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(A) :: Da arte de governar-se a si mesmo

Da arte de governar-se a si mesmo

Existe algo de corrosivo num modelo que acostuma o cidadão à dependência, moldando homens que exigem direitos com veemência, enquanto se afastam dos deveres com igual prontidão.

Carlos Vinhal Silva
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Vivemos numa época em que a liberdade é pronunciada com fervor quase litúrgico, embora raramente seja vivida na inteireza do seu significado. Tornou-se palavra abundante nas tribunas e escassa na conduta dos homens. Todos a reclamam, mas poucos entendem o seu verdadeiro significado. Porque a liberdade não consiste apenas em escolher entre caminhos previamente traçados por outrem: a sua substância reside na faculdade de assumir as consequências da própria vida, sem entregar ao vizinho, ao especialista ou ao aparelho do Estado o cuidado da consciência e a administração da existência.

O homem livre, tal como o entendiam os antigos filósofos, governa-se antes de desejar governar o mundo, reconhecendo que o primeiro domínio digno desse nome é o domínio de si mesmo. Não entrega por comodidade aquilo que deveria guardar por honra: o juízo, a responsabilidade, o sustento da casa, a educação dos filhos, a ordem da própria mesa. O homem livre é aquele que age segundo a razão e responde pelas escolhas que faz, porque nenhuma civilização alcança verdadeira grandeza quando os seus membros esperam incessantemente que a salvação venha do exterior, seja da política, da opinião pública ou da vasta engrenagem anónima das instituições.

É neste horizonte que a crescente intrusão do Estado nas dimensões mais elementares da vida quotidiana deixa de ser apenas uma questão administrativa ou económica e assume contornos profundamente morais. Porque existe algo de corrosivo num modelo que acostuma o cidadão à dependência, moldando homens que exigem direitos com veemência, enquanto se afastam dos deveres com igual prontidão. Não se trata de negar a necessidade da ordem política nem de reduzir a comunidade ao caos dos impulsos individuais. Analisemos a postura aristotélica: Aristóteles defendia que a cidade pertence à natureza do homem, porque fora dela dificilmente florescem a justiça e a virtude (recordemos a sua célebre afirmação: “O homem que vive só ou é um Deus ou uma besta). Ainda assim, o Estado não foi concebido para substituir a alma dos seus cidadãos, devendo, pelo contrário, criar as condições em que essa alma possa elevar-se.

Entre a autoridade legítima e a tutela sufocante existe uma fronteira clara, mas ténue, frequentemente invisível aos olhos dos povos fatigados. A diferença é evidente: a autoridade legítima protege enquanto a tutela sufocante enfraquece. Quando o poder substitui continuamente a ação do indivíduo, extingue-se a por completo qualquer forma de virtude. O hábito da responsabilidade, tal como um músculo abandonado, atrofia-se na ausência do seu exercício e um povo que desaprende a governar-se prepara, sem perceber, o terreno para a servidão e escravatura.

A prosperidade nunca nasceu da mera distribuição de promessas ou da proliferação de decretos. O que sustenta uma sociedade viva é a energia da responsabilidade individual que nenhuma estatística nem nenhum dado empiricamente mensurável sabe medir. É no interior das famílias, no trabalho persistente dos pequenos negócios, na prudência das escolhas e na coragem dos riscos assumidos que se edificam as mais autênticas comunidades. Muitas vezes, são essas formas espontâneas de convivência que resistem com maior firmeza ao caos, especialmente quando comparadas com os grandes mecanismos concebidos algo atabalhoadamente em gabinetes incompetentes e distantes, mas sempre legitimados por sucessivas formalidades políticas.

Não tenhamos ilusões: a decadência começa quando o cidadão deposita mais esperança no governo do que na sua própria capacidade de agir (recordemos, a título quase anedótico, a afirmação de Ronald Reagan sobre as palavras mais assustadoras: “Sou do governo e estou aqui para ajudar”). Porque se perde algo essencial que pergunta “Que posso eu fazer?” cede lugar à reivindicação mimada daquilo que “me é devido”. Nesse deslocamento instala-se uma forma de servidão, mas polida nas formas, mais regulamentada nos detalhes, com maior adorno linguístico, mas ainda assim servidão. Porque os homens habituam-se a trocar autonomia por conforto, esquecendo que toda a dependência prolongada acaba por reclamar obediência.

O homem que dispensa tutores para viver torna-se incómodo para o poder. Não porque seja naturalmente rebelde ou disruptivo, mas porque conserva dentro de si uma independência que nenhuma administração consegue absorver por inteiro. Não teme a liberdade ao ponto de preferir a segurança da submissão. Recusa-se a acreditar que exista, num gabinete remoto, uma inteligência superior (e muitas vezes artificial e ainda mais vezes questionável) capaz de conhecer melhor a sua consciência, os seus filhos ou os frutos e valor do seu trabalho do que ele próprio. E pode até parecer antiquado quando encarado com os olhos do presente, mas esse homem permanece fiel à verdade herdada dos seus Avós: que das suas coisas trata ele. E fá-lo por dever e não por vaidade estéril. Fá-lo porque sabe que aquele que abdica do governo da própria vida cedo descobrirá que outros a governam por si. Fá-lo porque sabe que entre viver e ser administrada existe uma distância brutal que apenas os homens verdadeiramente livres são capazes de reconhecer.