“Vamos criar um fundo soberano de Portugal junto do IGCP, nossa agência de gestão da dívida pública, que será um instrumento de autonomia e intervenção do Estado em setores estratégicos. Quero dentro deste projeto destacar que a intenção é termos participações acionistas relevantes em empresas estratégicas para o desenvolvimento do país e para a sua resiliência, por forma a garantir um veículo de poupança para as gerações futuras e um instrumento de efetivar a soberania nacional. Estamos a falar de participações em áreas como a energia, mas não excluímos a banca, as comunicações ou mesmo a gestão de infraestruturas aeroportuárias se os concessionários das mesmas não cumprirem as suas obrigações.”
https://observador.pt/especiais/montenegro-nas-entrelinhas-as-oito-reformas-a-marcacao-a-ventura-e-a-resposta-a-passos/
A ideia foi deixada por Luís Montenegro que, no congresso do PSD, falava como presidente do partido, mas não deixando de fazer promessas de governação. E uma das novidades foi o anúncio da intenção de criação de um fundo soberano junto da agência que gere a dívida pública. O último Governo socialista, então liderado por António Costa, já tinha revelado a mesma pretensão, recebida com críticas pelos social-democratas. O Fundo Medina, como ficou conhecido, pretendia ser um mealheiro para o futuro, na perspetiva de redução dos fundos europeus que se antecipa. Seria constituído e financiado com os excedentes orçamentais, mas também com o dinheiro que viesse das concessões rodoviárias que estão a chegar ao seu fim e que terão de ser renovadas (ou o Estado ficar com elas e com o respetivo valor das portagens). Fernando Medina, ministro das Finanças desse governo socialista, pretendia que este fundo financiasse obras públicas.
Agora, Luís Montenegro volta a falar de um fundo soberano mas com objetivo distinto. Diz pretender com ele investir em participações acionistas estratégicas. Algumas já estão sob a alçada da Entidade do Tesouro e Finanças (antiga direção geral) como é o caso dos 100% da Caixa Geral de Depósitos. Mas existe no Estado a Parpública, holding pública com participações em outras empresas, que está, precisamente neste momento, a reavaliar essas posições. O Governo recusou prestar esclarecimentos sobre este fundo soberano, mas o Observador sabe que a participação na Galp (de 8%) será uma das que está na mira para integrar este fundo soberano. Ainda mais agora que a Galp anunciou uma parceria com a Moeve, que vai levar a que a refinaria de Sines passe a integrar uma companhia maioritariamente detida pela companhia que está nas mãos do fundo soberano de Abu Dhabi.
https://observador.pt/especiais/controlo-ou-dimensao-o-que-esta-em-jogo-na-fusao-entre-galp-e-grupo-espanhol-controlado-pelo-abu-dhabi/
Também a REN será uma das empresas na mira deste fundo soberano nacional. Luís Montenegro, em plena campanha das legislativas e antes de chegar a primeiro-ministro, salientou que “é do interesse estratégico de Portugal ter a rede elétrica na posse do Estado”. Voltou a ponderar a participação do Estado nesta empresa depois do apagão. E nos bastidores o assunto até já foi abordado, sabe o Observador. A REN é uma empresa cotada em bolsa, que vale 2,4 mil milhões de euros, sendo o seu principal acionista a chinesa State Grid (25%), a que se juntam os 5% da Fidelidade, detida pela Fosun. Há instrumentos europeus que permitem a Portugal entrar em empresas com investidores de países terceiros. Noutros casos, como o dos CTT (cuja capitalização é atualmente de 792 milhões de euros), a Parpública ainda detém uma posição de 0,25% adquirida quando estava no Governo o PS e que pretendia ter uma posição minoritária na empresa postal. Esse investimento, na altura, foi igualmente criticado pelo PSD, na oposição. A Parpública nunca se desfez dessa posição e o Ministério das Finanças nunca revelou ao Observador a orientação dada para essa posição.
https://observador.pt/especiais/governo-de-costa-queria-mais-parpublica-comprou-024-dos-ctt-uma-operacao-so-conhecida-passados-dois-anos/
Aliás, o gabinete de Joaquim Miranda Sarmento mandou estudar as participações financeiras do Estado sem nunca ter revelado a conclusão do estudo. Mas o secretário de estado do Tesouro, João Silva Lopes, chegou a indicar que o Governo pretendia concentrar na Parpública as empresas com especial interesse estratégico. Além da Parpública, da Entidade do Tesouro e Finanças há ainda a considerar a existência do Banco de Fomento, que tem muitas das funções que na Europa são atribuídas a fundos soberanos. E ainda há o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS), que tem como função ser uma almofada para pensões futuras se um dia o sistema de segurança social entrar em défice. No final de 2025, a carteira do FEFSS atingiu 41,9 mil milhões de euros.
Agora, Luís Montenegro coloca outra entidade nestas funções. O IGCP, que gere a dívida pública. Não disse como irá financiar o fundo soberano, mas os excedentes que nos últimos anos o Estado conseguiu estão longe de se perspetivarem nos próximos anos, admitindo-se mesmo em algumas projeções o regresso a défices.
Portugal com dívida pública elevada
A dívida pública portuguesa ainda está longe das regras europeias que a pretendem até aos 60% do PIB. Portugal conseguiu já estabelecê-la abaixo dos 90%, mas ainda há caminho até aos 60%.
Gonçalo Pina, professor na universidade alemã ESCP Business School, considera que, existindo dívida elevada, “só compensa ter um fundo se este render acima do custo da dívida”. “Se o custo da dívida estiver acima do retorno do fundo, mais vale amortizar a dívida. E o fundo cria risco se a maturidade dos ativos for maior do que a da dívida. Os investimentos estão presos por algum tempo até gerarem retorno, mas o mercado de dívida pode virar e as taxas de juro voltarem a subir”. Ainda assim considera que o fundo pode ser visto favoravelmente se o Estado investir “onde o capital privado devia ir mas não vai (por ser impaciente, ou por falta de coordenação entre agentes privados)”. Mas, acrescenta, “entrar em empresas já bem financiadas, como os exemplos falados, não corrige falha de mercado nenhuma”. Outro argumento é o de proteger activos críticos ou centros de decisão nacionais — mas, se for assim, “assuma-se”.
Havendo em regra dois tipos de fundo, o de estabilização e o estratégico, o primeiro é mais comum quando um país tem matérias-primas (por exemplo, o Chile). “O fundo estratégico já não depende disso (por exemplo, a Irlanda tem um que funciona bem)”, realça Gonçalo Pina que lembra que Portugal “até tem uma fonte de receita excecional e volátil, um pouco como as matérias primas, que é o turismo, mas o que está a ser proposto não é um fundo de estabilização, parece mais um fundo estratégico”. Por isso, “sem uma receita excecional não estamos a gerir a riqueza que já temos, mas estamos a decidir colocar dinheiro público escasso (ou emprestado) no capital de empresas em vez de amortizar a dívida, gastar em serviços públicos, ou em investimento público”.
O mesmo professor realça que é até possível somar mais uma entidade, como o fundo soberano, à panóplia das que já existem — Parpública, CGD, Banco de Fomento — “se cada veículo tiver um mandato distinto e sem sobreposições”. E realça que o fundo até pode trazer mais transparência aos investimentos. “Os ‘Santiago Principles’ são um conjunto de boas práticas que podem trazer mais transparência. Depende de como se fizer. Acho que é importante haver debate sobre a estratégia de política industrial, mas deixar as decisões específicas a cargo de técnicos, com um sistema de governação que funcione e seja validado pelo Parlamento. Temos muitos exemplos em Portugal onde a gestão de dinheiro público poderia ter beneficiado de uma abordagem mais profissional e mais alinhada com o interesse público (e menos com o interesse político)”.
Os fundos da Noruega, Singapura e Irlanda têm governação profissional. Mas Gonçalo Pina alerta: “Se o fim é o retorno e a poupança, as participações devem ser minoritárias e diversificadas, idealmente no estrangeiro. Se o objectivo é o controlo estratégico, é melhor admitir que é política industrial, e não ‘poupança’. A mistura anunciada (participações minoritárias em empresas nacionais, vendidas como poupança), não é ideal. Não tem lógica financeira nem controlo e pode facilmente transformar-se em subsídios e exemplos de má gestão.”
Os modelos de fundos soberanos são vários em todo o mundo e muitos nem fundos são mas tomam a forma de empresas públicas ou bancos de fomento. Nos anos mais recentes, um pouco por toda a Europa, tem vindo a consolidar-se a existência de fundos deste tipo para garantir participações estratégicas em áreas críticas.
Espanha e o seu braço armado nas empresas
Espanha sempre foi um país onde a intervenção pública em empresas foi grande. Ainda recentemente, em 2023, a Sociedad Estatal de Participaciones Industriales (SEPI) adquiriu uma posição de 10% na Telefónica, como contrapeso da entrada com igual posição da Saudi Telecom Company. A SEPI tem cerca de 21 mil milhões de euros sob gestão. É uma empresa que tem entrado com participações consideradas estratégicas e tem também desempenhado o suporte de auxílio a sociedades, como aconteceu na altura da Covid-19 no setor da aviação. O grupo SEPI atualmente é composto por 14 companhias com posições maioritárias (Correos, Navantia, Tragsa, Mercasa, Ensa, EFE, Sepides, etc.) e cerca de 11 com participações minoritárias (como na IAG, Airbus, Enagas, Indra, Telefónica, Talgo).
É uma empresa de intervenção de política pública. Além da SEPI, Espanha tem a Compañía Española de Financiación del Desarrollo (Cofides) para apoio financeiro a empresas espanholas no exterior. Mais recentemente, o fundo de co-investimento Foco pretende investir em empresas em Espanha juntamente com investidores privados. Mas estes instrumentos já funcionam mais como banca de desenvolvimento.
Itália com um fundo para a indústria
O governo de Giorgia Meloni promoveu a criação do Fondo Nazionale del Made in Italy com mil milhões de euros. O objetivo é passar a integrar contributos privados, também, para apoiar o crescimento e fortalecimento de cadeias de abastecimento nacionais estratégicas e aumentar o acesso a matérias-primas essenciais. É gerido pela Cassa Depositi e Prestiti (CDP) que é o banco de fomento italiano e que tem sob gestão mais de 10 mil milhões de euros. Já houve inscrições abertas para financiamentos na área do aeroespacial e aeronáutica; design, moda e mobiliário; metal e eletromecânica; química e farmacêutica; borracha e plástico; agroindústria. O Estado italiano tem, por exemplo, uma participação na STMicroelectronics, com o Estado francês
Grécia com dinheiro das privatizações
O Growthfund é o fundo nacional da Grécia, criado em 2016. Tem 23 subsidiárias e participações no seu portfólio, desde bancos a serviços postais, infraestruturas, águas, energia, turismo. Tem sob gestão mais de 12 mil milhões de euros. Foi criado no rescaldo da crise financeira grega com o dinheiro dos encaixes das privatizações. É igualmente com ativos a vender que o fundo continuará a crescer, gerindo participações consideradas estratégicas na banca, energia, gás, água, transportes, portos, imobiliário.
França tem várias participações estratégicas e tem um fundo para as pensões
França tem duas entidades que se podem considerar fundos soberanos. Uma é um banco de acompanhamento empresarial, que atua como banco de fomento, designado Bpifrance, com 42 mil milhões de euros sob gestão; e a outra é o equivalente ao português Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS). É o Pensions Reserve Fund (FRR), um fundo de reserva para as pensões que tem sob gestão 20,4 mil milhões de euros.
O Estado francês é detentor de várias participações em empresas que considera estratégicas, como na Air France, Stellantis, Orange, STMicroelectronics (onde também está o Estado italiano), Constellium. O Estado francês ainda detém a Sogepa, para as participações no setor aeronático. E mais recentemente criou um fundo para as matérias-primas críticas, gerido pela Infravia.
Bélgica também investe em participações estratégicas
A Société Fédérale de Participations et d’Investissement-Société Fédérale de Participations (SFPI-FPIM) é a entidade considerada como fundo soberano belga. Está em mais de 180 empresas e tem ativos avaliados em quase 12 mil milhões de euros. Banca, correios, aeroportos, seguros e imobiliário são alguns dos investimentos feitos pelo fundo. Esta sociedade criou recentemente um fundo específico para adquirir participações em empresas da área da defesa.

Reino Unido com fundo soberano criado a partir do banco de fomento
O Reino Unido transformou, em outubro de 2024, o banco de infraestruturas no National Wealth Fund (fundo soberano nacional) e, com isso, de um fundo soberano de 7,3 mil milhões de libras ficou com uma estrutura a gerir mais de 27 mil milhões de libras (31 mil milhões de euros). Quando foi anunciado pela ministra das Finanças, Rachel Reeves, indicava-se a intenção de investir em projetos como portos, gigafábricas, hidrogénio e aço, tendo sido cinco os setores considerados prioritários para investimentos no ano fiscal que terminou em 2025: energia limpa, transporte, digital, água e resíduos. Cornish Metals, que explora depósitos minerais de estanho, e Quickline Communications, de banda larga em zonas rurais, são dois dos investimentos já realizados pelo fundo soberano, quer através de capitais, quer de empréstimos.
O objetivo deste fundo é acrescentar ao dinheiro público, proveniente do orçamento do Estado, dinheiro privado. No ano fiscal terminado em março de 2025, o NWF firmou 19 contratos, elevando o total investido aos 5,4 mil milhões de libras. Funciona mais como fomento de investimentos em setores considerados estratégicos. Mas por exemplo a nacionalização da British Steel, anunciada pelo governo de Keir Starmer (que se demitiu esta segunda-feira), foi feita através do Departamento de Negócios e Comércio do Reino Unido — que ainda só tomou o controlo operacional, mas não ficou com as ações do capital social.
Irlanda a pensar nas gerações futuras
Um fundo anunciado em 2023, e criado em julho de 2024, com uma dotação inicial de 4,1 mil milhões de euros, proveniente da dissolução do fundo de calamidade, deverá atingir, em 2035, um montante de 100 mil milhões. Isto porque a Irlanda tenciona injetar, anualmente, até esse ano cerca de 0,8% do PIB nominal, equivalente a mais de 5 mil milhões de euros, do qual espera um retorno anual de 4%. O Fundo da Irlanda do Futuro não pode ser dissolvido, segundo as regras anunciadas, antes de 2041, quando atingir o tal valor milionário, mas o dinheiro poderá ser movimentado para financiar despesas públicas. Na existência de uma crise profunda da economia irlandesa, o Ministério das Finanças irlandês fica autorizado a reduzir as contribuições para o fundo, mas não a dissolvê-lo.
A legislação não vincula o fundo a áreas específicas. Mas o fundo prevê que o seu portefólio seja repartido: 80% em ações de cotadas e 20% em dívida pública.
Este fundo é gerido pela National Treasury Management Agency (NTMA), a homóloga do IGCP em Portugal. Além do fundo Irlanda do Futuro, gere mais dois veículos: o Ireland Strategic Investment Fund (ISIF) e o Infrastructure, Climate and Nature Fund (ICNF). Se o Irlanda do Futuro é um instrumento de capitalização, o fundo de Infrastrutura, Clima e Natureza pretende ser um instrumento de recurso do estado irlandês em períodos de contração, permitindo que não se travem obras públicas ou investimentos estratégicos. Este terá dotações anuais de dois mil milhões de euros que têm de ser aplicados na totalidade em depósitos ou dívida. O objetivo é que atinja os 14 mil milhões de euros.
A NTMA gere, ainda, o Fundo Estratégico de Investimento da Irlanda (ISIF), atualmente com 15 mil milhões de euros, cujos investimentos têm de ser feitos numa base empresarial, e que tem posições nos correios, na banda, na aeronáutica.
Áustria tem holding que financia Estado
A Österreichische Beteiligungs AG (ÖBAG) é uma empresa pública austríaca para gerir participações consideradas estratégicas. Iniciou-se para gerir privatizações, mas tornou-se numa verdadeira holding de participações em áreas como correios, energia, telecomunicações, fundos de pensões, entre outras. Gere uma carteira de quase 30 mil milhões de euros e é, por seu lado, financiadora do Orçamento de Estado austríaco com os dividendos que vai pagando.

Noruega tem um fundo que começou com o petróleo para ganhar escala global
A Noruega tem um dos maiores fundos soberanos mundiais, que se destaca pelo seu caráter global de investimento. Gerido pelo Norges Bank Investment Management (NBIM), o fundo valia, em março de 2026, 19,9 biliões de coroas norueguesas, o equivalente a 1,8 biliões de euros. O fundo soberano norueguês surge na sequência da descoberta de petróleo na Noruega, no Mar do Norte, em 1969. A economia do país disparou após a descoberta. Mas, tendo em conta que o petróleo irá um dia acabar, o fundo tem como principal objetivo garantir que as receitas geradas pelo petróleo e gás “são usadas de forma responsável, com pensamento a longo prazo para salvaguardar o futuro da economia norueguesa”, diz a entidade gestora.
Foram precisos vários anos até que a ideia deste fundo soberano passasse do papel à prática. Em 1990, foi aprovada legislação para a criação do fundo. Passaram mais seis anos até que o Ministério das Finanças da Noruega assinou o cheque que se tornaria o primeiro depósito do fundo, com um valor de 1,98 mil milhões de coroas. Ficou definido que todos os investimentos seriam feitos fora da Noruega, para não desequilibrar a economia local. O fundo norueguês começou por ter o excedente do petróleo e gás como principal fonte de financiamento. Tanto que, até 2006, chamava-se Fundo Governamental do Petróleo, assumindo depois o nome Fundo Global de Pensões do Governo da Noruega. Atualmente, os depósitos da indústria de petróleo e gás “representam menos de metade do valor do fundo”, diz a entidade gestora. O retorno gerado pelas apostas do fundo, sobretudo no mercado acionista, foi ganhando espaço. Por exemplo, em 2025 o fundo teve um retorno de 15,1%, impulsionado pelos ganhos no mercado global de ações.
Durante os primeiros anos de vida, o fundo norueguês focou-se na área das obrigações. Com a passagem dos anos, as Finanças norueguesas foram dando luz verde para a diversificação de investimentos. Os dados mais recentes do fundo, relativos ao primeiro trimestre, mostram que a principal fatia de investimento está nas ações (70,2%). O restante valor está ligado a obrigações de governos e empresas (27,6%), imobiliário (1,8%) e à infraestrutura de energia renovável (0,4%), em projetos de energia solar e eólica. Os principais mercados de investimento são os EUA, Japão, Reino Unido, Alemanha e França.
No relatório anual de 2025, o fundo norueguês tinha um total de 10.221 investimentos em 68 países. O Fundo de Pensões da Noruega tem investimentos em 7.201 empresas globais que, em média, rondam uma participação de 1,5%. As principais empresas do portefólio do fundo estão ligadas ao setor da tecnologia. No top 15, destacam-se os investimentos na Nvidia, Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon, TSMC, Broadcom, Meta, entre outras. Nos quinze maiores investimentos em empresas, só a fabricante automóvel Tesla, a farmacêutica Eli Lilly, o conglomerado Berkshire Hathaway e o banco JPMorgan Chase é que não estão ligados em exclusivo à tecnologia.
Este fundo tem também negócios em Portugal que, no fim de 2025, rondavam os 20,7 mil milhões de coroas norueguesas, o equivalente a 1,86 mil milhões de euros. O fundo tem participações em empresas como o BCP (1,21%), EDP Renováveis (0,55%), EDP (1,81%), Galp Energia (0,91%), Jerónimo Martins (0,29%), Nos (0,8%), REN (1,17%) e na Sonae (0,85%).
Na área das obrigações, a principal percentagem diz respeito a títulos emitidos por governos e instituições relacionadas (70%), destacando-se os títulos emitidos pelos governos dos EUA, Japão e Alemanha, e 30% são títulos obrigacionistas do setor corporativo.
A área do imobiliário é uma aposta relativamente recente do fundo. Em 2011, foi feito o primeiro investimento nesta área, através de uma participação de 25% nas propriedades da coroa britânica em Regent Street. O portefólio de Regent Street inclui 113 edifícios. Depois disso, seguiram-se os investimentos imobiliários nos EUA, com propriedades em Nova Iorque, Washington e Boston. Seguiu-se, em 2017, a entrada no imobiliário asiático, com a aquisição de propriedades em Tóquio. Atualmente, o portefólio do fundo inclui propriedades ligadas à área residencial, escritórios e retalho.
Em 2021, foi feita a aposta na energia renovável. Por agora, é o segmento em que o fundo tem menos investimentos: 13 apostas, distribuídas por cinco países, com destaque para cinco investimentos em Espanha, em parceria com a Iberdrola.
Fundo soberano de Angola para gerir o dinheiro do petróleo
Criado em 2011 como Fundo Petrolífero é a assinatura do então Presidente da Angola, José Eduardo dos Santos, que consta do decreto que institui a entidade para “promover, fomentar e apoiar, na República de Angola e no estrangeiro, o investimento no desenvolvimento de projectos nos sectores da energia e águas e noutros sectores considerados estratégicos, incluindo, em particular, projectos de infra-estruturas, tais como projectos para geração, produção, armazenamento, transporte, distribuição e comercialização de energia e águas, bem como deter, operar, manter, gerir tais projectos e desenvolver quaisquer actividades auxiliares, conexas ou relacionadas com os mesmos”. O financiamento teria de ser proveniente das receitas provenientes do petróleo, assim como do orçamento do Estado. Com o fim do mandato de José Eduardo dos Santos, que tinha colocado o seu filho à frente dos destinos do fundo soberano, o poder em Angola foi mudando com João Lourenço. Acaba a afastar José Filomeno por “conveniência de serviço”.
O fundo mudou. Hoje aplica mais de um terço da carteira de investimento em valores mobiliários, como títulos do tesouro, obrigações e ações de cotadas e câmbios. E, segundo as regras aplicadas desde 2024, não podem ser alocados mais de 30% dos investimentos da carteira global do Fundo a um único gestor externo. Para diversificar. Hoje o fundo tem investimentos diversificados na hotelaria, minérios, agricultura, banca, sendo igualmente diversificado em termos de geografia. A carteira está avaliada em cerca de 2 mil milhões de euros.
Além do fundo soberano, Angola foi feito investimentos acionistas através da Sonangol, que ainda hoje detém uma posição relevante no BCP (19,49%).
Kuwait tem o fundo soberano mais antigo
A Autoridade de Investimento do Kuwait (KIA) gere aquele que é considerado o fundo soberano mais antigo do mundo. Em 1953, anos antes da independência do país, foi criado o Conselho de Investimento do Kuwait, sediado em Londres, para investir o excedente gerado pela receita do petróleo e reduzir a dependência de um bem que é finito.
Os esforços para diversificação económica intensificam-se quando, em 1961, o Kuwait deixa de ser um protetorado britânico. O fundo soberano vai evoluindo até que, em 1976, é decidido que o governo deverá alocar um mínimo de 10% das receitas estatais ao recém-criado Fundo para as Gerações Futuras. É preciso chegar até 1982 para a Autoridade de Investimento do Kuwait (KIA) ser formalmente criada para supervisionar os trabalhos de gestão.
Hoje em dia, a Autoridade de Investimento do Kuwait é responsável pela gestão do Fundo de Reserva Geral do Kuwait (GRF) e do Fundo para as Gerações Futuras (FGF).
Como a lei do Kuwait proíbe a divulgação detalhada de dados sobre as operações da entidade gestora, só é conhecida informação geral. O SWFI (Instituto de Fundos Soberanos) estima que a KIA tenha 1,07 biliões de dólares sob gestão (940 mil milhões de euros). Não são conhecidos ao detalhe os investimentos feitos pelo fundo.
Porém, é explicitado que o Fundo de Reserva Geral gere ativos “para apoiar o desenvolvimento económico nacional”, em setores como “a tecnologia, energia, turismo e entretenimento, indústria, transportes e logística, telecomunicações, saúde, infraestrutura, setor financeiro e imobiliário”, em “linha com as prioridades nacionais”. Já o Fundo para Gerações Futuras foca-se em investimentos fora do país. Além do mercado acionista e obrigações, também tem investimentos em capital de risco, imobiliário e infraestruturas.
Fundo do Qatar com apetite crescente por startups
O Qatar apostou num fundo soberano em 2005, para “proteger e desenvolver os ativos financeiros e diversificar a economia” além do gás natural e do petróleo. A Autoridade de Investimento do Qatar (QIA) tem cerca de 580 mil milhões de dólares sob gestão (507 mil milhões de euros), de acordo com informação da empresa Global SWF.
O fundo soberano qatari está dividido em duas grandes áreas: uma dedicada ao investimento em empresas domésticas e outra para investimentos no estrangeiro. O fundo privilegia investimentos de longo prazo, com apostas em áreas como obrigações, ações, imobiliário, infraestruturas e capital de risco. Em 2024, foi acrescentada mais uma valência à lista de atividades deste fundo soberano, com o lançamento do Fund of Funds, uma iniciativa para fomentar o setor do capital de risco do país. Esta iniciativa tem um orçamento de três mil milhões de dólares (2,6 milhões de euros) para financiar fundos internacionais e regionais, com foco nas áreas da saúde e tecnologia.
Nos últimos anos, o fundo soberano do Qatar tem estado em destaque ao investir largos milhões em startups, desde a América do Norte e América Latina até à Ásia. Por exemplo, em maio deste ano, aumentou o investimento no laboratório de inteligência artificial (IA) Anthropic, ao participar na ronda de investimento de 65 mil milhões de dólares (56,9 mil milhões de euros). A plataforma Dealroom, que regista os investimentos em startups, estima que o fundo soberano do Qatar tenha feito pelo menos 120 investimentos em startups.
Mas há mais investimentos além do setor da tecnologia. Este fundo soberano é dono, desde 2012, de uma participação de 20% no aeroporto de Heathrow, em Inglaterra. Recentemente, foi anunciada a participação no novo aeroporto internacional Kigali, no Ruanda.

Fundo saudita com um plano alinhado com a Visão 2030
A Arábia Saudita tem um fundo soberano desde 1971, que “renasceu” em 2015, quando passou a ter maior autonomia. O Fundo de Investimento Público (PIF), sediado em Riade, tem ativos sob gestão de 900 mil milhões de dólares (787 mil milhões de euros) e um portefólio com mais de 220 empresas. Tal como outras nações da região do Golfo, também tem como objetivo diversificar a economia.
O fundo soberano saudita tem investimentos tanto no mercado doméstico como no estrangeiro, alinhados com a Visão 2030 — um plano estratégico com reformas que vão desde a digitalização até ao turismo, para diversificar a economia. Segundo o PIF, o objetivo passa pelo “desenvolvimento de ecossistemas globais competitivos”. Muitas das iniciativas futuristas da Arábia Saudita, desde a construção de cidades de inovação até mega-projetos de turismo, têm apoio do PIF.
Há uma divisão entre as áreas de investimento: “visão”, “estratégia” e “financeiro”. É no último campo que estão apostas como o investimento na Uber ou no conglomerado japonês Softbank.
Singapura com três entidades e um petróleo próprio
A GIC é uma das três entidades de Singapura que gerem as reservas do país. As outras são a Autoridade Monetária de Singapura e a Temasek. Segundo o site do fundo GIC “gerimos a maior parte dos ativos financeiros do Governo e investimentos a longo prazo para preservar e garantir o poder de compra internacional”. As reservas — excedentes orçamentais e comerciais — são o “petróleo” de Singapura e devolve à sociedade, prevendo este ano permitir investimentos de quase 30 mil milhões de euros no país.
Criado em 1981, o GIC tem 51% da sua carteira aplicada em ações. E de forma diversificada em termos geográficos. Tem sob gestão ativos de quase 900 mil milhões de euros. A Temasek, criada em 1974, gere ativos de 500 mil milhões de euros.
China tem vários braços de intervenção
China Investment Corporation é como se designa o fundo soberano chinês que tem ativos sob gestão de mais de 1,5 biliões de euros. Foi criado em 2007 e tem sido o braço armado do governo chinês quer para investimentos internacionais, quer para controlar a economia chinesa e financiá-la.
O Estado chinês, mesmo sem ser através deste fundo soberano, tem ramificações que chegam indiretamente a outras posições acionistas. É o que acontece com a State Grid, acionista da REN, e da China Three Gorges, na EDP.