As tempestades que assolaram Portugal nos primeiros dois meses deste ano foram um alerta sonoro, mas infelizmente não surpreendente. Os seus efeitos devastadores, com prejuízos que poderão largamente ultrapassar os 5.000 milhões de euros, expuseram, mais uma vez, a vulnerabilidade do nosso país a eventos climáticos extremos. A multiplicação de pedidos de indemnização que se seguiu demonstrou a importância do seguro, mas também revelou uma verdade mais profunda: com as alterações climáticas, o papel do setor segurador não pode limitar-se a compensar perdas. A nossa missão, hoje, tem de ser preveni-las.
O modelo tradicional de seguros, focado na reposição de danos após o sinistro, está a tornar-se insustentável perante a frequência e intensidade de tempestades, inundações, incêndios e ondas de calor. A Agência Europeia do Ambiente estima que, na última década, apenas 25% das perdas causadas por catástrofes naturais na Europa estavam de facto seguradas. Portugal, infelizmente, destaca-se, sendo o 7.º país mais desprotegido entre os 30 avaliados.
Sabemos que, de 1980 a 2023 e de acordo com a associação ambiental Zero, os eventos climáticos extremos provocaram perdas na ordem dos 13,5 mil milhões de euros em Portugal. Este impacto evidencia um défice de proteção face aos riscos físicos, que não resulta apenas da nossa elevada exposição ao risco climático, mas também de uma insuficiente transferência desse risco para o seguro. Neste contexto, o seguro assume um papel essencial para reduzir esta este gap de proteção e reforçar a resiliência de famílias, empresas e comunidades.
Não podemos continuar a ser reativos. Temos de passar da compensação para uma lógica de preparação, resiliência e prevenção. Na Zurich, já estamos a trilhar este caminho com serviços que prestam apoio na análise de vulnerabilidades e na gestão dos riscos climáticos. A engenharia de risco e a consultoria especializada são as ferramentas que nos permitem avaliar, mitigar e preparar-nos para um futuro mais incerto e exigente.
Esta abordagem incentiva, e até exige, uma mudança de comportamento. A localização de uma empresa, os materiais utilizados e as medidas de proteção instaladas tornam-se fatores cruciais para definir a sustentabilidade dos negócios. O seguro passa assim a ser, também, um instrumento de incentivo a comportamentos mais resilientes e responsáveis.
Contudo, a dimensão destes desafios é demasiado grande para ser enfrentada isoladamente. O impacto de eventos como a Kristin é transversal, afetando cidadãos, empresas e infraestruturas de forma indiscriminada, o que torna a resposta coletiva uma exigência nacional. Neste contexto, o anúncio do Governo sobre a criação de um Fundo de Catástrofes Naturais e Sísmicas, integrado no Plano de Transformação, Recuperação e Resiliência, representa um passo decisivo e a concretização de uma solução que o setor segurador há muito defende. É precisamente esta futura colaboração entre o Estado e as seguradoras que irá assegurar a robustez e sustentabilidade financeira do Fundo.
Este Fundo vai permitir-nos, enquanto comunidade, garantir uma capacidade de resposta financeira rápida e concertada, assegurando a estabilidade social e económica perante fenómenos extremos e especialmente devastadores. Não se trata de substituir o papel das seguradoras, mas de criar um mecanismo de partilha de risco entre seguradoras e Estado, à semelhança do que já existe noutros países. O setor segurador, com a sua vasta experiência na gestão de crises, está pronto para ser um parceiro estratégico nesta iniciativa e tem, além disso, o conhecimento e a experiência para apoiar o Estado neste empreendimento.
Não tenhamos dúvidas: investir em prevenção, fomentar a literacia de risco e construir parcerias estratégicas que permitam aumentar, melhorar e incentivar a resiliência da comunidade são os pilares que vão garantir um futuro mais seguro para as próximas gerações.