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(A) :: Linkin Park, Cypress Hill e Sepultura. Ao segundo dia de Rock in Rio, a pergunta: há um momento em que uma banda deve parar?

Linkin Park, Cypress Hill e Sepultura. Ao segundo dia de Rock in Rio, a pergunta: há um momento em que uma banda deve parar?

O primeiros tentam juntar os cacos e recomeçar, os segundos desenvolvem a arte de nunca acabar e os brasileiros a de fazê-lo enquanto é tempo. Quem se destacou no segundo dia do festival?

António Moura dos Santos
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Diogo Ventura
photography

Com uma nova vida e um propósito redefinido, os Linkin Park regressaram a Portugal ao fim de mais de uma década de ausência, hiato provocado pela súbita morte do seu vocalista, Chester Bennington, em 2017. A banda pegou nos cacos desta perda, reconstruiu-se ao recrutar Emily Armstrong, lançou um álbum e enveredou por uma digressão mundial com paragem neste segundo dia (esgotado como o primeiro) do Rock in Rio Lisboa. Ao fim de quase duas horas de concerto e perante perto de 90 mil festivaleiros, deu para matar saudades, mas não para saciar o apetite.

A questão de substituir um vocalista — frequentemente a cara da banda — é das mais espinhosas no mundo da música. Descontando aquilo que para alguns são “argumentos éticos”, o potencial de rejeição é enorme, ora porque o substituto pode descaracterizar o som, ora porque nunca vai ser capaz de replicar o que o seu antecessor fazia.

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No entanto, ao longo da história da música, são vários os exemplos de bandas que conseguiram perseverar mesmo perdendo, por uma razão ou outra, um vocalista tido até então como totalmente insubstituível; algumas conseguiram por vezes até atingir novos patamares, como os AC/DC, os Pink Floyd, os Genesis ou os Faith No More, só para dar alguns dos exemplos mais bem sucedidos. Até ver, nada impedirá os Linkin Park de almejar igual fortuna. From Zero, o álbum de regresso já com a cantora dos Dead Sara, atingiu os mesmos níveis de sucesso comercial de outrora (para os padrões da era do streaming, isto é) e, apesar da desconfiança inicial generalizada, foi bem recebido tanto pelos fãs como pela crítica. E se mesmo as suas ligações dúbias à Cientologia lançam questões, são ruído face ao plano musical.

O êxito da aposta em Emily Armstrong justifica-se pelo que aconteceu às bandas acima mencionadas: ao mesmo tempo que não pretende emular Bennington, a cantora tem a capacidade técnica de interpretar os temas que este afamou, abrindo novos caminhos para os Linkin Park. Isso ficou notoriamente patente neste concerto. À falta daquela vulnerabilidade descarnada que o vocalista trazia consigo, a sua sucessora tem uma voz mais cheia, a espaços mais doce até. Não foi por ela que este regresso a Portugal ficou abaixo das expectativas — ou melhor, não foi pelo que trouxe à banda, mas como tudo se conjugou no Parque Tejo.

Minutos antes do início do concerto, um relógio fazia a contagem decrescente até ao retorno triunfal, com uma introdução épica a aguçar ainda mais a vontade — não era para menos, foram 12 anos de ausência. A sequência inicial de The Emptiness Machine (tema mais recente), Lying From You e Crawling (clássicos da banda) sugeria também um alinhamento capaz de agradar novos e velhos fãs. Esperava-se, portanto, que os Linkin Park partissem a louça, que proporcionassem um extravasar de emoção de parte a parte. No entanto, o que tivemos foi uma atuação… respeitável, tecnicamente certinha, mas inerte.

Sendo impossível ignorá-lo, o som do palco Mundo pouco ajudou, com a banda por vezes a soar a uma coluna tapada por um cobertor e com as vozes a serem engolidas pela instrumentação, tanto a de Emily como a de Mike Shinoda. Aquilo a que os especialistas chamam “amarfanhado”. Todavia, o grande problema — talvez amplificado pela fraca amplificação — é que os Linkin Park pareceram estar em piloto automático, sem as ganas que fizeram deles um dos maiores nomes do nu-metal, transcendendo até esse rótulo. É certo que não se espera de um grupo de artistas a bordejar os 50 anos de idade a mesma raiva juvenil que alimentou One Step Closer ou Points of Authority. E é também o que ajuda a explicar a toada cada vez mais ligeira em prol do rock alternativo e da electrónica após o terceiro álbum, Minutes to Midnight.

Dado que From Zero até demonstrou uma reaproximação às origens do grupo e que muitos temas incontornáveis do alinhamento requerem essa energia mais primal, o amadurecimento não pode servir de desculpa. É também aqui que Emily Armstrong peca. Apesar de já estar em digressão com os Linkin Park desde 2024, parece ainda desconfortável com a responsabilidade em palco, mais preocupada em acertar com as notas e as letras do que em ligar-se com o público — a única exceção foi quando cantou Heavy is the Crown em cima da fila da frente, sobre a grade.

O resultado é que, pelo menos onde nos encontrávamos — a meio caminho do palco, atrás da régie — o próprio público, fora algumas exceções, também esteve a apreciar o concerto de forma prazenteira, mas algo indolente. Até mesmo quando Armstrong se calava para deixar o público soar em refrães que todos os presentes conheciam, o coro era audível mas nunca chegando a ser o rugido que se esperaria.

Como tal, foi agradável reencontrarmo-nos com Somewhere I Belong, A Place for my Head ou What I’ve Done, mas foi como saudar alguém de quem temos saudades atrás de uma placa de plexiglass. Houve um singelo momento que destoou pela positiva, quando Armstrong cantou Lost — tema gravado nas sessões de Meteora, mas apenas lançado em 2023 — apenas acompanhada de piano. Sem ter de enfrentar entropia, cantou com outra entrega, tal como na subsequente Breaking the Habit, um dos melhores temas dos Linkin Park.

De resto, quando chamada a evocar os seus temas de sempre, a banda soou algo pálida, especialmente no portento de ira que é — ou devia ser — One Step Closer. No encore, Papercut sofreu igual destino e In the End só se livrou de tal fado porque é um êxito de tal forma consensual e nostálgico que o público aí tratou de elevar a parada. Com esse élan, Faint soou igualmente pujante e pôs fim a um concerto que podia ser descrito pela tradução dessa palavra em português: tímido, ou ligeiro.

Lições de quem nunca parou e de quem pára enquanto é tempo

Ditou a providência que ainda antes dos Linkin Park atuarem tenham tocado duas bandas essenciais, pelo menos a nível genealógico, para o conjunto de Agoura Hills. Uma delas foram os seus vizinhos de Los Angeles, os lendários Cypress Hill, também no Palco Mundo. Basta notar que foi Lick a Shot, do seu primeiro álbum, a inspirar a linha de baixo de Blind, o tema dos Korn que iniciou a revolução do Nu-Metal.

Já entre a casa dos 50 e muitos e os 60 anos de idade, B-Real e Sen Dog deram uma lição de rap capaz de envergonhar alguns dos seus pares com um terço da idade, com energia, dicção (sem necessidade de backtracks, diga-se) e envolvimento com o público — mesmo que uma larga fatia não estivesse para aí virada e claramente só pretendesse fazer tempo à espera de Linkin Park.

“Quem é que já viu Cypress Hill ao vivo?”, perguntou B-Real, face a uma resposta quase inexistente, em parte justificada pelo grupo só ter vindo uma vez a Portugal, ao Sudeste de 2007. Ainda assim, esta foi uma oportunidade de ouro e, para os indiferentes, esperamos apenas que ao menos tenham absorvido alguma coisa da arte de durar — nunca acabaram e continuam fortes — e maravilhar.

Acompanhados por DJ Lord e pelo percussionista Eric Bobo — tornado membro oficial há décadas, aditivando os temas com marteladas a gosto —, os dois emcees deram show de bola ao percorrer a sua extensa carreira até ao álbum homónimo de 1991. Foi, aliás, por aí que começaram, com How I Could Just Kill a Man e Hand on the Pump, hinos que misturam imagética violenta do gangsta rap com sentido de humor, tal como I Ain’t Goin’ Out Like That e When the Shit Goes Down.

O surgimento de um boneco insuflável e de imagens alusivas ao Dia dos Mortos deu sequência a outra das predileções dos Cypress Hill, a cannabis. Apesar de não sentirmos aromas pungentes do local onde estávamos, I Wanna Get High, Dr. Greenthumb (com direito a uma ótima sample de Murder She Wrote) e Hits From the Bong (que ainda espevitou o público com a mudança do beat para The Next Episode, de Dr. Dre) passaram a moca por osmose.

Foi, de resto, um concerto quase irrepreensível: teve direito a uma impressionante sequência de turntable e percussão entre DJ Lord e Eric Bobo, a uma nova música de um álbum vindouro inteiramente cantado em espanhol (Wacha Trucha, de Dios Bendiga) quando já antes tinham aludido ao seu pedigree hispânico em Latin Lingo e a uma série de canções onde demonstraram a sua importância enquanto grupo que fez a ponte entre o rap e o rock. Além de uma cover de Bombtrack dos Rage Against the Machine, trouxeram Can’t Get the Best of Me e (Rock) Superstar. Recorremos ao “quase” porque, já depois do seu maior êxito de sempre, Insane in the Brain, iam terminar com “a mais potente canção do hip-hop” mas tal tema — que a avaliar pelos dados disponíveis online, é Jump Around, dos House of Pain — foi cancelado porque uma das pessoas no público sentiu-se mal e necessitou de assistência.

Logo ali ao lado no Palco Music Valley, vindos da outra margem do Atlântico, os Sepultura passaram por Portugal na sua despedida dos palcos, já que, na véspera de atingirem 40 anos de existência em 2024, anunciaram que iam fazer uma digressão, “Celebrating Life Through Death”, para “partir através de uma morte consciente e planeada”.

Não é surpresa para ninguém que esta não é a versão mais celebrada do grupo de Belo Horizonte, com apenas Andreas Kisser (na guitarra) e Paulo Jr. (baixo) a permanecerem como membros da formação clássica. Lá está, recuperando o tema das circunstâncias de Emily Armstrong nos Linkin Park, a diferença é que, para muitos, a banda tomou um rumo inferior quando Max Cavalera e depois o irmão, Igor, abandonaram o projeto, que já começara a transmutar-se do Thrash Metal old-school para algo mais heterodoxo e menos consensual. Ainda assim, seria imperdoável não ver uma das grandes instituições do metal brasileiro a despedir-se, mesmo que sem os irmãos Cavalera, que não aceitaram regressar à banda para a despedida e, curiosamente, estão em Portugal no âmbito do projeto Cavalera Conspiracy dentro de duas semanas.

Ao vê-los ao vivo, percebemos que a questão vai para lá do que Kisser mencionou em entrevistas — viúvo desde há quatro anos, o tema da morte pende sobre si em mais que uma vertente. Mesmo com o rejuvenescimento trazido pelo jovem Greyson Nekrutman na bateria, quanto mais agressivo o sub-género de metal praticado, mais impiedosa é a passagem do tempo. Vimos algumas marcas da mesma em Derrick Green, que não obstante estar a envergar um magnífico bigode, já não tem o mesmo fôlego para ladrar as letras de Inner Self e Ratamahatta.

Com um som também algo medíocre, o que distinguiu os Sepultura dos Linkin Park é que nos convenceram pela força da sua convicção, capaz de transformar um espetáculo inferior numa festa. E falando em festa, escusado — para não dizer desrespeitoso —foi soltar o fogo de artifício enquanto ainda estavam a tocar, tendo em conta que após o final ainda se arrastaram quase 10 minutos até ao concerto seguinte.

No pouco tempo que tiveram disponível, tentaram passar pelas várias fases de uma carreira de 40 anos, talvez com demasiado enfoque a The Cloud of Unknowing, o EP de despedida que lançaram este ano. Em contrapartida, tivemos direito ao remoinho de caos que é Escape to the Void, ao balanço ameaçador de Territory e a Kaiowas, instrumental que iniciou a aproximação dos Sepultura à música tradicional brasileira e que contou com vários elementos a fazer percussão em palco.

“P**a que pariu, esse sentimento é maravilhoso de ver, é um privilégio, uma honra dar o último concerto dos Sepultura em Portugal no Rock in Rio”, gritou Kisser, pedindo mais moshes e circle pits. Foi um pedido gorado, porque os Sepultura tiveram a tarefa ingrata de tocar mesmo antes de Linkin Park e o público foi começando a sair aos magotes. Ainda assim, foi um gosto vibrar com a obra-prima que é Arise, o hino contestatário que é Refuse/Resist e a cólera indígena de Ratamahatta e Roots Bloody Roots.

As duas faces do rock festivaleiro

Será todo o rock festivaleiro canastrão e estéril? Se os The Pretty Reckless fossem a única bitola por onde seguir, a resposta seria um inequívoco sim. Sabemos como o projeto ao qual Taylor Momsen dedicou a sua vida após deixar a carreira de atriz tem muitos fãs, e reconhecemos à cantora enormes doses de carisma e uma voz tão rouca e aveludada como a de Alison Mosshart. Infelizmente, é o equivalente a juntar trufas a comida de hospital.

Entre os pastiches aos riffs dos Danzig ou dos Led Zeppelin filtrando o perigo e a sujidade que fazem dos originais icónicos e as estruturas cliché de canção, há pouco que fique para a história de temas como Follow Me Down, Dear Nothing ou Death By Rock And Roll. O grande problema foi, em retrospetiva, o sucesso inicial de Make Me Wanna Die, levando a banda a querer repetir a fórmula ad eternum. Adiante.

Logo a seguir, vimos algo diametralmente oposto, no palco Superbock. Se por um lado os Kaiser Chiefs se tornaram numa daquelas bandas fetiche em Portugal — a par dos James, dos Skunk Anansie ou dos Guano Apes —, por outro, é fácil perceber porquê ao vê-los ao vivo, 30 anos após o seu começo ainda com outro nome, Runston Parva.

O quinteto liderado por Ricky Wilson parece ter sido concebido em laboratório para escrever as canções mais orelhudas o possível ao vivo, pelo que mesmo que um concerto comece algo parado — como este — o caso muda radicalmente de figura quando se despejam temas como Everyday I Love You Less and Less, Modern Way e Ruby. Tamanho efeito deve-se não só à composição extremamente eficaz como ao facto dos Kaiser Chiefs nunca se terem apresentado como algo mais do que aquilo que são, uma ótima banda de rock festivaleiro.

Muito desse espírito advém do próprio Wilson, que, quase a chegar aos 50 anos de idade, continua um poço de energia e magnetismo, além de um mestre em passar a mão no pelo do público. Ao fim de uma sequência a um ritmo quase anual de concertos no nosso país, os Kaiser Chiefs estiveram por cá pela última vez em 2018. O vocalista recordou esse hiato, mas não sem recordar que os três melhores países para tocar são a Escócia, o Brasil e, em primeiro lugar, Portugal. “O meu português é limitado. Recado a mim mesmo: aprender português. Será que nos aceitam de volta?”, perguntou, perante um coro aprovador.

E para quem não se recorda do tipo de acrobacias a que nos habituou, Wilson fez questão de lembrar a todos, quando foi numa correria desenfreada pelo corredor que corta o público para cima da régie cantar I Predict a Riot. A parada subiu no tema seguinte, Angry Mob, quando trepou para uma torre ainda mais alta logo atrás. Como não havia nada mais para se elevar que não resultasse possivelmente numa queda fatal, regressou ao palco onde iniciou Blitzkrieg Bop, cover que levou alguém no público a gritar em êxtase “isto é Ramones!” E como os Kaiser Chiefs estão no negócio de colocar sorrisos na cara dos seus ouvintes, acabaram em beleza com Oh My God. “Nós somos Kaiser Chiefs”, gritou ele em português. Nós sabemos, nunca mudem.