(c) 2023 am|dev

(A) :: A crise não cabe em Downing Street 

A crise não cabe em Downing Street 

O verdadeiro desafio do Reino Unido é mais exigente: reconstruir um consenso  político e estratégico sobre a sua identidade nacional e o seu papel no mundo. 

Catarina Brazete Nabais
text

A política britânica habituou-nos a uma nova normalidade: a mudança de líderes  tornou-se mais previsível do que a estabilidade. A demissão de Keir Starmer e a  entrada de Andy Burnham na corrida à liderança trabalhista constituem apenas o  episódio mais recente de uma crise mais profunda. O problema do Reino Unido já  não cabe em Downing Street.

Quando os trabalhistas regressaram ao poder, em julho de 2024, muitos viram em  Starmer a oportunidade de restaurar a estabilidade de um sistema político  desgastado por anos de turbulência. Depois do referendo do Brexit, de sucessivas  crises conservadoras e de uma inédita rotação de líderes, a expectativa era a de um  regresso à previsibilidade institucional que, durante décadas, constituiu uma das  principais marcas da democracia britânica.

Essa expectativa revelou-se excessivamente otimista.

A saída de Starmer demonstra que a instabilidade britânica é mais do que uma crise  de liderança. O Reino Unido continua confrontado com um crescimento  económico anémico, serviços públicos sob forte pressão, desigualdades  territoriais persistentes e uma sociedade politicamente fragmentada. Acima de  tudo, continua sem responder à pergunta fundamental que o acompanha desde  2016: que lugar pretende ocupar no sistema internacional pós-Brexit?

É precisamente aqui que a candidatura de Andy Burnham adquire significado  político. Burnham apresenta-se como uma figura de renovação e como defensor de  um Estado mais interventivo, de uma agenda de reindustrialização e do que  aparenta ser uma relação mais pragmática com a Europa. O seu aparecimento  pode responder à procura de uma nova liderança. Mas não resolve, por si só, a  ausência de um consenso nacional sobre o futuro britânico.

A dificuldade do Reino Unido é, em grande medida, estratégica. O Brexit foi  apresentado como uma oportunidade para recuperar soberania e reforçar a  autonomia nacional. Uma década depois, o país continua a tentar conciliar  ambições por vezes contraditórias: manter uma relação privilegiada com os  Estados Unidos, desempenhar um papel central na segurança europeia e,  simultaneamente, reconstruir laços económicos com a União Europeia sem  regressar às estruturas que abandonou.

Esta indefinição tem consequências internacionais. No sistema internacional, a  influência não resulta apenas de capacidades económicas ou militares. Depende  também da previsibilidade política e da capacidade de projetar continuidade  estratégica. É precisamente este capital de credibilidade que o Reino Unido tem vindo a desgastar. Para aliados e parceiros, a sucessão acelerada de líderes  transmite a imagem de um país ainda à procura de um novo equilíbrio interno e de  uma definição mais clara dos seus objetivos externos.

A ascensão de Andy Burnham poderá alterar prioridades, estilos de governação e  algumas opções de política pública. Poderá até abrir espaço para uma abordagem  mais pragmática nas relações com a Europa. Mas seria um erro interpretar esta  transição como o início automático de uma nova fase de estabilidade.

Mas a crise britânica não se esgota em quem ocupa o número 10 de Downing  Street. Nem começou com Starmer, nem terminará com Burnham.

O verdadeiro desafio do Reino Unido é mais exigente: reconstruir um consenso  político e estratégico sobre a sua identidade nacional e o seu papel no mundo.

Enquanto essa questão permanecer em aberto, Downing Street continuará a  mudar de ocupante. A crise britânica, essa, permanecerá maior do que qualquer  primeiro-ministro.