O chumbo do pacote laboral mostrou que continuamos a travar as batalhas ideológicas do século XX num mundo que já entrou, silenciosamente, noutra era.
Há debates que revelam mais sobre um país do que os próprios resultados que produzem.
O chumbo da reforma laboral esta semana foi um deles.
A esquerda celebrou uma vitória dos trabalhadores. A direita lamentou uma derrota da competitividade. Os sindicatos aplaudiram. Os partidos trocaram acusações. E, no meio de tudo isto, fiquei com a sensação desconfortável de estar a assistir a uma discussão que pertence a outro tempo.
Porque a verdadeira questão já não é saber se despedir deve ser mais fácil ou mais difícil.
A verdadeira questão é saber quantos dos empregos que hoje conhecemos existirão daqui a dez anos.
Enquanto discutimos os mecanismos laborais herdados do século XX, a inteligência artificial começa silenciosamente a transformar profissões, sectores e competências a uma velocidade que poucos parecem compreender. Não estamos perante uma mudança tecnológica comum. Estamos perante uma alteração estrutural da própria natureza do trabalho.
Durante décadas, a política laboral foi construída em torno de uma ideia simples: proteger o emprego.
Mas e se o emprego desaparecer?
Que sentido faz construir muralhas em torno de funções que a tecnologia inevitavelmente irá transformar? Que utilidade terá proteger uma posição específica quando aquilo que realmente importa é proteger a pessoa que a ocupa?
Talvez o maior erro do debate português seja precisamente este: continuamos a proteger postos de trabalho quando deveríamos estar a preparar trabalhadores.
São coisas diferentes.
Um emprego pode desaparecer.
Uma pessoa não.
A missão de uma sociedade moderna não deveria ser impedir a mudança. Deveria ser garantir que ninguém fica para trás quando a mudança acontece.
É aqui que surge uma questão raramente discutida. Quando se fala em proteger os trabalhadores, de que trabalhadores estamos realmente a falar?
Dos que já têm contratos estáveis? Dos que já estão dentro do sistema?
Porque existe outro país laboral que quase nunca entra no debate. O dos jovens presos à precariedade, o dos desempregados de longa duração, o dos que continuam sem conseguir entrar no mercado de trabalho. Em Portugal, cerca de 40% dos jovens trabalham com vínculos precários. Para estes, a rigidez do sistema não é uma proteção. Muitas vezes é uma porta fechada.
Existe uma verdade incómoda que poucos gostam de admitir: barreiras ao despedimento são frequentemente barreiras à contratação. Quanto maior o risco de contratar, maior a tentação de não contratar. E quando isso acontece, quem paga a fatura não são os trabalhadores protegidos, mas aqueles que continuam à procura de uma oportunidade.
Os resultados estão à vista. Portugal produz apenas cerca de dois terços da riqueza por hora trabalhada da média europeia. Os salários continuam significativamente abaixo dos nossos parceiros. Trabalhamos mais horas, mas criamos menos valor. E uma economia que dificulta a mobilidade das pessoas e dos recursos acaba inevitavelmente por dificultar também o crescimento.
Infelizmente, o debate sobre a reforma laboral mostrou o contrário. Mostrou um país preso a categorias antigas, a sindicatos que representam sobretudo quem já está protegido, a partidos que continuam a falar para os eleitores de ontem e não para os trabalhadores de amanhã.
A pergunta não é se esta reforma era perfeita.
Não era.
A pergunta é muito mais inquietante.
Se não conseguimos discutir seriamente uma alteração relativamente modesta das regras laborais, como iremos enfrentar a maior transformação do trabalho desde a Revolução Industrial?
Porque a inteligência artificial não vai perguntar se estamos preparados. Não vai esperar pelos calendários eleitorais nem pelos congressos partidários. Vai simplesmente avançar.
E quando isso acontecer, descobrir-se-á que o verdadeiro desafio nunca foi proteger empregos.
Foi preparar pessoas.
Talvez o problema não seja esta reforma ter sido chumbada.
Talvez o problema seja percebermos que ninguém parece estar verdadeiramente a discutir o que vem a seguir.
No fundo, talvez esta seja apenas mais uma manifestação de um velho impulso humano: a tentativa de congelar o tempo.
Construímos instituições para criar estabilidade, mas esquecemo-nos frequentemente de que a vida prospera precisamente porque muda. O rio mantém a sua identidade não porque a água seja a mesma, mas porque nunca deixa de correr.
Talvez o erro das sociedades não seja resistirem à mudança.
Talvez seja acreditarem que a podem evitar.
A História tem sido implacável com quem confunde abrigo com permanência.