O grupo G da fase de grupos do Mundial carecia de mais ação. Ao arranque para o derradeiro jogo da segunda jornada, só havia empates. Procuravam-se, por isso, vencedores e derrotados. Acima de tudo, o grupo G tentava encontrar uma seleção que chamasse a si o protagonismo da liderança do grupo, depois de a Bélgica ter falhado por duas vezes esse objetivo ao empatar com o Egito na ronda inaugural e não ir além do empate com a seleção iraniana, na segunda. Tendo este(s) cenário(s) em conta, o Nova Zelândia-Egito transformava-se num ataque ao primeiro lugar e Vancouver poderia estar a assistir ao próximo líder do grupo G. O Egito procurava a sua primeira vitória na competição e o adversário era perfeito para quebrar esse enguiço: a Nova Zelândia é a equipa com menor ranking FIFA em competição e também nunca tinha vencido uma partida na prova. Qualquer que fosse o desfecho, estava prestes a escrever-se história, sob a condição de haver um vencedor e um vencido, pela primeira vez no grupo.
O contexto justificava uma entrada forte de ambas as seleções. Foi isso que aconteceu no marcador, com a Nova Zelândia a marcar o primeiro pouco depois do início do duelo, com Finn Surman a adiantar os neozelandeses, após um pontapé de canto. Ainda que de forma virtual, foram apenas 15 os minutos necessários para se poder assistir a um vencedor e um derrotado. Os primeiros eram os oceânicos e os segundos os africanos, embora os egípcios chegassem mais vezes à frente do que o adversário no primeiro quarto de hora de jogo. O resultado acompanhava, no entanto, a objetividade com que a Nova Zelândia ia chegando à baliza do Egito. Se eram os egípcios que chegavam mais vezes, eram os neozelandeses que chegavam melhor, com mais espaço e em contra-ataque, em resposta à alta projeção dos africanos no meio-campo adversário.
O resumo da primeira parte era precisamente esse: mais para o Egito, mas melhor para a Nova Zelândia. O resultado era o espelho dessa tese e dava razão aos que defendem que não é preciso ter tanta posse de bola para se estar melhor que o oponente, o Egito, que seguia para os balneários mais longe do sonho de vencer pela primeira vez num Campeonato do Mundo, ao contrário dos neozelandeses, que procuravam o mesmo feito.
A segunda parte chegava no mesmo tom que a primeira, mas agora premiava quem trabalhava mais ao invés de quem trabalhava melhor. Mostafa Zico materializou o volume de chegadas egípcias à área contrária e empatou as contas do marcador aos 58′, depois de um cruzamento bem tirado de Mohamed Hany pela direita. Desde o golo do empate, o Egito já não era apenas a seleção a trabalhar mais. Era, aliás, a única a trabalhar na partida e a trabalhar melhor do que alguma vez a Nova Zelândia tinha trabalhado.
A ausência na segunda parte daquela Nova Zelândia que se apresentou na primeira teria um preço chamado Salah. O capitão egípcio combinou com Zico já dentro da grande área neozelandesa e abriu caminho à data histórica para os africanos. De pé esquerdo, depois da tabela, atirou rasteiro à baliza de Crocombe e lançou o Egito pela primeira vez na vantagem aos 67′. Mais tarde, aos 82′, Trezeguet, que tinha entrado seis minutos antes, agarraria em definitivo o sonho egípcio. Depois de um pontapé de canto cobrado por Salah, o número 7 cabeceou para a história e fixou o resultado final em 1-3.
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A estrela
- Salah liderou pelo exemplo e abriu caminho à vitória histórica do Egito, que nunca tinha ganho qualquer partida nas quatro fases finais de Campeonatos do Mundo em que marcou presença. Aos 67′ marcou o golo da vantagem que o Egito nunca mais perderia. Aos 82′ assistiu Trezeguet, através da marcação de um pontapé de canto, selando o resultado final.
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O joker
- O apelido de Mostafa Zico não engana. Como o seu capitão, foi importante na partida. Marcou o golo do empate e assistiu Salah para a vantagem. Foi dos mais esclarecidos no jogo e teve um papel ativo no momento em que o Egito passou de trabalhar mais para trabalhar melhor do que o adversário.
A sentença
- Com esta vitória, o Egito salta para a liderança do grupo G com quatro pontos e habilita-se a ficar à frente da Bélgica, a grande favorita entre as quatro seleções do grupo ao arranque da prova. Na última jornada, os egípcios garantem uma passagem à próxima fase se conseguirem pelo menos um empate diante do Irão.
A mentira
- Era uma verdade antes de o jogo começar e passou a ser uma mentira depois de a partida terminar: o Egito nunca ganhou uma partida numa fase final de um Mundial. Depois deste triunfo diante da Nova Zelândia por 1-3, Salah e companhia trataram de desmentir a história e estão próximos de conseguir chegar à fase a eliminar pela primeira vez desde a criação da fase de grupos na competição.