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(A) :: Foi dispensado aos 14 anos, trabalhava numa fábrica aos 17, atingiu o topo aos 29: Deniz Undav, o herói improvável da Alemanha

Foi dispensado aos 14 anos, trabalhava numa fábrica aos 17, atingiu o topo aos 29: Deniz Undav, o herói improvável da Alemanha

O jogador alemão já marcou três golos no Mundial 2026 depois de saltar do banco e igualou um registo de Roger Milla que durava desde 1990. A história de Deniz Undav, o herói improvável de Nagelsmann.

Mariana Fernandes
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Em 2014, no Brasil, André Schürrle saltou do banco em três jogos diferentes para marcar quatro golos e contribuir muito para o Mundial conquistado pela Alemanha. O avançado terminou a carreira em 2020, depois de uma passagem quase anónima pelo Spartak Moscovo, e ficou sempre com o selo de super sub, o chamado super substituto. Mais de uma década depois, a Alemanha voltou a ter um super sub.

Aos 29 anos, Deniz Undav é o senhor de quem se fala na Alemanha. O avançado do Estugarda foi suplente utilizado nas duas primeiras jornadas da fase de grupos do Mundial 2026, marcando um golo a Curaçau e dois à Costa do Marfim, somando ainda duas assistências. Com envolvimento em cinco golos em dois jogos enquanto suplente utilizado, já igualou o recorde de Roger Milla, que no Mundial de 1990 fez exatamente o mesmo pelos Camarões — e superou o registo até aqui inédito do compatriota André Schürrle.

https://twitter.com/Squawka/status/2068455505895346352

Undav, porém, é a descrição perfeita de alguém que tudo fez para chegar ao lugar onde está. Nascido em Varel, no norte da Alemanha, mas criado em Achim, perto de Bremen, é filho de yazidis — uma minoria religiosa do Médio Oriente, etnicamente curda, que manteve a sua religião específica durante séculos e que remonta ao século XI, misturando elementos de outras religiões como o Cristianimos, o Islão e o Zoroastrismo, antiga religião persa fundada no século VI antes de Cristo. O pai nasceu na Turquia, a mãe nasceu na Síria e a ligação à Alemanha fez-se à boleia do avô paterno, que nos anos 80 e na sequência de um golpe militar decidiu deixar o território turco com a família.

Um de cinco irmãos, Deniz Undav cedo alimentou o sonho de ser jogador de futebol e deu os primeiros pontapés na bola no clube local, o TSV Achim. Impressionou ao ponto de se mudar para o Werder Bremen com apenas 11 anos, mas foi dispensado com 14 por ser “demasiado pequeno”. “Quando me disseram que não tinha um futuro com eles fiquei de coração partido. Mas não abandonei a esperança”, contou ao jornal belga 7sur7.

E não abandonou mesmo. Aos 17 anos, deixou a família e assinou pelo TSV Havelse, da quarta divisão da Alemanha, ficando com um salário que rondava os 120 euros por semana. Ao mesmo tempo, trabalhava a tempo inteiro numa fábrica. “Levantava-me por volta das 4h da manhã, ia para a fábrica, depois ia treinar e voltava a casa por volta das 20h. No dia seguinte fazia tudo outra vez. Tinha de continuar a trabalhar para ter dinheiro para viver, porque não conseguia sobreviver com o dinheiro do futebol”, explicou na mesma entrevista.

https://observador.pt/2017/01/25/tres-respostas-rapidas-para-perceber-quem-sao-os-yazidis/

Depois de passagens pela equipa B do Eintracht Braunschweig e pelo SV Meppen, tudo mudou em 2020. Mudou-se para a Bélgica e assinou pelo Union St. Gilloise, contribuindo para a subida à primeira divisão e apontando 25 golos na época de estreia na Jupiler Pro League. Um registo que chamou a atenção do Brighton, para onde se transferiu em 2022. Fez cinco golos na Premier League e foi emprestado ao Estugarda, que acabou por contratá-lo a título definitivo. Na última temporada, marcou 19 golos na Bundesliga, ficando apenas atrás de Harry Kane.

Pelo meio, foi conquistando espaço na seleção da Alemanha. Começou por ser convocado pela primeira vez em março de 2024, já com 27 anos, foi chamado para o Euro 2024, onde cumpriu seis minutos, e viveu o primeiro grande momento internacional no passado mês de março, ao marcar o golo da vitória nos últimos minutos de um particular contra o Gana. Esse momento, porém, foi também o motivo de um confronto muito público com Julian Nagelsmann.

Na altura, motivado pelo golo decisivo, Deniz Undav disse à comunicação social que tinha o objetivo de alcançar a titularidade — defendendo até que, com os golos que ia marcando, estava cada vez mais perto de a atingir. Nagelsmann não gostou e rapidamente esvaziou o assunto, defendendo que o avançado não devia colocar-se “sob pressão”. “Não acho que a exibição dele tenha sido boa até ao golo, acho que só tocou na bola uma vez antes de marcar. Não acho que tivesse capacidade para fazer aquele movimento se tivesse andado a correr nos 70 minutos anteriores. Vamos precisar de jogadores que decidam jogos a partir do banco no verão, essa é a tarefa dele, o papel dele”, disse o selecionador alemão.

https://twitter.com/iMiaSanMia/status/2044719388687794351

Dias depois, porém, o próprio Julian Nagelsmann decidiu retratar-se, confessando até que tinha pedido desculpa a Deniz Undav. “O que disse não estava certo e foi demasiado duro para ser dito publicamente. Foi estúpido da minha parte e peço desculpa. Foi um apontamento desnecessário e já pedi desculpa ao Deniz, logo no dia seguinte. Felizmente, aceitou, e está tudo bem entre nós. Acho que naquela altura fiquei só um pouco irritado porque estavam a fazer muitas perguntas sobre o mesmo assunto”, justificou o treinador.

Quatro meses depois, a narrativa parece ter mudado. Deniz Undav igualou o recorde de Roger Milla, tornou-se o segundo jogador da história da Alemanha a marcar nos dois primeiros jogos num Campeonato do Mundo, igualando Miroslav Klose em 2002, e a ideia de que pode mesmo roubar o lugar de Kai Havertz no onze inicial começa a desenhar-se. E, desta feita, Julian Nagelsmann não rejeita o cenário.

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“Já disse anteriormente que falamos muito sobre diferentes abordagens. Quando o jogo abre ele é ótimo a movimentar-se. Posso dizer que quero manter este ritmo e que ele é melhor a entrar como finalizador, porque está no seu auge para este Campeonato do Mundo, ou posso tê-lo no onze inicial. Todos os jogadores querem ser titulares, mas acho que ele está feliz como está porque tem tido um papel importante e estamos muito contentes com as exibições dele. Não precisa de estar preparado, pode saltar para dentro de campo de forma imediata”, disse o selecionador alemão.

Já o próprio Deniz Undav, o primeiro yazidi a representar a Alemanha na fase final de um Europeu e de um Mundial, está só orgulhoso. “É um sentimento ótimo. É maravilhoso, um sentimento fantástico. Ser considerado o melhor jogador em campo é extraordinário, mas o mais importante é que ganhámos o jogo e estamos na próxima ronda”, disse o avançado depois de ser eleito o melhor jogador da vitória contra a Costa do Marfim que garantiu a passagem dos alemães aos 16 avos de final do Mundial 2026.