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A empatia sobe ao palco

Falar de saúde mental tornou-se socialmente reconfortante. Mas financiar respostas estruturais continua a ser menos visível, mais demorado e politicamente menos rentável.

Jorge Mota
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Nunca se falou tanto de saúde mental em Portugal. Campanhas de sensibilização, discursos políticos, iniciativas nas empresas; um vocabulário novo entrou no espaço público: ansiedade, burnout, depressão, trauma. Falar deixou de ser tabu.

Mas depois de pedir ajuda, o que acontece?

Para demasiadas pessoas, a resposta é simples: nada.

O discurso público evoluiu. As estruturas do país continuam praticamente as mesmas. O sistema reage à polémica, mas raramente acompanha a vida: consultas espaçadas de meses; falta de psicólogos e psiquiatras; respostas sociais insuficientes e lotadas; famílias deixadas sozinhas a gerir situações profundamente exigentes.

Uma pessoa com doença mental grave precisa de acompanhamento contínuo, integração comunitária, estabilidade financeira, apoio ocupacional, suporte familiar e respostas sociais que permitam viver com dignidade. Diversos estudos portugueses têm demonstrado precisamente a importância das redes de suporte social e da reabilitação psicossocial para pessoas com doença mental crónica.

O discurso público repete estas conclusões à exaustão.

Na prática, o peso recai sobre as famílias. Pais envelhecem a cuidar de filhos adultos incapazes de viver autonomamente. Irmãos tornam-se cuidadores permanentes. Famílias reorganizam a vida financeira, profissional e emocional sem orientação adequada. Muitas vezes, o Estado apenas surge em momentos de crise aguda: uma urgência psiquiátrica, uma situação de risco; desaparecendo logo depois.

Neste vazio social, o internamento acaba por surgir como destino inevitável; não porque resolva o problema, mas porque o torna invisível.

Não é novo: durante séculos, a doença mental foi afastada do olhar público e encerrada longe da vida comum. No Império austro-húngaro, um dos primeiros asilos psiquiátricos foi construído junto da estação ferroviária mais distante de Viena. Em Portugal, não faltam memórias de pessoas com deficiência ou perturbação mental escondidas em anexos, arrecadações ou dependências agrícolas, afastadas da vida comunitária. Entre as redes metálicas de certos hospitais psiquiátricos e as cercas dos velhos galinheiros permanece uma semelhança desconfortável.

Mudaram os discursos, mudaram as palavras, mas demasiadas famílias continuam a enfrentar praticamente sozinhas um problema coletivo. A pessoa com doença mental vai sendo empurrada para o internamento enquanto aguarda a resolução de um problema social que, sendo internada, se considera perversamente resolvido.

E assim desaparecem do espaço público aqueles que nunca chegaram verdadeiramente a ser vistos.

Os próprios profissionais de saúde mental trabalham frequentemente sob desgaste emocional intenso, com equipas reduzidas, recursos limitados e reconhecimento insuficiente. Apesar da exigência humana e técnica destas áreas, continuam muitas vezes relegados para segundo plano num sistema de saúde onde a prioridade parece ser evitar a exposição pública do colapso das urgências.

O mais frustrante é que Portugal conhece os modelos que funcionam. Experiências de saúde mental comunitária e equipas de proximidade têm mostrado melhores resultados na integração social e até na redução de internamentos. O problema não é falta de conhecimento técnico, nem de financiamento. É falta de prioridade política consistente e continuada.

Falar de saúde mental tornou-se socialmente reconfortante. Mas financiar respostas estruturais continua a ser menos visível, mais demorado e politicamente menos rentável.

Uma sociedade mede-se pela forma como trata quem perde a capacidade de se sustentar sozinho. E nesse teste Portugal continua demasiado longe da imagem solidária que gosta de projetar sobre si próprio. Sensibilização sem investimento é apenas estética moral. Campanhas sem apoio continuado são espuma dos dias. E discursos públicos sobre empatia significam pouco quando milhares de pessoas continuam a enfrentar a doença mental praticamente sozinhas.

Portugal aprendeu finalmente a falar de doença mental. Agora precisa de aprender a ter vergonha de abandonar quem vive com ela.