Era um jogo carregado de simbolismo, pela data, pelo local e por quem estava em campo. Precisamente 40 anos depois de Diego Armando Maradona ter marcado dois dos golos mais famosos da história, entre a mão de Deus e o golo do século nos quartos de final do Mundial de 1986 contra Inglaterra, a Argentina entrava em campo em Dallas, o mesmo sítio em que Diego Armando Maradona representou o país pela última vez.
E se a memória do 22 de junho de 1986 era boa, já que recordava a tarde em que um homem se tornou mito, a memória do 1 de julho de 1994 era para esquecer. Naquele dia, no antigo Cotton Bowl de Dallas e depois da segunda jornada da fase de grupos do Mundial contra a Nigéria, Maradona acabou o jogo de mão dada com uma enfermeira rumo ao balneário. Testou positivo para cinco substâncias da família da efedrina, um estimulante proibido pela FIFA, foi suspenso pela própria Federação e nunca voltou a representar a Argentina.
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Os argentinos, que tinham perdido a final do Mundial 1990 para a RFA, perderam com a Bulgária na última ronda da fase de grupos e foram eliminados pela Roménia logo nos oitavos de final. Até hoje, um país inteiro alimenta a ideia de que aquela equipa, com Maradona, Batistuta, Redondo e Simeone, teria sido campeã mundial se não tivesse ficado órfã do capitão. Tanto que, na música oficial para o Mundial 2026, o desalento é recordado.
“Y 32 años después, La Scaloneta va a vengar, la Copa que le robaran al diez, la que no nos dejaram levantar”, cantam os argentinos. 32 anos depois daquele dia negro em Dallas, a Argentina voltava à cidade norte-americana com outro diez, outro capitão, noutro estádio, mas com o mesmo sonho. E era impossível que Lionel Messi, que tinha sete anos em 1994, não sentisse nas costas o peso de uma história por acabar.
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Esta segunda-feira, no AT&T Stadium, os argentinos defrontavam a Áustria na segunda ronda da fase de grupos do Mundial 2026 — sendo que ambas as equipas tinham vencido na primeira jornada, contra Argélia e Jordânia, destacando-se o hat-trick que Messi tornou ainda mais especial com lágrimas que, sabe-se agora, estavam relacionadas com problemas de saúde do pai. O capitão argentino era naturalmente titular e Julián Alvarez voltava a começar no banco, assim como Otamendi, enquanto que Michael Gregoritsch era a referência ofensiva austríaca em detrimento de Sasa Kalajdzic.
O jogo começou praticamente com uma grande penalidade: Lautaro Martínez foi carregado em falta por Stefan Posch dentro da grande área, o árbitro ouviu o VAR, foi ver as imagens e assinalou castigo máximo. Aí, Lionel Messi fez o que quase nunca faz e falhou, atirando ao lado e desperdiçando uma enorme ocasião para abrir o marcador (9′). O capitão argentino protagonizou duas grandes oportunidades dentro da meia-hora inicial, com Alexander Schlager a defender uma (19′) e David Alaba a intercetar outra (32′), mas acabou por tardar muito mais o que era expectável.
Já perto do fim da primeira parte, Thiago Almada conduziu pelo corredor central, abriu na esquerda em Facundo Medina e o lateral cruzou rasteiro e atrasado para Lionel Messi, que atirou rasteiro para abrir o marcador (38′) — e tornar-se o melhor marcador de sempre em Campeonatos do Mundo, chegando aos 17 golos e superando os 16 do alemão Miroslav Klose. Ao intervalo, a Argentina estava a vencer a Áustria em Dallas e Messi já tinha voltado a fazer história.
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A segunda parte demorou a acelerar e foi essencialmente equilibrada, com os argentinos a tentarem adormecer os austríacos com posse de bola. Marcel Sabitzer protagonizou o primeiro lance de perigo da equipa de Ralf Rangnick, com um livre direto na esquerda que Emiliano Martínez parou com um belo voo (55′), e os minutos iam passando sem que nenhuma das seleções tivesse um verdadeiro ascendente.
Nico González e Julián Alvarez entraram para os últimos 25 minutos, já depois de Otamendi ter substituído um esgotado Cuti Romero, e os austríacos foram aproveitando alguma quebra de intensidade dos argentinos para subir no terreno e assentar arraiais no meio-campo contrário. Já nos descontos, Lionel Messi ainda teve tempo para alargar o próprio recorde (90+5′), bisando e chegando aos 18 golos em Campeonatos do Mundo. No fim, a Argentina venceu mesmo a Áustria em Dallas, garantindo desde já o apuramento para os 16 avos de final do Mundial 2026.
A estrela
- Começa a tornar-se redundante, mas é impossível fugir ao óbvio. A dois dias de completar 39 anos, Lionel Messi chegou aos 18 golos em Campeonatos do Mundo e é agora o melhor marcador isolado da história da competição, superando os 16 do alemão Miroslav Klose. Para além disso, a influência do jogador do Inter Miami na Argentina continua a ser impressionante — quase como se tudo girasse à volta dele, mas nada dependesse essencialmente dele, mesmo que tenha marcado todos os golos dos argentinos na prova. Quatro anos depois de alcançar o sonho de uma vida ao conquistar o Mundial 2022 no Qatar, Messi continua a alimentar a ideia de que pode chegar ainda mais longe.
O joker
- Foi à procura da redenção e encontrou-a. Depois de um jogo pouco conseguido contra a Argélia, onde acabou mesmo por ser substituído no início da segunda parte, Thiago Almada não perdeu a titularidade — mas precisava de fazer muito mais para agradecer a continuidade da aposta de Lionel Scaloni. Contra a Áustria, o jogador do Atl. Madrid que no verão passado esteve muito perto do Benfica foi um dos melhores elementos do meio-campo argentino e uma figura central no lance do golo, conduzindo antes de abrir na esquerda e assinando a simulação que permitiu a Lionel Messi aparecer totalmente solto de marcação.
A sentença
- Com este resultado e os consequentes seis pontos, colando a vitória desta segunda-feira à da primeira jornada contra a Argélia, a Argentina junta-se a México, EUA e Alemanha e está apurada para os 16 avos de final do Mundial 2026. Quanto à Áustria, que na jornada inicial venceu a Jordânia, fica à espera do confronto da madrugada entre as duas seleções africanas para saber como se posiciona no Grupo J — mas permanece com óbvias chances de seguir em frente.
A mentira
- Dallas não se tornou uma cidade amaldiçoada para a Argentina. 32 anos depois de Diego Armando Maradona ali fazer o último de sempre pela seleção, Lionel Scaloni e companhia regressaram à cidade norte-americana para garantir que preferiam lembrar o dia em que, há precisamente 40 anos e na Cidade do México, o mesmo Diego Armando Maradona marcou dois dos golos mais míticos da história do futebol. E ali, no sítio em que a Argentina perdeu o seu Dios, o diez mostrou que o toque divino continua a existir.