Ainda não está farto de tácticas? Ainda não está farto deste jogo de sombras e de intenções encapotadas, de narrativas vividas no limbo das chamadas “crises políticas”? Não está saturado, absolutamente saturado, de um jogo que é jogado entre três partidos que disputam o poder, exclusivamente o poder como fim em si mesmo? Não está entediado, talvez mesmo irritado com estas maiorias de bloqueios permanentes, em que uma bloqueia a outra, e a outra se bloqueia a si mesma? Ainda sente que algum desses três partidos, liderados por quem os lidera actualmente, é, de facto, capaz de trazer mudanças profundas ao statu quo do regime, do Estado, da sociedade portuguesa? Talvez mereça isto, então.
Desde que o Chega surgiu em cena que as discussões sobre qual a melhor forma de lidar com ele dominaram o espaço público. Linhas vermelhas, defesa de coligações, cercas sanitárias, cedências totais a Ventura, já tudo esteve em cima da mesa. Lidar com o Chega tornou-se um tema em si mesmo, como se o jogo táctico dos partidos fosse o princípio, o meio e o fim da política nacional. Como se nada disso tivesse, ou devesse ter, na base projectos políticos substantivos.
Quando o Chega surgiu, com um deputado no Parlamento, o PSD podia e devia ter crescido. Tinha ao seu lado alguém que sinalizava problemas sentidos no quotidiano pelos portugueses. Tinha muitas soluções erradas, muitas vezes nem soluções tinha, mas não estava errado no essencial da análise. As célebres linhas vermelhas nessa altura seriam aceitáveis, poderiam ter surtido efeito, mas o PSD esqueceu-se de que esse jogo precisava de uma substância. Esqueceu-se que esse disco poderia ter um lado A, geométrico, mas precisava de um lado B, substancial. O Chega foi crescendo, ameaça progressivamente o lugar do PSD – afinal, foi mesmo para isso que surgiu. No PSD ninguém parece compreender o que se tem passado. Luís Montenegro começou a sua aventura em São Bento convencido de que lhe bastaria ser um António Costa com a aparência das alterações legislativas, um melhor gestor do que os socialistas, eventualmente em busca de um momento que lhe permitisse voltar a eleições e ganhar espaço de manobra. Graças à Spinumviva, esse momento aconteceu antes do que gostaria, e este Governo tem tentado implementar esta ideia de que o PSD se pode manter equidistante de PS e Chega, tentando negociar com os dois, perdendo quase sempre, para poder dizer, depois, aos portugueses que é vítima de um bloqueio e precisa de ver a sua maioria reforçada. Sucede que essa maioria reforçada dificilmente chegará por uma razão: Montenegro nunca convenceu os portugueses de que quer, de facto, implementar reformas profundas no país. Sugere que tem aplicado alterações cirúrgicas aqui e ali, nesta e naquela área da governação, melhorando isto e aquilo, sem que nada se sinta, na prática, na vida dos portugueses, e a sensação que fica é que o Governo, tendo um lote de bons ministros, não tem liderança política que dê suporte, ânimo, incentivo a um programa de reformas. O país precisa praticamente de uma revolução tranquila e Montenegro oferece-lhe maquilhagem. Dirá, como julgo que já disse, que o país não está preparado para mudanças maiores. Acabará engolido pelas suas meias-tintas.
A dada altura, com o Chega convertido em partido médio, praticamente ao nível de PS e PSD, a ideia das linhas vermelhas tornou-se obsoleta. Mantê-las, trazendo para a política partidária uma ideia de superioridade moral que assentava na falta de ideias de outro género, contribuiu apenas para esta manutenção do impasse e dos bloqueios permanentes. Dirão que Ventura, como agora fica cabalmente demonstrado, não é confiável. Não é, nunca foi. O seu objectivo não é chegar ao Governo, é ter poder efectivo; não é ser número dois, é liderar. O prazo para o trazer para a esfera da responsabilidade, e de o obrigar à decisão de fazer cair um Governo ou de se aburguesar perante o seu eleitorado, tentando o derradeiro abraço do urso, passou. Ventura sabe hoje que pode dizer e fazer o que lhe apetece porque tem ao lado a inconsistência e a falta de substância do PSD. Come eleitores à esquerda, come eleitores à abstenção, já comeu à direita o que tinha para comer, é um glutão evolutivo que vive do estado de inércia a que o PSD se deixou conduzir. Esse caminho de degradação tem anos, naturalmente. A culpa não é propriamente de Montenegro ou Hugo Soares que, coitados, não são capazes de melhor do que isto. São a representação de um fracasso, é certo, mas são ainda mais fruto daquilo em que se tornou o PSD.
Tudo isto gera uma sensação de frustração que não acabará bem. A esquerda é, de facto, uma força de bloqueio, mas nunca foi outra coisa. Nenhuma das mudanças de que o país precisa, e que são forçosamente impopulares, será feita com ela. O Chega juntou-se à esquerda e formou uma maioria paralisante. O PSD podia, e devia, olhar ao redor e compreender que, face a este estado de coisas, precisa de coragem e não de tacticismo, de perceber que se o resultado é o chumbo, a reprovação, as maiorias paralisantes, então mais vale ser radical. Não será capaz. O PSD é irreformável, e está viciado numa forma de fazer política que já não existe, como ficou claro no Congresso do passado fim-de-semana. E assim permaneceremos, até ao dia em que o Chega vencer uma eleição e PSD e PS se juntarem no derradeiro bloco central, fazendo o que sempre fizeram e fazem, incapazes de parar o desastre. Quando ele chegar, não faltarão os surpreendidos.