se chama previsão sazonal, os resultados existentes são muito modestos. Tem-se falado muito do El Niño. E qual El Niño vai existir este ano? Se nós tivermos um El Niño muito forte, teoricamente isso deve levar a que as tempestades sejam menos fortes. Já os incêndios são um problema diferente, vivem essencialmente da acumulação de tempo quente. Nós temos tido algum tempo quente. Tempo que anda um pouco mais quente que o normal, mas não tem nada a ver com o que se observou, por exemplo, em França. Em França, sim, houve um extremo. Mas a capacidade de previsão de incêndios a esta distância é muito pequena. Já a capacidade de previsão de como vai estar o estado do terreno daqui a seis meses é muito fácil de fazer, porque as plantas não vão desaparecer. Por enquanto ainda temos o nível freático alto. Se o dispositivo for muito rápido a matar as ignições, pode ser que tenhamos a sorte de passar um verão bom, mas na verdade nós fizemos tudo aquilo que não deveríamos ter feito. Temos as casas construídas no mesmo local, temos a floresta sem nenhum tipo de gestão, temos as propriedades indivisas e espalhadas por todo o lado.

Choveu muito, cresceram imenso as plantas e há muito material para arder.
Choveu muito, cresceu tudo muito, mas também há muita árvore destruída. Está a haver um esforço grande para recolher alguma dessa matéria. Existem planos para tentar utilizá-la em bioenergia, em particular, que podem até ter alguma viabilidade. Mas voltamos ao mesmo ponto: floresta não-gerida é risco crescente de incêndio rural.

Estas noites quentes não ajudam nada, a atmosfera nunca arrefece, certo?
Nós estamos a ter noites com 28 graus em França. Coisa que os franceses nunca tinham visto. E nós cá estamos a ter temperaturas máximas perto dos 44 graus e 23/24 graus à noite. Para nós é mais próximo do que vemos diariamente. Nós estamos a fazer a Amareleja. O coberto vegetal não é compatível com este tipo de temperatura. Temos condições para ter incêndios? Sim, temos. Temos sempre e em excesso. Temos muita produção vegetal e podemos ter períodos prolongados de seca e de temperaturas altas, que são condições para ter fenómenos extremos também. Então, agora que somos capazes de observar praticamente todos, até parece que aumentaram mais do que na realidade acontece. É como tudo na vida, há os riscos de existirem, de se materializarem ou não. Só depois do fim do jogo é que nós vamos ser capazes de dizer.

Se tivéssemos um verão com temperaturas dentro da média, mesmo sendo a média mais alta do que há alguns anos, isso reduziria significativamente o risco? Ou já temos um problema acumulado no território?
Existe um drama nos anos bons: quanto mais anos bons temos, piores são os que se seguem, porque a biomassa vai sempre aumentando. Dizemos: “Passámos perto, tivemos quase uma desgraça, mas safámo-nos bem…”

É o “para o ano logo se vê…”
É, mas para o ano vai ser pior. Cada vez o desafio é mais difícil, a menos que haja uma mudança grande de pensamento coletivo.

Se voltássemos a ter exatamente o mesmo verão de há 30 anos, arderia mais ou menos floresta do que hoje? E porquê?
Essas comparações são difíceis. Temos um abandono crescente das áreas de floresta de muito baixo rendimento e esse abandono é sempre um aumento do risco, a que se soma o aumento do risco meteorológico. Estamos numa situação em que é “lose, lose”. É maior o abandono e é maior o risco meteorológico. Teoricamente, a capacidade de termos incêndios de grandes dimensões é muito grande. Essa capacidade existe porque temos produtividade vegetal. E em vez de utilizarmos essa produtividade para produzir riqueza, estamos a utilizá-la para produzir fogos florestais.

Estamos pior em cada ano do que no anterior. Podemos ter muitos meios locais, centenas de carros de bombeiros, milhares de sapadores, tudo o que quisermos, e ir adiando, como se diz “empurrar com a barriga”, o principal. O problema é que esse “empurrar com a barriga” tem um limite: há uma altura em que a barriga cai por cima de nós.

Isso quer dizer que Portugal pode deixar de ter condições climáticas para determinados tipos de florestas?
O essencial não é bem o tipo de floresta que mantemos. É o facto de não haver mosaicos de floresta-agricultura ou floresta-pastagem que possam interromper manchas contínuas de floresta não tratada. Mas o mais importante é encontrarmos um modelo económico para tratarmos a floresta.

Mas há também, ou não, uma tendência para os fenómenos extremos serem cada vez mais frequentes e intensos?
Aparentemente, sim, há. É das conclusões que existem que há uma razoável certeza: aumentando a temperatura, teremos tendência para mais fenómenos extremos. Essa questão será muito importante nas zonas urbanas, em particular litorais, porque os nossos riscos vêm do oceano, direta ou indiretamente. É menos importante nas áreas do interior. Apesar das tentativas, que diria incipientes, de encontrar utilizações credíveis e sustentáveis para o interior, a verdade é que não têm sido encontradas e que estamos pior em cada ano do que no anterior. Podemos ter muitos meios locais, centenas de carros de bombeiros, milhares de sapadores, tudo o que quisermos, e ir adiando, como se diz “empurrar com a barriga”, o principal. O problema é que esse “empurrar com a barriga” tem um limite: há uma altura em que a barriga cai por cima de nós.

A questão, como diz, vai por isso além do clima: envolve território abandonado, floresta mal gerida. Até que ponto o problema dos incêndios é climático e até que ponto é estrutural?
Tem uma componente social e uma componente climática. A componente estrutural é determinante. Há algo que posso garantir: podemos tentar resolver a componente estrutural; a climática não, pelo menos com a mesma velocidade. Podemos resolver a climática daqui a 30 ou 40 anos, mas mesmo que tomemos medidas agora, não teremos resultados rapidamente. Do ponto de vista estrutural, sim, podemos tomar medidas. Quem quiser, basta voltar aos documentos antigos da AGIF [Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais, I.P.] e ver o que se propôs em termos de sucessões e posse da terra, para perceber que são propostas moderadíssimas, superconservadoras, mas que, aplicadas, têm resultado. O que não podemos é estar sempre a tratar os problemas pelo lado do subsídio, da ajuda, mantendo uma situação que sabemos que só se pode manter com grandes fluxos financeiros.

Passando agora do verão para o inverno. Tivemos aquele “comboio de tempestades”, “rios atmosféricos” vindos da zona tropical, chuva sem parar. Este é um fenómeno novo ou é apenas mais noticiado?
Um problema semelhante foi levantado há pouco tempo, relacionado com o estado meteorológico da Madeira, por causa dos transportes aéreos e da importância do turismo…

Sim, por causa das aterragens, com a chuva e o vento fortes…
A conclusão a que se chegou é que o agravamento tinha a ver com a posição do anticiclone dos Açores, era climático. O que significa que se vai manter e talvez acentuar. É preocupante para a Madeira, é preocupante para o Continente, e tem a ver com a passagem destes sistemas, destas depressões que vêm do Atlântico, os tais “comboios de tempestades”, com grande impacto no território. Eles também existiam antes, só que estavam mais a norte e em territórios mais desenhados pelo clima. É o clima que desenha o território; se o clima mudar, o território vai ser redesenhado. Pode ser é redesenhado de forma inteligente, com ação humana inteligente, que é rara de encontrar, ou pode ser redesenhado porque os elementos naturais tomam conta do assunto. E, portanto, tanto incêndio e tanta inundação haverá que a gestão do território terá de ser trocada.

Portanto, este é um padrão que se vai tornar mais frequente? Até porque me dizia que tudo é definido pelo mar.
Tudo indica que o padrão se vai acentuar e que temos de nos preparar. Vai pôr à prova a nossa capacidade de desenhar sistemas de gestão de cidades e de áreas não-urbanas de forma rigorosa e credível. E nós temos mais tendência para criar novas frentes, novas estradas, novos viadutos, novas pontes, em vez de manter corretamente o património que já temos. Se se acompanhou as inundações no Tejo e no Mondego, ainda mais dramáticas, vê-se que o padrão é o mesmo: não mantemos o património que temos. Estradas sem escoamento de água credível, viadutos mal dimensionados, etc. Quem vive em cidades com viadutos, como Lisboa ou Porto, que repare na dimensão dos sistemas de escoamento: normalmente é altamente insuficiente. Para que serve essa “poupança” se depois gastamos dinheiro em mais 50 obras faraónicas, muitas das quais nunca terão utilidade?

Somos um país com vícios de pobre: queremos a ponte mais alta, o viaduto mais longo, recordes bacocos para nos encher o ego, quando devíamos querer que a pequena estrada que liga a aldeia “A” à vila “B” tenha o mesmo standard de uma estrada perto de uma grande cidade ou de uma aldeia da Noruega. Devíamos usar bem as infraestruturas durante o tempo para que foram feitas, e não pensar só em Santa Bárbara quando troveja.

A tempestade Kristin, a mais forte desse “comboio” de janeiro-fevereiro, foi descrita como uma das mais destrutivas de sempre em Portugal e teve ventos extremos, o “stingjet”. Também devemos esperar mais episódios destes e mais frequentes?
Houve algo que me espantou verdadeiramente. Quando a previsão já apontava para dias seguidos de precipitação muito elevada, a ideia de todos os responsáveis era de que íamos ter “alguns prejuízos”. “Alguns prejuízos”? Era óbvio que íamos ter muitos prejuízos. Como é possível termos estado à beira da capacidade máxima de armazenamento de açudes e barragens, com uma gestão muito eficaz da APA, reconheça-se, mas no limite?

Sim, sempre ali no limite.
Sempre na linha limite, e não se perceber que o que estava à frente era um enorme prejuízo: economias, agricultura, zonas urbanas destruídas, estradas – sobretudo aquelas com desenho desgraçadamente mau – incapazes de ser mantidas, derrocadas perto de linhas de comboio, porque os taludes não estão bem preservados. Sempre o mesmo padrão, que podemos chamar, de forma que até pode não ser muito justa, “padrão Ponte Hintze Ribeiro” [Entre-os-Rios]: deixamos as infraestruturas chegar a um ponto de falta total de manutenção, na perspetiva do “talvez hoje não caia”. O que me espanta não é chamarem o LNEC no fim para ver o que correu mal, mas o facto de o LNEC não fazer observações regulares todos os anos e todos os meses. E o contrato com estas organizações não ser a longo prazo.

A primeira medida seria essa. Seria rever tudo antes que volte a chover como no ano passado?
A medida que temos de tomar é manter mais e fazer menos. É vício de pobre estar sempre a comprar novo. Os ricos, que sabem que são ricos, compram bom e mantêm-no muito tempo. Somos um país com vícios de pobre: queremos a ponte mais alta, o viaduto mais longo, recordes bacocos para nos encher o ego, quando devíamos querer que a pequena estrada que liga a aldeia “A” à vila “B” tenha o mesmo standard de uma estrada perto de uma grande cidade ou de uma aldeia da Noruega. Devíamos usar bem as infraestruturas durante o tempo para que foram feitas, e não pensar só em Santa Bárbara quando troveja.

Estes fenómenos de vento extremo são os mais perigosos que nos podem chegar agora? Quase ao nível de furacões e tornados?
São, porque temos pouca proteção contra ventos. Não somos a Florida. A construção não está preparada. E as pessoas também não. Lembro-me da situação da Figueira da Foz, quando aquele furacão entrou pelo continente, as pessoas não sabiam o que fazer: se deviam fechar persianas, abrir janelas… Não sabiam.

E também não foram avisadas…
O aviso não chega. É preciso experiência, exercícios e conhecimento. Tínhamos já experiência de pequenos tornados com velocidades de vento muito elevadas, como em Silves por exemplo, mas atingiam uma pequena zona. Agora tivemos um fenómeno de escala maior, este “stingjet” que passou por Leiria, com dimensão de cerca de uma centena de quilómetros. Somos capazes de prever as condições para ele se formar: e foram previstas. Observá-las, porque temos radares de última geração: e foram observados. Mas não temos infraestruturas preparadas para episódios desta energia. São investimentos grandes de preparação e exigem grande disciplina na utilização do território, que exige uma compreensão que ainda não existe.

Quando fala em investimentos grandes, é ao nível de material e prevenção. Ou também preparação das pessoas?
Das duas coisas, mas essencialmente investimentos gigantes no escoamento de águas, proteção da rede primária e secundária de energia. Somos dos países com menos cabos enterrados. Isso tem a ver não só com desleixo, mas também com o grande espalhamento da área construída, o que torna o custo de enterrar uma parte significativa da rede faraónico e impossível. Voltamos à questão da disciplina, rotina, regras – e as regras têm de ser cumpridas para bem de todos.

Esta chuva intensa, concentrada em poucos dias, é mais perigosa do que a distribuída por semanas?
Muito mais, em comparação. A chuva distribuída é muito boa para a agricultura, tem impacto muito inferior nas infraestruturas de escoamento. A chuva concentrada escoa à superfície, cria grandes dificuldades de mobilidade no meio urbano. Temos uma falta de exigência enorme com os nossos políticos. Isto não tem a ver com partidos nem ideologias. Tem a ver com standard, com a qualidade de vida que achamos que devemos ter. E volto a dizer: só os pobres gostam de comprar novo e comprar o maior. Precisamos de comprar o que podemos, manter o que já temos e viver de forma sustentável.

Portugal pode estar a entrar num padrão de extremos: seca prolongada seguida de cheias violentas? Isto é compatível com o que os modelos climáticos preveem?
É compatível com os modelos, mas mais do que isso, corresponde a uma conclusão óbvia de física elementar. Temos uma temperatura mais alta. Hoje, ninguém duvida disso. A origem da temperatura mais alta pode ser discutida, mas que está mais alta, está. Temperatura mais alta leva a mais água na atmosfera. Mais água na atmosfera significa processos mais energéticos, chuva mais intensa. A distribuição espacial de cada fenómeno é que os modelos têm (ou tinham) obrigação de responder. Cada nova geração de modelos é melhor do que a anterior, mas atenção: modelos não são realidade, são projeções da realidade.

Se já tivemos um mês de chuva em 12 horas, isto pode tornar-se ainda pior?
Gostava de responder, mas não tenho a certeza. Existiram recentemente, noutras partes do mundo, situações piores do que a que tivemos aqui. Do ponto de vista físico, não parece haver um limite assim tão grande. Se podemos ter o triplo, quádruplo ou quíntuplo? Não faço ideia. Espero que não.

Estamos a assistir a uma tropicalização do clima português ou isso é exagero mediático?
Nas últimas décadas, parece haver tendência para diminuição de noites frias, o que é muito seguido por causa da fruticultura, que precisa de frio noturno – e, já agora, as pessoas também, para dormirem bem. O corpo precisa de descansar. Temos uma sequência de anos em que, do ponto de vista do que se mede, parecia caminhar-se nesse sentido. Os modelos também apontam para isso. Agora, o que pedimos é curto e os modelos têm limitações. Se isto será uma tendência, diria que tem toda a capacidade de ser. A temperatura média aumenta e a temperatura noturna também. E aumenta com as “ilhas” de calor, ou seja, com a expansão urbana. Todos os sinais apontam para termos aquilo a que se chama “noites tropicais”. E noites tropicais não são um movimento fantástico alimentado por caipirinhas e com danças repetidas ao som de música cubana. São noites em que pessoas idosas têm dificuldade em dormir, em que há muita desidratação e em que é preciso que os sistemas de apoio social garantam fresco. Por isso é preciso que os centros de dia, por exemplo, tenham ar condicionado.

Culpar o anticiclone é como culpar a febre pela doença que temos, o que ele mostra é que estamos com febre num pé, temos um pé inchado ou um cotovelo dorido, ele é o nosso cotovelo dorido. O que se vê é mais um agravamento da situação climática no sentido da mudança e da necessidade de estratégias de longo prazo para inverter.

Há uma enorme influência do anticiclone dos Açores, não há? Como e porquê é que a posição do anticiclone está a mudar? E está mesmo a enfraquecer? O que se pode dizer deste regulador do clima português – e não só?
O anticiclone dos Açores é uma espécie de “culpado do costume”. Na verdade, o anticiclone não é causador de nada, é reflexo do que está a acontecer. A circulação atmosférica no Atlântico Norte gera uma zona de altas pressões no verão, a que chamamos “anticiclone dos Açores” porque os Açores correspondem ao centro dessa estrutura. Não é porque os açorianos tenham responsabilidade. O que se passa é que uma pequena mudança deste padrão de circulação é refletida no mapa meteorológico, com o anticiclone mais a sul ou mais a norte. Quando vem mais a sul, como este ano, a zona de passagem das tempestades está mais a sul. Em vez de chover “lá para cima”, onde dizemos que não faz mal porque estão habituados, chove sobre nós, que não estamos tão habituados. Os sinais são de estas mudanças serem climáticas, portanto que se vão manter, e que estes padrões também se vão manter.

Podemos falar também do aquecimento da água do mar, do Atlântico e do Mediterrâneo. Fala-se muito da corrente do Atlântico e de um jet stream mais instável.
O jet stream [corrente contínua de ventos polares à volta da Terra] é o mesmo problema do anticiclone dos Açores. O aquecimento do oceano é um problema diferente, de desequilíbrio radiométrico. Primeiro fator: aumentando a precipitação global, aumenta a água doce no oceano. A água doce faz variar a salinidade. A corrente oceânica depende da salinidade e da temperatura. Se fazemos variar a salinidade na zona intertropical de forma significativa, podemos estar a mexer na corrente oceânica profunda. Sabemos que, pré-historicamente, isso já aconteceu. Fazem-se estudos regulares para saber qual é a intensidade do AMOC [Circulação Meridional de Capotamento do Atlântico]. O último estudo publicado, que ainda não li, aponta no sentido de um decréscimo.

Isto começa a ser preocupante, até porque o jet stream cada vez mais ondulado parece ser uma tendência.
Mais um lado da mesma tendência. A variação da corrente do AMOC tem impactos significativos em Portugal, porque somos muito influenciados pela corrente do Golfo. Se o Golfo tiver geometria diferente, vai criar problemas, mas nesse caso no sentido contrário: de arrefecimento.

Fala-se ainda num “super El Niño” este ano. Não somos influenciados diretamente, mas indiretamente acabamos por sentir, não é? O El Niño é como o anticiclone dos Açores. Culpar o anticiclone é como culpar a febre pela doença que temos, o que ele mostra é que estamos com febre num pé, temos um pé inchado ou um cotovelo dorido, ele é o nosso cotovelo dorido. O que se vê é mais um agravamento da situação climática no sentido da mudança e da necessidade de estratégias de longo prazo para inverter. O El Niño é um fenómeno atmosférico, de influência na Índia, por exemplo, infelizmente, há muita precipitação na zona do Chile e do Peru e depois pode haver uma monção muito fraquinha na zona da Índia, onde a monção é muito importante para a agricultura. O efeito no Atlântico está menos documentado. Não parece ser tão importante, se for alguma coisa importante aqui ibérica, só se for um pequeno aumento de precipitação. Mas seguramente haverá outras dinâmicas que se sobrepõem. Mas o El Niño, coitado, não é culpado de nada. Ele é apenas um padrão que de vez em quando se verifica num sistema de feedback que se estabelece e a partir do qual é muito difícil sair.

Quase em forma de resumo: com o que sabemos agora, já podemos dizer que devemos preparar-nos para um verão com elevado risco de incêndios?
É sempre melhor estarmos preparados para um risco elevado que depois se revele mais baixo do que o contrário. Infelizmente diria que os elementos parecem estar dispostos no sentido de o risco ser muito elevado. Estamos a ver medidas na área da proteção civil que não vou sequer descrever nem discutir; cada um pensará o que entender. Mais uma vez estão a oscilar o sistema. Mas são sempre reativas. As medidas do lado não-reativo ainda são muito curtinhas. Todas as medidas de alteração da paisagem que não assentem num modelo económico credível são, para mim, apenas “espatifar” dinheiro. Para termos um modelo económico credível, temos de ceder em algum lado: ou na perspetiva da propriedade, que é o problema em discussão, ou na perspetiva do aumento da industrialização da floresta, que muita gente não gosta. Há algo que garanto: temos de gerir a floresta. As coisas não podem não ter gestão. Estes acontecimentos recentes mostraram que mesmo árvores em zonas urbanas têm de ser geridas. Não podemos viver num mundo em que uma árvore pode cair-nos em cima amanhã. Situações de instabilidade têm de ser atacadas. Quando passamos numa zona, por exemplo o norte de Lisboa, com encostas desprotegidas, ali está o diabo sentado à nossa espera.

E neste inverno: é de esperar mais episódios de tempestades intensas e concentradas?
Não há conhecimento suficiente para saber isso. Gostava de saber isso. Era bom que soubéssemos. Mas e se soubéssemos, fazíamos o quê? As medidas necessárias são de longo prazo. Não interessa o que vai acontecer este ano: se não for este ano, será no próximo. Temos de olhar para o território de forma diferente, perceber que não podemos ter casas espalhadas aleatoriamente. Ninguém vai conseguir pagar isso: nem infraestruturas para enterrar eletricidade, nem água para fornecer. Temos de voltar a ter povoações coesas, onde as pessoas vivam corretamente e onde se garanta um mínimo de segurança. Se queremos mais segurança, temos de começar a tomar medidas.

Estamos perante um cenário de eventos extremos cada vez mais imprevisíveis?
Sim. Tudo aquilo que o Homem não fizer, a natureza encarregar-se-á de corrigir.

Portugal está a tornar-se um país de extremos climáticos?
É um país com uma relação com o oceano sempre muito energética, não é de agora. Não somos um país do interior, para quem estes excessos são desconhecidos. Somos um país que sempre enfrentou o mar e a meteorologia de forma proativa. A meteorologia foi fundada no mundo por seis países e um deles era Portugal.

Este ano até ficámos sem praias no meio das tempestades…
A areia vai voltar.

Em resumo, o que mudou no clima em Portugal nos últimos 20 anos?
Essencialmente, aqueceu. E o aquecimento teve efeitos secundários importantes: aumento da aridez; aumento aparente de episódios extremos; e, nas situações em que conseguimos organizar a agricultura baseada em tecnologia e não em São Pedro, melhorámos. Naquelas que contam apenas com São Pedro, ele infelizmente não parece estar à altura. [Sorrisos.]

Portugal é particularmente vulnerável e pouco preparado. Onde é que estamos mais frágeis neste momento?
Na cultura das pessoas. A nossa fragilidade não é numa área específica, é cultural: não queremos pagar o preço da segurança. O preço da segurança é, por exemplo, não poder construir uma casa no meio da floresta. Se estivermos dispostos a pagar o preço da segurança, teremos segurança. Mas isso também significa que não podemos construir todas as pontes e túneis que imaginamos; temos é de manter em funcionamento correto o grande património construído que já temos.

Subestimamos o risco. Genericamente. Temos casas e construção sem o mínimo de segurança, por falta de recursos financeiros, falta de cumprimento de instrumentos de planeamento e excesso de instrumentos de planeamento. Costumo dizer que a vida precisa de duas coisas: leis e vergonha. Temos leis a mais e vergonha a menos.

Já disse que não estamos a adaptar-nos à velocidade necessária e que estamos sempre a reagir depois dos acontecimentos.
Como consequência do que disse: não tendo tempo de preparação, exagerando no que queremos manter, só temos uma forma, que é reagir. Só que os custos de reação são elevados. Os custos de manutenção também, mas manutenção significa não mudar de roupa todos os meses, mudar menos e ir cosendo de vez em quando.

Uns remendos?
Uns remendos, mas cosê-los, mantermo-nos decentes, limpinhos e organizados.

O que é que estamos a subestimar mais?
O futuro. Subestimamos o risco. Genericamente. Temos casas e construção sem o mínimo de segurança, por falta de recursos financeiros, falta de cumprimento de instrumentos de planeamento e excesso de instrumentos de planeamento. Costumo dizer que a vida precisa de duas coisas: leis e vergonha. Temos leis a mais e vergonha a menos.

Se tivesse de deixar um aviso claro: o que é que ainda não estamos a levar suficientemente a sério?
Cada um de nós tem de ser autossuficiente nas decisões que toma.

entrevista publicada originalmente na revista de aniversário dos 12 anos do Observador e atualizada depois das últimas ondas de calor e da formação do El Niño