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A Mulher na Engenharia: construir caminhos e inspirar futuras gerações

A engenharia precisa do talento de todos. E o futuro será certamente mais rico quanto mais diverso for o conjunto de pessoas que o ajudam a construir.

Carla Marchão
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No Dia Internacional da Mulher na Engenharia, os números mostram que ainda existe um caminho a percorrer: em Portugal, apenas 29% dos trabalhadores licenciados nestas áreas são mulheres. Mas mais do que olhar para as barreiras, é importante olhar para as oportunidades e para o caminho que já foi construído.

Organizações internacionais têm vindo a alertar para a escassez de talento nas áreas STEM e para o impacto positivo da diversidade nas equipas de engenharia, nomeadamente na capacidade de resolver problemas complexos e de responder a desafios globais como a transição energética, a digitalização das infraestruturas ou a sustentabilidade das cidades. Ainda assim, a presença feminina continua aquém do desejável em muitos países europeus, incluindo Portugal.

Ao longo do meu percurso como engenheira civil e docente universitária encontrei desafios, como qualquer profissional encontra na sua carreira. Alguns estiveram relacionados com o facto de ser mulher numa área tradicionalmente masculina. Outros resultaram simplesmente das exigências inerentes à profissão e à conciliação entre a vida profissional e familiar. No entanto, quando faço o balanço da minha experiência, aquilo que mais recordo não são as dificuldades, são as pessoas que encontrei pelo caminho.

Ao longo dos anos, tive a oportunidade de acompanhar centenas de estudantes. Entre eles encontrei muitas jovens brilhantes, trabalhadoras e talentosas. Nunca observei diferenças de capacidade. O que por vezes observo é algo diferente: muitas raparigas tendem a duvidar mais de si próprias, mesmo quando apresentam desempenhos excelentes.

Este é, aliás, um padrão já identificado em vários estudos internacionais, que apontam para diferenças na autoperceção de competências entre homens e mulheres, mesmo quando os resultados objetivos são equivalentes. Numa altura em que a engenharia enfrenta desafios sem precedentes, que vão desde a adaptação das cidades às alterações climáticas, passando pela necessidade de infraestruturas mais resilientes e inteligentes, continuar a não mobilizar todo o talento disponível não é apenas uma questão de equidade, significa também desperdiçar competências, criatividade e potencial de inovação de que a sociedade necessita.

Por isso, acredito que uma das formas mais eficazes de atrair mais mulheres para a engenharia passa pela existência de referências positivas e pelo incentivo desde cedo. Não porque as jovens precisem de exemplos perfeitos, mas porque precisam de ver que este caminho é possível e que também pode ser o delas.

Uma professora, uma colega, uma investigadora ou uma engenheira podem fazer toda a diferença quando ajudam alguém a acreditar nas suas capacidades. A melhor forma de inspirar a próxima geração de engenheiras não é dizer-lhes que vão encontrar obstáculos, é mostrar-lhes que conseguem ultrapassá-los. No fundo, acredito que a nossa maior responsabilidade é inspirar os outros a acreditar em si próprios.

Às jovens que hoje ponderam o seu futuro, gostaria de deixar uma mensagem simples: não deixem que os estereótipos decidam por vocês. Se gostam de resolver problemas, de aprender, de criar e de construir, a engenharia pode ser um caminho desafiante, enriquecedor e profundamente gratificante.

O sucesso profissional é importante, mas acredito que o mais importante é encontrar um percurso que nos realize e nos faça felizes. Sejam persistentes, definam os vossos objetivos e não desistam de os alcançar. A engenharia precisa do talento de todos. E o futuro será certamente mais rico quanto mais diverso for o conjunto de pessoas que o ajudam a construir.