Prelúdio
Com base nas suas breves, mas esclarecedoras, intervenções, a última afirmação não nos deveria surpreender sobremodo. No entanto, fez-se silêncio em toda a sala quando bradou:
— Em mais de trinta anos de profissão, nunca preparei uma aula. E com isto vai ser ainda melhor, agora é que não preciso mesmo de preparar aulas. Vai ser um complemento. Um complemento! Para nos facilitar a vida. Isto é o futuro, não há que ter medo do futuro!
(Conferência sobre o impacto da inteligência artificial na criatividade, 2026.)
De facto, não há nada a temer. O futuro evolui do passado e do presente num encadeamento inexorável e independente de agentes individuais. Se não fossem estes, seriam outros, afiançou, e com razão, um especialista na área da computação e da inteligência artificial, referindo-se aos donos e senhores das grandes empresas de inteligência artificial generativa. Algo que, de minha parte, tinha já afiançado, meia hora antes, sim, pelo menos meia hora antes, ainda que com outros termos.
Primeiro Andamento
Sejamos francos: não há nem nunca houve como escapar da designada «inteligência artificial», que é, no fundo, uma realidade adquirida desde que o termo foi forjado, tal como todos os utensílios que conhecemos passaram a fazer parte da nossa cultura — entendida no sentido antropológico —, com maior ou menor sucesso. A partir do momento em que um utensílio ou conceito é criado ou simplesmente imaginado, alguém tratará de lhe dar uso ou de o pôr em prática, algo que em boa verdade aconteceu com todas as espécies de hominídeos, como no-lo recorda, por exemplo, Pascal Picq no seu Sapiens face a Sapiens.
Muito se poderia escrever sobre a incapacidade dos humanos (ou dos hominídeos, ou da própria força evolutiva da natureza, para usarmos um termo mais místico do que científico) de se refrearem perante uma inovação. Admitamos, como simplificação, que a curiosidade humana e a grande força motriz da sociedade e, em suma, de toda a evolução da vida (animal) — a saber, a sobrevivência dos espécimes e das espécies com o menor dispêndio de energia possível — instigarão sempre um ou mais indivíduos a desenvolver o mais possível, ou mesmo ultrapassando os conhecimentos e limitações técnicos e tecnológicos da época em que se inserem, o conceito que os atraem. Trata-se de uma constatação que não tem em si nada de novo, e que serviu de substrato a muitas das obras de ficção científica que a humanidade imbuiu na tessitura da sua cultura de massas. Por mais avisados que estejamos, nada impedirá a criação dos nossos Exterminadores Implacáveis.
Interlúdio
O especialista em computação sacou do telemóvel. Estava prestes a iniciar a demonstração.
— Isto é só uma pequena demonstração — disse ele. — É só um exemplo, mas é fascinante, porque estes sistemas leram milhões de livros, sabem muita coisa, têm conversas interessantes. Eu vou no carro, e durante horas converso com o telemóvel.
(Conferência sobre o impacto da inteligência artificial na criatividade, 2026.)
Segundo Andamento
Devemos temer a inteligência artificial? Talvez não, mas provavelmente é boa ideia pensar o que devemos ou não fazer com ela, mesmo que as macroestruturas que regem o mundo estejam fora do nosso controlo enquanto cidadãos. E, para começar, o que é a inteligência artificial, de quem todos falam mas que poucos tentam, com efeito, definir?
Por norma, atribui-se o conceito de inteligência artificial a Alan Turing, mas a inteligência artificial enquanto problema filosófico está presente na cultura ocidental pelo menos desde Aristóteles, que tentou sistematizar aquilo a que na época se designava como «alma», um termo abrangente que engloba conceitos como intelecto, cognição ou consciência, hoje estudados pela filosofia do conhecimento e neurociências. Convém, no entanto, perceber que há, por um lado, a inteligência artificial (IA) enquanto corpo de estudo e, por outro, os chamados sistemas de inteligência artificial, que serão os produtos computacionais que a maioria de nós associa à IA. Ou seja, amiúde falamos apenas de programas ou aplicações que incorporam algoritmos que permitem o tratamento de informação, algo que já fazemos, na verdade, há algumas décadas; a diferença estará, agora, no facto de esta dita inteligência artificial ser generativa, uma noção um tanto obscura, porque leva a que se encare este adjetivo como equivalente a criativa, o que não é necessariamente verdade, assim como não é óbvio que a dita inteligência artificial seja ou venha a ser, de facto, equivalente à inteligência humana (e de outras espécies animais), como realça Daniel Andler no seu Intelligence artificielle, intelligence humaine: la double énigme. Segundo Andler, a IA pode executar tarefas complexas, mas não possui a consciência situacional dos humanos, cuja inteligência não se reduz à resolução de problemas, e para perceber em que sentido a IA é deveras uma «inteligência», há que analisar e definir com mais precisão o que é a inteligência humana, tarefa tudo menos simples.
Em suma, poucos saberão definir a inteligência artificial, mas não são poucos os que glorificam a sua propagação, alguns por ingenuidade, outros por otimismo excessivo, outros ainda porque têm algo a ganhar, como os barões da tecnologia, cujas fortunas oscilam conforme o valor das suas ações em Bolsa.
Pondo de lado o cinismo dos defensores da IA salvífica, a verdade estará no meio-termo: a inteligência artificial não nos vem salvar nem nos vem destruir. Poderá exacerbar certas tendências que já se vinham sentindo nas últimas décadas, sobretudo com o advento das redes sociais e com a viragem da política mundial para a extrema-direita, mas não será per se o fator decisivo numa eventual decadência da humanidade, que, admitamos, já foi anunciada inúmeras vezes desde a civilização suméria.
No entanto, o argumento de que também antes os velhos do Restelo se queixavam do futuro, ainda que em parte verdadeiro em termos históricos, não deixa de ser falacioso, porque, por esse prisma, ninguém se oporia à ascensão do fascismo, da extrema-direita e de todas as outras manifestações de nacionalismo autoritário, uma vez que as respostas reacionárias surgem ciclicamente face ao progresso. E, se no mundo do pitch or die, onde temos de nos vender e à nossa imagem, e onde o aparente conta mais do que a essência, o mérito, o conhecimento e o trabalho, reivindicar, reclamar, apontar, refletir e criticar soam mal, são deselegantes, bas-fond, que horror!, as pessoas nem por isso deixam de sofrer.
Mais um Interlúdio
— Então, João, em que é que vai trabalhar agora? Já sabe? Já começou a enviar currículos? Eh, eh, eh — perguntou um dos oradores do painel, ladeado por dois outros participantes muito sorridentes.
(Conferência sobre o impacto da inteligência artificial na escrita, 2025.)
Terceiro Andamento
Dirão que me sinto ameaçado, que as minhas duas profissões estão em perigo. Sim, há perigos inerentes à IA, mas, graças ao bom capitalismo selvagem, mais do que desaparecer, a escrita e a tradução correm o risco de se verem ainda mais enxovalhadas e denegridas. Se a alguns escritores ainda lhes resta o principal ganha-pão (as feiras e festivais e conversas literárias), aos tradutores, literários ou não, já de si invisíveis, resta apenas aguentar o mais possível, aceitar tarifas mais baixas (é o que acontece há já algum tempo na tradução técnica) ou mudar de profissão. Há pessoas da área a passar necessidades por culpa da IA, pessoas essas que, como a árvore que cai na floresta sem que ninguém a ouça cair, se anulam e esmorecem sem direito ou poder reivindicativo. Contudo, isto não passa de um efeito secundário do progresso humano, e outrora os cocheiros trocaram os fiacres por táxis e autocarros… Haja para todos, ou o milagre da multiplicação dos peixes e do crescimento económico ad infinitum.
A Última Digressão
Em vídeos que circulam em jornais e nas redes sociais, centenas de pessoas assistem, embevecidas, à dança espasmódica de um novo ministro húngaro após a vitória, nas eleições legislativas, de um conservador com tendências de extrema-direita, que vem substituir outro conservador supostamente pior do que ele. Nos milhares de comentários, gabam-lhe a agilidade e a boa disposição. Decerto será um bom ministro.
Um Arremedo de Conclusão
Fiz duas experiências. Na primeira, perguntei ao chatbot do ChatGPT se é possível existir um gorila marxista. O chatbot deu-me uma resposta sensata: em termos reais, não, mas em termos humorísticos ou ficcionais, sim. Na segunda experiência, pedi que traduzisse para dinamarquês um poema rimado de minha autoria, criado no momento para este efeito. O chatbot apresentou-me a tradução em poucos segundos; copiei o texto traduzido, colei-o no chatbot e perguntei se aquele poema estava bem escrito em dinamarquês. «O» ChatGPT respondeu que tinha vários erros, incluindo palavras que não existiam em dinamarquês (existiam, na verdade). Respondi-lhe que isso era curioso, uma vez que tinha sido o próprio ChatGPT a traduzir aquele poema. Vai daí, ele desfez-se em desculpas, e disse que era uma excelente tradução! Tem sido, sem dúvida, treinado por humanos.
Isto dito, não me sinto particularmente ameaçado. Mas também não quero, nunca mais, conversar sobre inteligência artificial em palestras ou conferências. No fim de contas, todos nós procuramos o nosso bem-estar, e não uma tristeza que tem mais de deprimente do que de melancólica. A humanidade está a progredir.