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(A) :: #Thanatos2

#Thanatos2

Clarice entrava no consultório, sentava-se na mesma cadeira de sempre, pousava o olhar oblíquo na secretária e começava quase sempre a chorar. E eu deixava escorrer.

José Torres da Costa
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Era a sexta ou sétima vez que Clarice me consultava no espaço de um ano. Já me tinha procurado em visitas anteriores, mas dessas nada mais tinha resistido que inócuos registos. Porém, tudo se alterara no espaço de pouco mais de um ano.

A primeira visita de que me recordo ocorreu em novembro do ano anterior. Clarice devia ter pouco mais de cinquenta anos. Entrava então na fase de vida em que o feminino se esfuma em ténues memórias. Clarice entrava nessa fase da vida.

Tinha um rosto fechado, mas não duro, apenas sem luz. O olhar era oblíquo e descaído, e a expressão surgia languida no tom, sem chama nem curiosidade. Por entre os cabelos sobressaía a alvura das raízes, como se algo premeditadamente lhe expulsasse qualquer colorido da vida. Os lábios estavam secos e áridos como se há muito procurassem o calor de um beijo. Não se apresentava esmerada no aprumo, mas também não tinha decaído numa melancolia sem retorno. Havia nela algo que apelava ao abandono, mas um abandono a que resistia como quem procura uma âncora onde se balancear.

Entrou sem palavras e sentou-se numa das cadeiras disponíveis em frente à secretária onde pregou o olhar sem dizer palavra.

– Bom-dia, D.ª Clarice, então como tem passado? Disse-lhe, um pouco mecanicamente, mas com a afabilidade de quem se disponibiliza para escutar.

– Bom-dia

Adivinhei-lhe no tremer de lábios, como se da boca mais não houvesse que um vazio e a consciência de um espaço por preencher. Se lhe fosse possível responder sem emitir som estou certo que assim teria feito. De imediato percebi que não havia lugar para automatismos nem estribilhos. Teria de lhe dar espaço. Teria de aguardar para a ouvir. O registo clínico relatava-me alguns problemas menores, controlados há muitos anos. Porém, tudo em Clarice parecia discordante das anotações. Algo deveria ter ocorrido. Teria de esperar.

E assim fiquei alguns minutos, expectante e disponível. Clarice continuava com os olhos pregados na secretária, incapaz de desfazer a obliquidade do olhar. As mãos denotavam uma tensão crescente. Segurava a carteira com os dedos crispados e comprimia-a fortemente contra o peito como se assim evitasse uma erupção de sentimentos que parecia poder surgir a qualquer instante.

Ao fim de alguns minutos, o esforço de contensão pareceu ceder. Abriu-se uma brecha e pelo canto do olho escorreu uma lágrima. Primeiro era só uma, lenta e solitária. Uma que como uma batedora parecia procurar um caminho que mapeava para que outras, uma torrente delas, a seguissem. E não demorou muito para que o dilúvio lhe inundasse o rosto.

– Por que chora D.ª Clarice?

A pergunta era sincera, pressentia algo terrível e trágico que não conseguia imaginar.

– Por que choro, Sr. doutor? – Não respondeu de imediato. Continuava a olhar para o tampo de uma secretária onde parecia procurar as forças para continuar.

– Porque estou só! Porque há quase um ano que não vejo as minhas filhas, os meus amores. Tenho saudades delas, doutor. Muitas!

– Não fala com elas?

Inicialmente esboçou a resposta com um ligeiro aceno de cabeça, e uns breves instantes depois, disse:

– Todos os dias! Todos os dias, religiosamente!

Era uma resposta estranha. Havia pais que passavam semanas sem ouvir os filhos quando estes para fugir às armadilhas domésticas abalam para outras geografias.

– Então, vamos lá, não estão assim tão longe! Todos os dias as vê e ouve. Todos os dias tem um cantinho só seu que com elas partilha.

Pela primeira vez ergueu os olhos.

– Todos os dias lhes ouço a voz, vejo o rosto, sei como foi o dia e o que fizeram. Todos os dias ouço os dois netinhos que tenho da mais velha. Todos os dias lhes ouço as palavras, vejo os rostos. Mas não é a mesma coisa. Falta-me o cheiro, o calor de um abraço. Falta-me poder chorar nos braços delas!

Então aí, as lágrimas regressaram.

– Sabe doutor, e continuava por entre soluços e estremeços, falta-me a presença da família. Tenho uma casa grande, preenchida por silêncio e espaço. Falta-me a família, faltam-me as crianças, o brincar, o falar com os animais, o sujar e o tudo encher de vida. Falta-me essa vida. Faltam-me as filhas, as crianças e esse futuro. Sem futuro não consigo encarar o presente, sem elas não consigo viver.

Clarice à medida que falava das filhas e dos netos parecia atenuar a dor. Clarice precisava de falar, Clarice precisava de partilhar, precisava que a ouvissem, de sentir que havia quem com ela chorasse.

A consulta continuou, por outros caminhos, sem que a tristeza da alma alguma vez a abandonasse. No fim, mesmo antes de sair, já não chorava, mas o olhar continuava oblíquo e lânguido, sempre pousado no tampo sereno da secretária.

Nas consultas seguintes, o desfalecimento e abandono repetiam-se metodicamente. Quando a porta se abria, era a tristeza que entrava. Sempre o mesmo mutismo, sempre o mesmo olhar oblíquo. Repetia-se o silêncio, os prantos e as mesmas saudades das filhas e netas.

E eu, impotente, tentava dizer-lhe que as distâncias de hoje eram relativas. Muito menos reais que há décadas. Hoje podíamo-nos deslocar ao centro da Europa com a mesma facilidade com que há anos viajávamos entre Porto e Lisboa. Tentava dizer-lhe que as distâncias de hoje não eram uma verdadeira dificuldade. Clarice emudecia, mas, já na altura, tinha a certeza que não era pela distância que sofria.

Só ao fim de alguns meses, quando pela terceira ou quarta surgiu no consultório, só então compreendi a verdadeira natureza da sua negrura.

Clarice entrou no consultório como fizera nos últimos meses. Vinha lenta, flácida, dominada por uma sempre presente tristeza que lhe vergava os ombros e apagava o olhar. Sentou-se, pousou a carteira sobre o colo e ficou em silêncio. O ritual repetia-se consulta após consulta. Primeiro o silêncio, depois as lágrimas, para finalmente soltar algumas palavras arrancadas a custo.

Falámos como sempre das filhas e netos. Falámos dos abraços que tardavam em chegar.

Era um diálogo delicado. Eu escutava-a, escutava as palavras, os silêncios, os gestos, mas ficava sempre com a impressão de que algo me escapava. Nenhuma saudade, por mais profunda que fosse, me parecia capaz de justificar tamanha devastação.

Nesse dia, talvez cansada de carregar sozinha o peso que trazia dentro de si, talvez viesse determinada a isso, Clarice acabou por abrir um caminho por onde até então apenas existira silêncio.

– Sabe, doutor, é muito difícil viver numa casa que sendo grande é pequena demais para o vazio que as paredes sustêm.

– Mas, como vazio? Então e o seu marido não faz companhia? Não lhe dá apoio? Não partilha consigo as saudades de filhas e netos?

Tinha então consultado as folhas da primeira consulta onde estava registada a composição do agregado.

– O meu marido, o Sr. António faleceu no ano passado!

As lágrimas regressaram, mas agora eram diferentes. Já não tinham a urgência das primeiras consultas. Eram, mais fluidas. Não surgiam em turbilhão como das primeiras vezes, estas agora eram purificadoras, lavavam a alma.

– Andava muito doente. Há muito que andava doente! Sabe doutor, quando vivemos com uma pessoa doente, como o meu marido, vivemos ao lado de um abismo. Tudo o que fazemos, todos os passos que damos são sempre os seguros, os mais seguros e sim, temos medo, muito medo! Sabemos que não temos futuro, mas aguardamos sempre um pouco mais. Sabemos que não temos planos, objetivos longos, mas nada nos retira verdadeiramente o dia de amanhã, aguardamos sempre o dia de amanhã. Antecipamos sempre o amanhã, não mais do que isso, porque temos medo. Temos medo de não estar preparados e quando a queda acontece, nunca estamos preparados. Enquanto esse dia não chega todos esperamos milagres. Todos os dias esperamos um milagre para amanhã.

Sabe doutor, eu sou católica, acredito em milagres e na reencarnação. Sou feliz porque acredito, mas por mais católica que seja, sei que nunca se está verdadeiramente preparada. Quando a última pedra do caminho cede, quando não há mais caminho, também nós caímos, e sabe doutor, caímos e por mais preparada que estivesse é sempre custoso o erguer. Não é à toa que a cor do luto é o negro. Cair no abismo doutor, é mergulhar na negrura do vazio. Quando o meu marido morreu eu estava à espera, apenas não estava preparada!

A minha mãe apesar dos seus oitenta anos – e enquanto falava na mãe, repousava de novo o olhar na secretária, agora o mais oblíquo que alguma vez apoiara – era uma mulher de armas, uma mulher rija.

Ela era a alma da casa. Era ela que comandava tudo. Sei que o meu paizinho a amava muito, mas tinha-lhe medo. Bom, não sei se era medo, mas era mais que respeito. Quando a minha mãe nos olhava do jeito que só ela sabia, punha-nos logo em sentido. Mesmo os netinhos quando lá iam a casa, mesmo neles se sentia o “respeito” que todos lhe tinham.

Porém apesar da energia e trabalho necessário para se gerir uma casa agrícola, a minha mãe era um poço de carinho e amor. Quando me via triste, abraçava-me forte. Não chorava connosco, mas apertava-me com tanta força que me sentia segura como se por magia tivesse regressado à infância. Para mim doutor, não há nada mais poderoso que o abraço da minha mãe.

Quando o meu marido morreu, ainda que o esperasse, só o abraço da minha mãe me confortava. Ela nunca chorava, apenas me abraçava, e eu sabia que o abraço dessa mulher fantástica, era Deus a pedir-me perdão.

A minha mãe passou de novo a tratar-me como a sua menina, regressei à infância e a minha mãe veio dormir comigo, para que não me sentisse só.

Durante a noite puxava-me para os seus braços, beijava-me a testa, os olhos e aos ouvidos soprava-me para que me deixasse embalar – dorme pequenina, dorme, assim dizia!

Um dia, de madrugada, não a senti na cama, não lhe ouvia a respiração. Julguei que se tinha levantado e estiquei o braço para a procurar. Estiquei-o brandamente, de mansinho, como se procurasse uma joia numa noite escura. E lentamente, arrastadamente levei a mão para que na procura a não acordasse.

Do outro lado da cama lá estava o seu corpo, calmo, tranquilo, frio como pedra!

O olhar que até então estivera pousado, obliquamente em descanso, ergueu-o lentamente e fixou-me de frente enquanto lhe escorriam as lágrimas que há muito parecia armazenar.

Ainda não tinha feito o luto do meu marido e já de novo estava a reviver os mesmos tormentos. Se a morte do Sr. António era algo que esperava ainda que não estivesse verdadeiramente preparada, a da minha querida mãezinha, nem esperada era. Naqueles dias entre os funerais, a minha mãe era a minha âncora, foi ela que me susteve. Foi a minha mãe que me resgatou do abismo onde me afundei após a morte do António. A minha mãe era a parte saudável de mim. Quando partiu só sobrou tristeza e vazio.

O meu pai, o Sr. Carlos, era um ano mais novo que ela e, apesar de sempre saudável, não tinha a genica nem a sua alma. Tal como eu, era dependente, dependente da energia dela, dependente da estabilidade dela.

A D.ª Alice era o pilar daquela casa, tudo girava e se media em seu redor. Agora, com a sua partida, eu não podia deixar-me cair na melancolia a que o destino me puxava. Tinha de ser forte. O meu pai precisava de mim. Tinha de resistir e guardar para a solidão da noite o lavar da alma. Agora o meu pai dependia de mim, e eu teria de ser forte para fazer de cuidadora, de mãe, de filha. Eu que até aí sempre tinha sido protegida, tinha agora de me reinventar e ser todas essas personagens. E não estava preparada quando em poucas semanas toda a responsabilidade do mundo desabou nos meus ombros.

Fez-se silêncio! Eu não tinha palavras, aliás, acho que Clarisse nunca me procurou pelas palavras sempre desajustadas que verbalizamos quando os sapatos do outro não são a nossa medida. Clarice vinha para falar, pelo silêncio e por aquele tempo que a parecia sempre sossegar.

E de novo com o olhar oblíquo, continuou. Com a morte da minha mãe, nunca mais vi um sorriso nos lábios de meu pai. O Sr. Carlos emudeceu. Fazia o dia em silêncio, ensimesmado no luto e na tristeza, e quando lhe dizia – agora paizinho, agora estamos os dois sozinhos nesta casa, agora, como os pilares do arco, agora temos de nos apoiar um ao outro. O meu paizinho ouvia-me, e em silêncio eu sentia-o chorar. A base daquele pilar parecia desfazer-se a qualquer momento.

Os dias sucediam-se e neles tinha de suster o que ainda sobrava e fingir que dois podiam ser uma multidão. Foi assim durante quase um mês. Um dia, uma manhã igual a tantas outras, a vizinha veio bater-me à porta. O meu pai estava caído nos terrenos que mondava.

– Um mês depois da minha mãe partir, o Sr. Carlos abalou também. No espaço de pouco mais de um mês perdi as pessoas com quem vivia. Perdi marido, mãe e pai. Perdi-os a todos e agora sinto que é a minha vez.

Quero chorá-los todos. Quero fazer luto até ao fim dos dias, mas não tenho forças. Sinto-me incapaz de sofrer o que acho justo. Não consigo sofrer mais e sinto-me culpada por isso. O olhar continuava pousado naquele tampo que ela fitava e via como o portal de uma outra realidade.

Clarice já não conseguia ocupar todo o espaço que o mundo lhe disponibilizava. A casa era agora demasiado grande. As filhas estavam na Suíça e no Luxemburgo. Os netos cresciam longe. Mas a verdadeira tragédia não era a distância. A verdadeira tragédia era que, quando Clarice fechava a porta de casa ao fim do dia, já não existia ninguém do outro lado da sua vida.

As vindas ao consultório repetiam-se como num ritual. Nunca mais a recebi com o estúpido e desajustado estribilho “Olá D.ª Clarice, como tem passado?”. Nunca mais lho disse. Clarice entrava no consultório, sentava-se na mesma cadeira de sempre, pousava o olhar oblíquo na secretária e começava quase sempre a chorar. E eu deixava escorrer uma lágrima, mas por dentro acompanhava-a na sua tristeza. Clarice queria apenas regressar aos seus.