Uma caráter e união” no grupo e capacidade para “competir com qualquer adversário”. Depois do empate histórico frente ao Uruguai, os “tubarões azuis” fizeram questão de garantir que a presença no Mundial não é uma questão de sorte, mas de trabalho e ambição. Na zona mista, entre a emoção de um golo histórico e a confiança de quem já não se sente apenas uma “surpresa”, os protagonistas da seleção de Cabo Verde deixaram claro que o objetivo é a passagem à próxima fase.
Com dois pontos conquistados em duas jornadas, Cabo Verde continua a fazer história no Grupo H do Mundial 2026. A seleção africana já travou dois antigos campeões do mundo e chega à última jornada dependente apenas de si própria. A equipa orientada por Bubista prepara-se agora para o “tudo ou nada” frente à Arábia Saudita, uma seleção que, apesar de teoricamente mais frágil, exige “concentração máxima”.
Uma vitória no próximo encontro garantirá a passagem inédita aos 16 avos de final, independentemente do que aconteça no outro jogo do grupo. Na zona mista, depois do empate com o Uruguai, o discurso dos jogadores foi de ambição. Cabo Verde não veio apenas para participar, veio para competir.
O rosto do primeiro golo de Cabo Verde no Mundial
Kevin Pina é a partir de agora um nome cravado na história do futebol cabo-verdiano. Foi o médio que, de livre direto, marcou o primeiro golo de sempre dos “tubarões azuis” num Mundial. Um momento festejado em êxtase nas bancadas do Hard Rock Stadium e com Kevin Pina visivelmente emocionado. Foi até um pequeno gesto logo após o remate certeiro que intrigou os jornalistas.
Questionado sobre a ligeira paragem de um ou dois segundos antes de celebrar, o médio do Krasnodar explicou que o momento não foi de descrença, apenas procurava alguém na bancada: “Parei um ou dois segundos porque queria ver onde estava a minha filha para lhe dedicar o golo”, confessou, visivelmente emocionado com o feito que descreve como um misto de “orgulho e muita felicidade”.
O Observador questionou Kevin Pina sobre as reais possibilidades de Cabo Verde no Mundial e procurámos saber se para a equipa, o rótulo de “surpresa” é algo que os jogadores querem afastar. Pina quis rejeitar qualquer deslumbramento, mas garante que, dentro do balneário, os resultados frente a Espanha e ao Uruguai não chocam ninguém: “Para o mundo pode ser uma surpresa, mas para nós não, porque trabalhamos muito”. Pina garante que a equipa está focada em mostrar a sua qualidade e a união que os trouxe até aqui.

A ambição de Pina vai além de uma participação honrosa nesta fase final. O jogador deixou claro que os “tubarões azuis” entraram em campo em Miami para jogar “olho no olho” com as potências mundiais, com o objetivo claro de passar o grupo e não apenas marcar presença. “Sabemos que são seleções favoritas, com história, mas um país pequeno como nós também quer mostrar ao mundo que merece estar neste palco”, disse Kevin Pina, que garantiu ainda que o grupo está unido em torno de um objetivo comum – a passagem à próxima fase.
Vozinha: “Estamos aqui para competir”
O guarda-redes de Cabo Verde é uma das figuras do torneio. Vozinha foi eleito o melhor em campo frente à Espanha, mas contra o Uruguai teve uma exibição mais atribulada. Sofreu dois golos e foi “salvo” pelo VAR ao minuto 70, quando a bola entrou na baliza cabo-verdiana para o que seria o 3-2. Estava fora de jogo.
Na zona mista, depois do jogo com o Uruguai, Vozinha foi o mais solicitado. Foi chamado por todos os jornalistas, mas parou apenas 30 segundos já perto da saída. Nesse momento procurou reforçar a mentalidade do grupo: “Estamos aqui para competir, respeitamos todos os adversários, trabalhamos muito bem todos os dias e vamos continuar a trabalhar sempre para competir com qualquer adversário”, afirmou o guardião.
Vozinha viveu, ainda, um momento especial ao ver a sua mãe na bancada, descrevendo a experiência como uma “grande satisfação”.

“Não houve problema com o Benfica”
Sidny Lopes Cabral descreveu o jogo frente ao Uruguai como um desafio de extrema exigência física. Falou num “jogo duro”, repleto de “lutas” e “duelos difíceis” em cada lance. Apesar do impacto do resultado para as contas do grupo, o jogador revelou que o ambiente no balneário após o apito final foi de tranquilidade, mas também de alguma insatisfação. Sidny explicou que o grupo sentiu que “merecia mais” e que “queria mais” do que o empate, o que justifica a vibração “calma” entre os jogadores, que já não se contentam apenas com exibições competitivas.
Com o foco já direcionado para o duelo decisivo contra a Arábia Saudita, Sidny sublinhou que a prioridade absoluta nos próximos dias será a recuperação física. Embora reconheça que o próximo adversário é difícil e que também procura a sua primeira vitória no torneio. “Para já, temos de nos focar em nós próprios e no nosso plano de jogo”, afirmou Sidny. O jogador cabo-verdiano garante que o foco total está em preparar a estratégia necessária para garantir os pontos que faltam para a qualificação.

Fora das quatro linhas, Sidny aproveitou para esclarecer os contornos da sua saída do Benfica rumo ao Trabzonspor, da Turquia. Assegura que não houve qualquer conflito interno. Sidny explicou que a decisão foi baseada num “grande plano” apresentado pelo clube turco e em conversas que o deixaram muito confiante para este novo passo na carreira.
O lateral desmentiu categoricamente qualquer problema de relacionamento no balneário da Luz, reforçando a ligação com os antigos companheiros: “Somos grandes amigos, falamos normalmente e não houve problemas entre nós”.
“Apoio do Brasil é um orgulho”
Stopira, uma das vozes mais experientes do balneário cabo-verdiano, expressou um enorme sentimento de orgulho e honra por fazer parte de um grupo que, segundo ele, está finalmente a provar que pode “competir olho nos olhos com qualquer seleção” do mundo. Para o defesa, o desempenho frente ao Uruguai não foi apenas um resultado tático, mas uma demonstração de caráter nacional. Stopira diz que, embora Cabo Verde seja um país pequeno em extensão, a equipa compensa com uma “ambição e um coração enorme” e que luta com qualidade e união até ao último minuto.

Questionado sobre o apoio que tem surgido a partir do Brasil, Stopira confessa que é um momento bonito, até porque há um sentimento mútuo: “É um orgulho sentir que o povo brasileiro também nos está a apoiar. Eu lembro que no passado havia muitos cabo-verdianos que apoiavam o Brasil no Mundial. É uma seleção com que temos muita ligação, não só pela língua, mas pela cultura também”. Este apoio estende-se à vasta diáspora presente nos Estados Unidos, a quem o lateral dedicou palavras de agradecimento, pedindo que continuem juntos para o que ainda falta conquistar.
A viver uma fase extraordinária na carreira após o sucesso no Torreense, Stopira ainda não somou minutos neste Mundial, mas não baixa os braços. Falou numa “questão de decisão” e garantiu que continua a trabalhar arduamente à espera da sua hora, focado no objetivo coletivo de ultrapassar a fase de grupos. Com o duelo decisivo frente à Arábia Saudita no horizonte, o internacional cabo-verdiano alertou para a necessidade de manter a “mesma humildade e concentração”, preparar bem as suas “armas” e tentar não desperdiçar esta oportunidade histórica.

“Ninguém estava à espera, mas acreditámos no grupo”
Para Telmo Arcanjo, médio do Vitória SC, o duelo com o Uruguai ficou marcado por um momento de sofrimento físico e por uma das jogadas com maior destaque neste jogo. O jogador, que acabou por ser substituído ao intervalo, estava caído no relvado a pedir assistência médica no preciso lance que resultou no 1.º golo dos sul-americanos. No entanto, Arcanjo demonstrou um desportivismo na zona mista ao desvalorizar a aparente falta de fair-play do adversário: “Faz parte do jogo. É seguir”. Arcanjo reconheceu que a própria seleção de Cabo Verde teve a posse de bola logo enquanto pedia assistência e que optou por não a colocar fora.
Apesar das dificuldades sentidas na primeira parte, Telmo Arcanjo reiterou confiança no potencial dos “tubarões azuis”. O jogador do Vitória SC lembrou que o desempenho da equipa neste Mundial não é fruto do acaso. “Sempre disse que íamos surpreender, ninguém estava à espera, mas sempre acreditámos no nosso grupo”, sublinhou o internacional cabo-verdiano, visivelmente satisfeito por terem conseguido “concretizar um ponto” frente a um adversário de elite.
Focado no futuro imediato, o jogador encara agora o embate decisivo frente à Arábia Saudita com o objetivo máximo de somar os três pontos para selar a qualificação histórica.
Cinderella Story? “Merecemos estar aqui”
Roberto Lopes, central cabo-verdiano que joga no Shamrock Rovers da Irlanda, destacou a capacidade de sofrimento da equipa. Após o Uruguai ter “punido” Cabo Verde nos últimos cinco minutos da primeira parte, Roberto explica que a equipa soube reagir. “Mostrámos grande caráter na segunda parte para nos unirmos e conseguirmos o empate”.

Este jogador foi convocado para a seleção de Cabo Verde depois de um convite por LinkedIn enviado pelo antigo selecionador, Rui Águas. Agora, com 34 anos e a cumprir a estreia em mundiais, Roberto Lopes rejeita o rótulo de “conto de fadas” (Cinderella story): “Não se ganha um prémio por vir ao Mundial. É preciso competir e qualificar-se. O nosso objetivo primeiro era mostrar que pertencemos aqui. Agora estamos a misturar-nos com algumas das melhores equipas do mundo. E o nosso objetivo era, acima de tudo, atacar o primeiro jogo e mostrar que pertencemos aqui”.
Sobre o futuro, o defesa é claro: o foco está na Arábia Saudita e na recuperação física, sem pensar ainda em possíveis cruzamentos com a Argentina na próxima fase.