Em 2023, investigadores da Gallup identificaram uma tendência preocupante: os colaboradores estavam a tornar-se cada vez mais desligados do seu trabalho. Muitos tinham dificuldade em compreender o que era esperado deles e de que forma o seu contributo impactava os resultados globais.
O que a Gallup observou na altura pode ser descrito como um declínio da clareza no local de trabalho. Desde então, com a aceleração da adoção da IA e das mudanças de mercado, esse sentimento de incerteza apenas se intensificou.
Na sua essência, a clareza organizacional é simples: as pessoas compreendem o que estão a fazer, como evolui a sua carreira e o que define o sucesso na sua função. A ausência destes elementos, aparentemente básicos, tem consequências profundas. Após analisar mais de 100.000 equipas, a Gallup concluiu que a falta de expectativas claras está associada a menor produtividade, menor envolvimento dos clientes e pior bem-estar dos colaboradores. O impacto é particularmente visível em equipas híbridas e remotas, onde o sentimento de desconexão tende a ser maior.
Porque a clareza impacta diretamente o desempenho
Estudos de grande escala demonstram que, quando os colaboradores compreendem tanto o propósito da organização como o caminho para o alcançar, o seu desempenho melhora. A clareza em todos os níveis, não apenas na liderança executiva, mas também na gestão intermédia e nas equipas, traduz-se numa execução mais eficaz no dia a dia.
Outras investigações evidenciam o lado mais prático da clareza. Quando as pessoas têm uma compreensão clara do seu papel, o seu desempenho melhora e a probabilidade de abandonarem a organização diminui. Isto torna-se ainda mais relevante em equipas distribuídas, onde o alinhamento informal é mais difícil de manter.
A IA amplifica a lacuna de clareza
O que está a mudar atualmente é a escala da incerteza. A IA está a evoluir mais rapidamente do que a maioria das organizações consegue acompanhar, e muitas têm dificuldade em explicar o que isso significa para as suas equipas.
Esta falta de clareza influencia diretamente a forma como os colaboradores percecionam a IA. A mesma ferramenta pode ser vista como uma oportunidade ou como uma ameaça, dependendo do contexto. Quando as pessoas compreendem como a IA afeta o seu trabalho e o que se espera delas, tendem a envolver-se de forma construtiva. Quando esse contexto não existe, a incerteza gera frequentemente resistência.
A maioria das organizações não consegue prever exatamente como a sua força de trabalho irá evoluir nos próximos anos. No entanto, clareza não significa necessariamente ter todas as respostas. Pode começar pelo reconhecimento do desconhecido e pela forma como a organização pretende lidar com ele. Uma comunicação honesta, combinada com uma abordagem clara à requalificação e à definição de responsabilidades, ajuda as equipas a navegar a transformação impulsionada pela IA sem perder confiança.
Como é um local de trabalho baseado na clareza
Cada organização tem as suas próprias métricas de clareza. Ainda assim, de forma geral, estas tendem a assentar numa estrutura de trabalho bem definida, expectativas claras e resultados mensuráveis.
Podemos pensar a clareza através de três questões práticas: que tipo de ambiente de trabalho estamos a construir, o que define o sucesso num contexto orientado pela IA e como as pessoas se podem preparar para o futuro.
Como as pessoas lá chegam
A clareza depende também das pessoas se sentirem preparadas para a mudança. No contexto atual, desenvolver competências para o futuro está menos ligado à aprendizagem de ferramentas específicas e mais a uma questão de mentalidade. Implica curiosidade e capacidade de adaptação.
As pessoas precisam de espaço para explorar novas tecnologias sem pressão imediata para as dominar. Ao mesmo tempo, as organizações devem proporcionar estrutura. Uma estratégia clara de upskilling, recursos de aprendizagem acessíveis e apoio visível da liderança contribuem para reforçar a confiança.
Como os líderes podem transformar a clareza numa estratégia de retenção
Hoje, a liderança está fortemente centrada na construção de confiança. Os colaboradores procuram nos líderes orientação e capacidade de dar sentido à mudança. Existem várias formas práticas de integrar a clareza no trabalho diário.
- Adaptar a clareza ao contexto
A clareza não se alcança apenas com mais informação. Em alguns casos, o problema é a falta de ligação à direção estratégica. Noutros, reside em funções ou processos pouco definidos. Os líderes devem identificar onde a ambiguidade gera maior fricção e atuar diretamente sobre essas áreas, evitando soluções genéricas. - Medir a clareza ao longo do tempo
À medida que as organizações evoluem, o que antes era evidente pode tornar-se confuso. Feedback regular, inquéritos de engagement e conversas de desempenho ajudam a identificar lacunas precocemente.
- Tornar a missão parte do trabalho diário
Uma missão clara só tem impacto se for visível nas decisões do dia a dia. Os líderes devem ligar os objetivos globais às funções individuais, garantindo que cada pessoa compreende o seu contributo para os resultados. - Desenvolver a clareza como competência de liderança
A clareza é uma competência que se pode desenvolver. Gestores que sabem definir expectativas, ajudar as equipas a priorizar e tomar decisões atempadas criam ambientes mais eficazes. Investir nesta capacidade ao nível da liderança tem impacto direto no desempenho e na retenção.
Num contexto de mudança constante, a clareza torna-se uma forma de estabilidade. Ajuda as pessoas a compreender como a sua função evolui e qual poderá ser o seu percurso profissional durante a transformação impulsionada pela IA. Para muitas equipas, é essa compreensão que faz a diferença entre ficar ou sair.
O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.