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A arte do tiro no pé

O país desperdiça quem sabe fazer, empurra para fora quem quer ficar, e depois lamenta, nos grandes órgãos de comunicação social, a falta de mão‑de‑obra qualificada.

Elisa Manero
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O mercado de trabalho em Portugal domina uma coreografia laboral digna de estudo: o setor privado descarta trabalhadores qualificados a partir dos 50 anos, como se décadas de experiência fossem um capricho caro, enquanto o Estado prolonga a idade da reforma como se todos fossem maratonistas emocionais. Uma dança perfeita: uns empurram para fora, outros puxam para dentro, e quem trabalha fica no meio, a tentar não cair — um verdadeiro exercício de equilibrismo. Eu própria vivi isto: entrei na docência depois de três anos no setor empresarial, voltei a estudar aos 28, terminei o curso aos 35 enquanto trabalhava e só fiquei efetiva aos 48. Pelo caminho, vi pessoas serem dispensadas quando ainda queriam e podiam trabalhar. E, quando são descartadas, tornam‑se um peso para a Segurança Social,  que conveniente. O setor privado livra‑se delas, o setor público paga a fatura.

E há ainda um detalhe que raramente entra na conversa: a geração dos 50 anos é a geração que nasceu no manual e cresceu e viveu  no digital. Cresceram a escrever à mão e acabaram a vida profissional a navegar plataformas, softwares, sistemas e burocracias digitais. Adaptaram‑se duas vezes: ao mundo do trabalho e à revolução tecnológica. E, mesmo assim, são tratadas como obsoletas. Ironias do progresso.

Escolhi ser professora porque aqui, ao contrário de muitos setores, a experiência ainda vale alguma coisa. A maturidade profissional, a leitura dos contextos, a capacidade de antecipar problemas — tudo isso cresce com o tempo. Mas mesmo numa profissão onde a experiência deveria ser ouro, o sistema consegue transformá‑la em fardo. Querem que trabalhemos até aos 66 ou 67 anos, como se décadas de salas de aula, conflitos, burocracias e desgaste emocional fossem apenas um detalhe técnico. E enquanto isto acontece, ouvimos o clássico: “não há ninguém para trabalhar”. Uma frase comovente, de ir às lágrimas,  coitados,  repetida por empresários que se esquecem da parte essencial: não há ninguém disposto a trabalhar pelo preço que querem pagar. Há pessoas, jovens e experientes, mas não há salários que lhes permitam viver.

Entretanto, os jovens fazem aquilo que o país parece não prever: emigram. Não porque não queiram trabalhar, mas porque lá fora lhes pagam para viver, enquanto cá dentro lhes pagam para sobreviver. E depois ouvimos que “Portugal está a perder talento”, como se fosse um mistério profundo, insondável e de difícil solução. Não é mistério: é matemática básica. Se o salário não chega para pagar a renda, o talento apanha um avião, um barco ou um comboio.

O resultado é brilhante na sua irracionalidade, e ficam todos espantados: o país desperdiça quem sabe fazer, empurra para fora quem quer ficar e depois lamenta, nos grandes órgãos de comunicação social, a falta de mão‑de‑obra qualificada. E ainda se repete o lema de que “as pessoas não querem trabalhar”, como se a culpa fosse sempre de quem trabalha e nunca de quem paga. O privado descarta quem ainda tem muito para dar, o público exige que continuem quando já estão exaustos, desgastados e cansados,  é como dar um tiro no pé.

Mas, e isto é importante, não basta aumentar a idade da reforma. A própria OCDE lembra que, para manter trabalhadores mais velhos no ativo, é preciso melhorar condições de trabalho, oferecer formação contínua e adaptar funções à realidade de quem envelhece. Ou seja: não é só pedir que fiquem, é criar condições para que possam ficar.

Enquanto não houver coragem política para enfrentar o idadismo laboral, criar transições dignas e pagar salários que não insultem a inteligência e a dignidade, continuaremos a fingir que isto é normal. E continuaremos a deitar fora décadas de experiência,  e os jovens também, que entretanto já fizeram as malas e partiram para lugar incerto.