Foi o Mundial da contradição. Espanha recebeu em 1982 uma das mais ricas gerações de talentos da história do futebol – Zico, Sócrates, Platini, Maradona, Rummenigge, Matthaus – e viu a Itália, que não tinha vencido um único jogo na primeira fase de grupos, sagrar-se campeã do mundo pela terceira vez. O torneio foi também o primeiro com 24 seleções, e o último a usar duas fases de grupos antes das meias-finais.
A primeira fase trouxe surpresas imediatas. A Argélia, estreante, bateu a Alemanha Ocidental por 2-1 — a primeira vitória de uma seleção africana sobre uma europeia num Mundial. A Hungria goleou El Salvador por 10-1 – a maior vitória de sempre na fase final de um Mundial. A Irlanda do Norte eliminou os anfitriões espanhóis do primeiro lugar do grupo. E a Itália passou à segunda fase sem vencer um jogo, graças apenas a um golo a mais do que Camarões – que também não perdeu nenhum encontro. O técnico Enzo Bearzot proibiu os seus jogadores de darem entrevistas e de lerem jornais, instituindo um Silenzio Stampa – uma espécie de silêncio mediático total, um blackout – para isolar o grupo das críticas da imprensa italiana, o que se tornaria prática corrente nos anos seguintes.
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A segunda fase sucedeu ao momento mais polémico da competição. No Estádio El Molinón, em Gijón, a Alemanha Ocidental e a Áustria entraram em campo a 25 de junho sabendo exatamente o que precisavam: uma vitória alemã por margem mínima classificava ambas e eliminava a Argélia. Hrubesch marcou ao minuto 10 – e durante os 80 minutos seguintes as duas seleções limitaram-se a circular a bola sem qualquer intenção de ataque. Foi nessa mesma segunda fase que se jogou o encontro mais marcante do torneio: no Sarriá, em Barcelona, o Brasil de Zico e Sócrates entrou a precisar apenas de um empate frente à Itália para chegar às meias-finais, com o favoritismo todo do seu lado. Paolo Rossi fez os três golos da vitória dos italianos diante do Brasil por 3-2.
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Nas meias-finais, a Itália bateu a Polónia com mais dois golos de Rossi. Do outro lado, a Alemanha Ocidental eliminou a França numa meia-final que ficou para a história por razões que foram além do futebol. Aos 57 minutos, o guarda-redes alemão Harald Schumacher saiu em velocidade da baliza e embateu violentamente com o francês Patrick Battiston, que ficou inconsciente no relvado com dois dentes partidos e uma lesão cervical. O árbitro não assinalou falta, não expulsou Schumacher – não mostrou sequer um cartão amarelo – e o jogo continuou. A França acabou por ser eliminada nas grandes penalidades por 5-4, num encontro que terminou 3-3 após prolongamento e que ficou marcado como o primeiro da história dos Mundiais a ser decidido desta forma. Na final do Bernabéu, a 11 de julho, a Itália venceu por 3-1 com golos de Rossi, Tardelli e Altobelli, confirmando uma das redenções mais improváveis da história dos Mundiais.
Uma história. A “Vergonha de Gijón”
- A Argélia estreou-se num Mundial em 1982 com uma vitória sobre a Alemanha Ocidental por 2-1 – a primeira de uma seleção africana sobre uma europeia na história da competição. Terminou a primeira fase com quatro pontos, convicta de que estava apurada. Não estava. No jogo seguinte entre a Alemanha e a Áustria, os dois países de língua alemã entraram em campo sabendo exatamente o que precisavam: uma vitória alemã por margem mínima classificava ambas e eliminava os argelinos. Hrubesch marcou ao minuto 10 – e nos 80 minutos seguintes, as duas seleções limitaram-se a circular a bola sem qualquer intenção de ataque. As bancadas vaiaram, adeptos argelinos mostraram dinheiro em protesto, um adepto alemão queimou a própria bandeira. O episódio ficou conhecido como a “Vergonha de Gijón” – e levou a FIFA a introduzir, a partir de 1986, os jogos simultâneos na última jornada da fase de grupos, uma regra que se mantém até hoje.
Um herói. Rossi e o hat-trick que lhe abriu a porta do céu
- Paolo Rossi chegou ao Mundial de 1982 acabado de cumprir uma suspensão de dois anos por envolvimento num escândalo de apostas – o caso Totonero, em que vários jogadores italianos foram acusados de manipular resultados para beneficiar redes de apostas ilegais – e sem ter jogado futebol de alto nível desde então. Passou a primeira fase sem marcar um golo. Depois, fez um hat-trick ao Brasil no jogo que ficou para a história, bisou na meia-final com a Polónia e marcou o primeiro golo na final frente à Alemanha Ocidental. Terminou como melhor marcador e melhor jogador do torneio. “O meu primeiro golo nesse jogo, de cabeça, foi o momento fundamental de toda a minha carreira”, diria mais tarde, numa entrevista ao Maisfutebol. Abriu-lhe “a porta do céu”, acrescentou.
Uma curiosidade. Um apito das bancadas que fez parar o jogo
- A 21 de junho de 1982, em Valladolid, França e Kuwait disputavam um jogo da fase de grupos que parecia não ter história. A França vencia por 3-1 quando Alain Giresse marcou o quarto golo — ou assim pareceu. Os jogadores do Kuwait pararam de jogar alegando ter ouvido um apito vindo das bancadas. O que se seguiu não tem paralelo na história dos Mundiais: Sheikh Fahad Al-Ahmad Al-Jaber Al-Sabah, irmão do Emir do Kuwait e presidente da federação, desceu das bancadas, entrou no relvado e confrontou o árbitro soviético Miroslav Stupar, ameaçando retirar a equipa do jogo se o golo não fosse anulado. O árbitro cedeu. O golo foi anulado. A França acabou por marcar de novo e vencer por 4-1, mas o precedente estava aberto: Stupar foi banido de arbitrar jogos internacionais pela FIFA. O Kuwait nunca mais regressou a um Campeonato do Mundo.
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Como foram os resultados no Mundial de 1982
- 13 de junho (fase de grupos): Argentina-Bélgica, 0-1; Itália-Polónia, 0-0; Peru-Camarões, 0-0 e Hungria-El Salvador, 10-1
- 14 de junho (fase de grupos): Alemanha Ocidental-Argélia, 1-2; Chile-Áustria, 0-1 e Espanha-Honduras, 1-1
- 15 de junho (fase de grupos): Brasil-União Soviética, 2-1 e Escócia-Nova Zelândia, 5-2
- 16 de junho (fase de grupos): França-Inglaterra, 1-3 e Checoslováquia-Kuwait, 1-1
- 17 de junho (fase de grupos): Itália-Peru, 1-1; Polónia-Camarões, 0-0; Jugoslávia-Irlanda do Norte, 0-0 e Argentina-Hungria, 4-1
- 18 de junho (fase de grupos): Alemanha Ocidental-Chile, 4-1 e Áustria-Argélia, 2-0
- 19 de junho (fase de grupos): Brasil-Escócia, 4-1 e União Soviética-Nova Zelândia, 3-0
- 20 de junho (fase de grupos): França-Checoslováquia, 1-1; Inglaterra-Kuwait, 1-0 e Espanha-Jugoslávia, 2-1
- 21 de junho (fase de grupos): Honduras-Irlanda do Norte, 1-1, Argentina-El Salvador, 2-0 e França-Kuwait, 4-1
- 22 de junho (fase de grupos): Itália-Camarões, 1-1; Polónia-Peru, 5-1 e Bélgica-El Salvador, 1-0
- 23 de junho (fase de grupos): Brasil-Nova Zelândia, 4-0 e União Soviética-Escócia, 2-2
- 24 de junho (fase de grupos): Inglaterra-Checoslováquia, 2-0
- 25 de junho (fase de grupos): Alemanha Ocidental-Áustria, 1-0; Espanha-Irlanda do Norte, 0-1; Argélia-Chile, 3-2 e Honduras-Jugoslávia, 0-1
- 28 de junho (segunda fase de grupos): Polónia-Bélgica, 3-0; Alemanha Ocidental-Inglaterra, 0-0 e Itália-Argentina, 2-1
- 29 de junho (segunda fase de grupos): França-Áustria, 1-0 e Alemanha Ocidental-Espanha, 2-1
- 1 de julho (segunda fase de grupos): Polónia-União Soviética, 0-0 e França-Irlanda do Norte, 4-1
- 2 de julho (segunda fase de grupos): Itália-Brasil, 3-2 e Inglaterra-Espanha, 0-0
- 4 de julho (meias-finais): Itália-Polónia, 2-0
- 8 de julho (meias-finais): Alemanha Ocidental-França, 3-3 a.p. (5-4 g.p.)
- 10 de julho (3.º e 4.º lugar): Polónia-França, 3-2
- 11 de julho (final): Itália-Alemanha Ocidental, 3-1