Esta segunda-feira, em centenas de salas, milhares de jovens fazem exames nacionais a papel e caneta, vigiados para que nenhuma máquina entre. O país que protege com este zelo a pureza da prova é o mesmo que, cá fora, deixou de saber distinguir quem sabe de quem só parece. Em 1930, num livro que continua a ser lido sobretudo por quem já lhe dá razão, José Ortega y Gasset descreveu uma civilização que se tornara capaz de produzir especialistas à escala industrial e que, em troca, perdera a capacidade de os integrar. A barbárie da especialização, chamou-lhe. Foi em Espanha, onde vivi dez anos, que dei de caras com esse diagnóstico, e a surpresa que hoje me causa não foi tê-lo encontrado. Foi perceber que não envelhecera. Agravara-se. A Revolta das Massas não é um retrato do passado europeu. É a acta antecipada do nosso presente.
O que Ortega viu, e o que a abundância da nossa época torna impossível ignorar, cabe numa distinção. A inteligência artificial fabrica quase tudo. Fabrica a frase certa, o parecer fluente, a análise que roça a competência sem nunca ter passado por ela. O que ela não fabrica, e que abundância nenhuma substitui, é o juízo cultivado, a autoridade que se conquista pela prática, pela responsabilidade e pela humildade, aquilo a que Ortega ousou chamar nobreza. Todo o resto, a máquina imita agora de graça.
O personagem central de Ortega é o homem-massa. Não é o pobre, não é o operário, não é uma classe. É uma pessoa, que na altura usaria fato, hoje tanto pode dirigir uma multinacional como trabalhar de casa em calções. Define-se por uma combinação precisa, opiniões fortes e suficiência, que não substancia, absoluta. Tem certezas sobre tudo e nunca pôs nada em dúvida. Não sente que deva justificar o que pensa, porque pensar, para ele, é já ter uma opinião pronta. O mundo existe para lhe dar razão. A forma mais perigosa deste tipo, escreveu Ortega, não é o ignorante de boa fé, que ao menos sabe que o é. É o especialista. O homem que domina genuinamente um canto ínfimo do saber e que, por isso, se julga autorizado a pronunciar-se com a mesma firmeza sobre tudo o resto. Ortega deu-lhe um nome que não se esquece. Chamou-lhe o sábio-ignorante, “coisa sobremaneira grave, pois significa que é um senhor que se comportará em todas as questões que ignora, não como um ignorante, mas com toda a petulância de quem, na sua questão especial, é um sábio”.
A petulância é a palavra exacta, e a galeria é nossa conhecida. O médico que, entre dois jogos do Mundial, resolve o país e corrige o seleccionador. O advogado que descobriu a economia ao domingo e a explica com a serenidade de quem nunca encontrou um indicador que o contrariasse. O engenheiro de opiniões definitivas sobre a morosidade do caso Sócrates. Nenhum deles é um impostor. São competentes onde são competentes, e foi essa competência real que lhes deu a confiança. O problema começa exactamente onde a competência acaba, e eles não dão pela diferença.
A pandemia foi o laboratório onde isto se viu a olho nu. De um dia para o outro, as TVs encheram-se de epidemiologistas de circunstância, gente que transportou para a virologia a confiança ganha noutro domínio qualquer. A confiança era genuína. O que não é transferível é o seu fundamento. Quem nunca pagou pelo erro numa matéria fala dela com uma leveza que o especialista verdadeiro já perdeu, porque o especialista verdadeiro sabe sobretudo o que não sabe. A voz que se conquistou ao longo de anos afoga-se no ruído que não custou nada. Saber do que se fala deixou de bastar para ser ouvido, e o incentivo desloca-se da substância para o volume.
Qualquer utilizador minimamente competente em IA produz hoje, sobre qualquer assunto, a resposta fluente, ordenada e com toda a presunção de autoridade. O sábio-ignorante deixou de precisar de ser sequer sábio no seu canto: ganhou uma ferramenta que o torna, à superfície, indistinguível de quem trabalhou trinta anos. O modelo não democratizou o saber. Democratizou a sua aparência. Harry Frankfurt separou o mentiroso de uma figura mais moderna e pior. O mentiroso conhece a verdade e contraria-a, prestando-lhe ainda assim uma espécie de homenagem às avessas. O modelo nem mente nem diz a verdade: é indiferente a ser verdadeiro. Produz discurso que soa bem e não se importa com a relação entre o que diz e o que é, fluência sem responsabilidade pela verdade. Fernando Pessoa dizia que o poeta é um fingidor, mas fingia a partir de uma dor que deveras sentia. A máquina finge a partir de nada.
Nada disto é uma acusação à ferramenta. Juízo humano profundo somado a inteligência artificial é uma força enorme, talvez a maior dádiva que a nossa geração terá nas mãos, com uma condição: o juízo que lhe dá direcção tem de ter sido formado antes. Quem aprendeu a decidir, a errar e a corrigir encontra na máquina um multiplicador. Quem nunca aprendeu encontra nela um disfarce. Era isto a nobreza que Ortega opunha ao homem-massa, não a de sangue nem de títulos, mas a obrigação de se exigir padrões altos e de conquistar autoridade em vez de a afirmar. Foi precisa uma máquina para tornar urgente uma intuição antiga. Um espanhol viu-a em 1930. Uma encíclica repetiu-a em 2026.
Em Portugal, porém, esta confusão não é recente. Somos um país de doutores, onde o título sempre fez as vezes da competência. O senhor doutor que afirmava autoridade sem a ter conquistado é hoje indistinguível de qualquer um que, com um algoritmo, dá a cada plateia a resposta certa no momento em que ela a quer. O diploma deixou de ser preciso.
Há quem tenha feito desta confusão uma carreira, e tem nome. André Ventura não é o sábio-ignorante de Ortega, é o homem que aprendeu a governá-lo. Veio do comentário de futebol e do direito, e cedo percebeu que a tribuna rende mais do que o tribunal. É muito provavelmente o melhor tribuno do país, e é por isso, não apesar disso, que é preciso levá-lo a sério. O talento é verdadeiro. A convicção é que não, porque a convicção, para ele, é um custo e não um princípio. Passou anos a combater a esquerda e o Estado social, e hoje defende a reforma aos quarenta anos de descontos e pensões mais altas, a tal Lei Centeno que levou o PSD, sem rir, a chamá-lo mais comunista do que o PCP. Na sexta-feira passada votou com o Livre, o Bloco e o PCP para chumbar a reforma laboral do Governo, a prometer aos trabalhadores a maior vitória das últimas décadas. Não foi uma conversão, foi uma leitura de sondagem. Saiu das presidenciais com uma só certeza, a de que o país se ganha à esquerda, e virou-se para lá no dia seguinte. O modelo persegue a resposta que agrada, ele persegue a intenção de voto, e por ela diz hoje o contrário de ontem sem que isso lhe custe, porque a verdade do que diz nunca fez parte da conta. O que o modelo faz com a verdade, ele faz com a convicção.
E seria injusto deixá-lo sozinho no banco dos réus, porque a porta abriu-lha o Centrão. Um sistema que ao fim de décadas não resolveu a habitação, a saúde, a educação e a justiça, nem travou a corrupção, e que ainda assim trata quem protesta como quem não percebe, não mata a procura de alternativa, expulsa-a para fora de si. Em fevereiro argumentei, meio a sério, que a forma de o desarmar seria dar-lhe Belém, porque o cargo o obrigaria a portar-se como um crescido, e um tribuno sem rebeldia fica sem ofício. O país fez o contrário. Bloqueou-o e fundiu PS e PSD à volta de Seguro, escolheu com minúcia a única jogada que o engorda, e celebrou-a como uma vitória da democracia.
Este é o ponto do nosso Zeitgeist, e não o de saber se a máquina pensa, distracção confortável. É o de saber se ainda pensamos, agora que parecer que se pensa já não exige fazê-lo. Ortega temia uma civilização de especialistas, cada um senhor do seu canto e nenhum capaz de julgar o todo. A nossa foi mais longe. Deu a toda a gente a fluência do especialista sem o trabalho dele, e encantou-nos de tal modo com a nossa própria suficiência que se perdeu o critério para distinguir quem sabe de quem o aparenta. Uma sociedade assim não é enganada por quem imita a certeza. Reconhece-se nele. O homem-massa não quer ser governado por quem sabe mais, quer ouvir a sua própria suficiência dita em voz alta, e encontra na tribuna o espelho que lha devolve, tanto mais quando o centro só lhe responde com lições. Por isso, esta semana, exigimos a prova a papel, saída de cada cabeça e não de um ecrã nem de uma sondagem: ainda obrigamos um miúdo de dezassete anos a mostrar que o que sabe é mesmo seu, e já não pedimos a quem se candidata a mandar em nós que prove acreditar no que diz. Ortega viu o homem-massa de fato e de bata. Faltou-lhe vê-lo a pedir-nos o voto.