Aos 33 anos, Alireza Beiranvand, o guarda-redes da seleção do Irão, tornou-se um símbolo do Mundial 2026 após uma defesa brilhante no empate frente à Bélgica. No final do encontro, o selecionador iraniano, Amir Ghalenoei, não poupou elogios: “Beiranvand é um dos melhores guarda-redes da história do Irão. É muito inteligente, experiente e está em excelente forma. Devemos-lhe este ponto”, referiu, citado pelo jornal Marca. O herói da noite, contudo, teve de caminhar pela sombra antes de chegar às luzes da ribalta.
Nascido no seio de uma família de nómadas que se deslocava pelo país com o gado, Beiranvand cresceu a trabalhar como pastor. A paixão pelo futebol surgiu cedo, mas colidiu com a forte oposição do pai, que exigia que o filho continuasse a trabalhar no campo. “Uma vez, ele rasgou-me a roupa e as luvas de guarda-redes, por isso tive de defender com as minhas próprias mãos“, recordou o atleta à Gazzetta dello Sport.
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Decidido a não abdicar do desporto, Alireza tomou uma decisão drástica aos 15 anos: fugiu de casa e apanhou um autocarro a caminho da capital, Teerão. Sem dinheiro e sem teto, passou várias semanas a dormir na rua e a acumular empregos para poder comer — trabalhando como lavador de carros, varredor de ruas e ainda como funcionário numa pizzaria. A resiliência de Beiranvand acabou por dar frutos e o futebol profissional abriu-lhe as portas.
Enquanto estava no Naft-e-Tehran, foi selecionado para os Sub-20 do Irão e, pouco tempo depois, tornou-se o guarda-redes titular do clube. A partir daí, começou a ascender na carreira e, em 2016, transferiu-se para o Persepolis por uma verba recorde, segundo a ESPN. Chegou ao Antuérpia em 2020 e foi por empréstimo dos belgas que atuou em Portugal, representando o Boavista em 2021/22, sendo utilizado em oito jogos. Voltou depois ao Persepolis e em 2024 assinou pelo Tractor, onde ainda está.
Horas antes do apito inicial no jogo contra a Bélgica, o balneário do Irão viveu um momento de premonição. A equipa técnica exibiu um vídeo motivacional com os lances mais icónicos das participações da seleção em Mundiais, com intervenções de Beiranvand.
O médio Saman Ghoddos considerou a coincidência “de loucos”, uma vez que o vídeo acabou por antever o que viria a acontecer ao minuto 59: um voo desesperado do guarda-redes que deixou boquiabertos os 70.317 adeptos nas bancadas, como relatou o The Guardian.
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A disputar atualmente o seu terceiro Mundial, Beiranvand já tinha o seu nome inscrito na história da modalidade quando, em 2018, defendeu um penálti de Cristiano Ronaldo no duelo frente a Portugal. Além disso, Alireza é oficialmente o detentor de um recorde mundial registado no livro do Guinness: fez com a mão o lançamento de bola mais longo de sempre num jogo em 2016, frente à Coreia do Sul — conseguiu atirar a bola até 61,26 metros de distância.
Agora, com a defesa que desviou o remate à queima-roupa do belga De Cuyper, o antigo pastor prova que o passado de sacrifício valeu a pena. “Para mim, o maior desafio foram todos os obstáculos que tive de ultrapassar ao longo da minha carreira“, explicou.
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Fora das quatro linhas, o feito de Beiranvand ganha contornos de união nacional num cenário profundamente fraturado. O jogo decorreu sob tensão política, marcada por assobios ao hino do Irão e por protestos de manifestantes contra o regime de Teerão no exterior do estádio, onde várias bandeiras proibidas acabaram confiscadas.
Ainda assim, a situação foi mais calma do que no jogo de abertura. Beiranvand, citado pelo Asharq Al-Awsat, agradeceu a presença dos adeptos. “Beijo as mãos de cada um dos iranianos que esteve hoje aqui no estádio, todos eles. De todos os iranianos que nos apoiaram hoje. Houve momentos em que todos cantavam, chamando pelo nome do Irão”, disse.