No dia 22 de junho, cumprem-se quatro décadas desde que Maradona deixou a sua marca na história dos Mundiais. Na mesma tarde em que espantou o mundo com “A Mão de Deus”, o astro argentino marcou o “Golo do Século”, uma obra-prima sem precedentes no relvado, eternizando os quartos de final entre a Argentina e a Inglaterra. Um dia assinalado em todo todo o mundo e que coincide com o jogo dos sul-americanos frente à Áustria em Dallas, depois do hat-trick do sucessor Lionel Messi com a Argélia.
No mítico estádio Azteca, no México, que se tornou o primeiro a receber jogos de três fases finais do Mundial em 2026 depois de 1970 e 1986, o triunfo argentino por 2-1 contra a Inglaterra começou com um golo ilegal que ficou para a história. Maradona protagonizou “A Mão de Deus”, antecipando-se ao guarda-redes Peter Shilton com um desvio subtil de punho fechado. Ainda hoje o inglês não esquece o momento.
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Este momento foi captado por Eduardo Longoni, um fotógrafo argentino de 26 anos que inicialmente estava desmotivado pelo lugar que conseguiu no jogo – os fotógrafos que chegaram primeiro ao local ocuparam a zona da bandeirinha na linha de fundo, enquanto ele conseguiu um lugar “pior”, ao lado da trave esquerda da baliza de Shilton no segundo tempo. No entanto, esta localização proporcionou-lhe as condições certas para uma foto que se revelaria icónica: “No momento em que foquei no guarda-redes, uma sombra apareceu. Nem me dei conta de que era Diego Armando Maradona, muito menos que se tratava de um golo de mão”, contou à ABC. Acabou por primir o botão no momento ideal e, no dia seguinte, a sua foto a preto e branco viria a ilustrar as primeiras páginas de centenas de jornais por todo o mundo.
Contudo, o testemunho a cores pertenceria a Alejandro Ojeda Carbajal, um fotojornalista do El Heraldo. Com uma câmara convencional e de disparo manual, Ojeda captou o momento exato em que a bola aparecia colada à mão de Maradona. Logo após o jogo, o fotógrafo estava num bar perto da redação e chegou a deixar os rolos esquecidos numa sacola, enquanto bebia cerveja e jogava dominó. Estavam todos à sua procura para saber se ele tinha captado a foto da mão. Assim que os negativos foram revelados no laboratório, a imagem mereceu honras de primeira página com o título “TESTEMUNHO”. Antes de morrer, Ojeda reforçou o momento do disparo: “Quando vi o Maradona a saltar, tirei duas fotos com a minha câmara, foi só isso”, relatou o El País.
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Ainda assim, após o golo, Maradona correu rapidamente para a lateral do campo para celebrar. O árbitro tunisiano Ali Bennaceur não viu a infração, e apenas alguns jogadores ingleses protestaram, então o ponto foi contabilizado. Depois da partida, Maradona explicou que o golo tinha sido marcado “um pouco com a cabeça e um pouco com a mão de Deus”, citou o El País.
Minutos depois da “Mão de Deus”, o “Golo do Século” propriamente dito aconteceu: as imagens televisivas mostram Maradona a arrancar antes do meio-campo e a deixar para trás quatro ingleses – Peter Beardsley, Peter Reid, Terry Butcher e Terry Fenwick –, além do próprio Shilton, antes de empurrar a bola para a baliza. No entanto, a jogada ganhou uma dimensão mítica e quase religiosa graças à voz do jornalista uruguaio Víctor Hugo Morales, cujo relato radiofónico entrou diretamente para os altares da cultura popular.
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Morales, que continua no ativo aos 78 anos a cobrir o atual Mundial a partir da capital mexicana, recorda este dia como um autêntico marco na sua vida. Em declarações à Marca, o locutor confessa que o feito de Diego mudou por completo a sua relação com o público e lhe deu uma projeção internacional raramente alcançada a partir da América Latina através do relato de um golo.
“A magia do Diego, o facto de ser contra os ingleses e num estádio que hostilizava os argentinos permitiram à seleção, naquele dia, chegar às meias-finais contra todas as expectativas”, frisou Víctor Hugo. O jornalista recordou que se lançou “à aventura das palavras”, inspirado pela jogada. Foi nesse processo narrativo que nasceram as expressões eternas como “a jogada de todos os tempos” ou a icónica “papagaio cósmico”. 40 anos depois, o radialista mostra-se profundamente grato pelo golpe de sorte que foi estar ali a narrar o golo. “O nosso sonho é cativar, emocionar, deixar uma marca especial do nosso trabalho”, contou.
Para além do futebol em si, a partida teve um significado político: foi disputada quatro anos após a Guerra das Malvinas entre a Argentina e o Reino Unido, o que conferiu um peso emocional e simbólico ao encontro. O conflito que durou dez semanas matou 649 argentinos e 255 britânicos antes de a Argentina se render em junho de 1982. De acordo com o El Mundo, depois de se ouvir o hino nacional argentino no jogo, Maradona terá feito uma referência ao conflito: “Vamos lá, esses filhos da mãe mataram os nossos filhos, os nossos amigos, os nossos vizinhos. Não podemos perder”.
O atual selecionador argentino, Lionel Scaloni, recordou com emoção este jogo de 1986, admitindo que o terá visto numa televisão minúscula na casa da sua avó. Por coincidência, o 40.º aniversário da partida calha precisamente no dia em que a Argentina entra em campo frente à Áustria. Scaloni confessou que não se tinha apercebido da sobreposição das datas, mas sublinhou o impacto emocional do momento: “Vamos aproveitar. É provável que vejamos o golo em todo o lado e talvez até choremos um bocadinho”, citou o The Sun.