A política britânica habituou-nos a uma nova normalidade: a mudança de líderes tornou-se mais previsível do que a estabilidade. A demissão de Keir Starmer e a entrada de Andy Burnham na corrida à liderança trabalhista constituem apenas o episódio mais recente de uma crise mais profunda. O problema do Reino Unido já não cabe em Downing Street.
Quando os trabalhistas regressaram ao poder, em julho de 2024, muitos viram em Starmer a oportunidade de restaurar a estabilidade de um sistema político desgastado por anos de turbulência. Depois do referendo do Brexit, de sucessivas crises conservadoras e de uma inédita rotação de líderes, a expectativa era a de um regresso à previsibilidade institucional que, durante décadas, constituiu uma das principais marcas da democracia britânica.
Essa expectativa revelou-se excessivamente otimista.
A saída de Starmer demonstra que a instabilidade britânica é mais do que uma crise de liderança. O Reino Unido continua confrontado com um crescimento económico anémico, serviços públicos sob forte pressão, desigualdades territoriais persistentes e uma sociedade politicamente fragmentada. Acima de tudo, continua sem responder à pergunta fundamental que o acompanha desde 2016: que lugar pretende ocupar no sistema internacional pós-Brexit?
É precisamente aqui que a candidatura de Andy Burnham adquire significado político. Burnham apresenta-se como uma figura de renovação e como defensor de um Estado mais interventivo, de uma agenda de reindustrialização e do que aparenta ser uma relação mais pragmática com a Europa. O seu aparecimento pode responder à procura de uma nova liderança. Mas não resolve, por si só, a ausência de um consenso nacional sobre o futuro britânico.
A dificuldade do Reino Unido é, em grande medida, estratégica. O Brexit foi apresentado como uma oportunidade para recuperar soberania e reforçar a autonomia nacional. Uma década depois, o país continua a tentar conciliar ambições por vezes contraditórias: manter uma relação privilegiada com os Estados Unidos, desempenhar um papel central na segurança europeia e, simultaneamente, reconstruir laços económicos com a União Europeia sem regressar às estruturas que abandonou.
Esta indefinição tem consequências internacionais. No sistema internacional, a influência não resulta apenas de capacidades económicas ou militares. Depende também da previsibilidade política e da capacidade de projetar continuidade estratégica. É precisamente este capital de credibilidade que o Reino Unido tem vindo a desgastar. Para aliados e parceiros, a sucessão acelerada de líderes transmite a imagem de um país ainda à procura de um novo equilíbrio interno e de uma definição mais clara dos seus objetivos externos.
A ascensão de Andy Burnham poderá alterar prioridades, estilos de governação e algumas opções de política pública. Poderá até abrir espaço para uma abordagem mais pragmática nas relações com a Europa. Mas seria um erro interpretar esta transição como o início automático de uma nova fase de estabilidade.
Mas a crise britânica não se esgota em quem ocupa o número 10 de Downing Street. Nem começou com Starmer, nem terminará com Burnham.
O verdadeiro desafio do Reino Unido é mais exigente: reconstruir um consenso político e estratégico sobre a sua identidade nacional e o seu papel no mundo.
Enquanto essa questão permanecer em aberto, Downing Street continuará a mudar de ocupante. A crise britânica, essa, permanecerá maior do que qualquer primeiro-ministro.