1 Mulheres zangadas
Regresso a Yesteryear. O que mais me impressionou neste livro foi o facto de quase todas as mulheres estarem sempre zangadas. Como conta Natalie, a protagonista, da sua experiência na universidade:
“Fazia os trabalhos de casa, depois os trabalhos facultativos e, por fim, sentava-me ao computador e navegava por uma série de fóruns de baixa qualidade online, à procura de respostas para as perguntas que me surgiram desde que cheguei à faculdade.
Porque será que as mulheres de hoje odeiam tanto os homens?
Porque será que as mulheres de hoje odeiam tanto as crianças?
Porque será que as mulheres de hoje se odeiam tanto a si mesmas?”
Por que razão estará uma autora feminista tão predisposta a representar as mulheres desta forma?
Importa recordar que as raízes para esta cultura de ódio não são recentes. Pensemos na feminista radical Valerie Solanas, autora do SCUM Manifesto de 1967, que defende a tomada do poder pelas mulheres e a eliminação dos homens. (Um ano depois, Solanas foi responsável pela tentativa de assassinato de Andy Warhol.) Mas foram as redes sociais a permitir uma maior divulgação deste sentimento de ódio dirigido aos homens e de que são prova os hastags #killallmen e #allmenaretrash.
Durante as últimas décadas, esta misandria foi legitimada como reação natural ao privilégio masculino, mas as suas piores consequências tornam-se hoje evidentes. No mundo anglo-americano, uma espécie de feminilidade tóxica está a crescer nas margens dos movimentos políticos, como a investigação levada a cabo pela jornalista Emily Lawford revela: “Meet the Angry Young Women”.
Se a manosfera tem sido escrutinada pelos media, estaria na altura de prestar atenção à “femosfera”, alimentada por um forte ressentimento dirigido aos homens e que parece atualizar, como recordou Louise Perry comentando Yesteryear, a reflexão de Betty Friedan sobre “o problema que não tem nome” (uma espécie de estado depressivo que afetava as donas de casa norte-americanas).
2 O problema que não tem nome
Betty Friedan publicou The Feminine Mystique em 1963 como apreciação da condição da mulher norte-americana, dedicada ao marido e aos filhos e sentindo-se alienada de si própria. Trata-se de um marco importante no pensamento feminista, embora tenha gerado reações justas: como chamaram a atenção as feministas negras, tratava-se da típica reflexão da mulher branca de classe média (as mulheres negras, trabalhadoras, não sofriam das mesmas ansiedades). E o mesmo tipo de crítica vale a partir da maioria dos restantes países ocidentais, que nunca beneficiaram do privilégio do salário único, como é o nosso caso.
O certo é que as últimas décadas do século XX ficaram marcadas, nos Estados Unidos, por mudanças culturais e políticas que pretendiam projetar a mulher no mercado de trabalho, com medidas de inclusão e igualdade no acesso profissional. Na passagem para o século XXI, as preocupações começaram a pender para a igualdade salarial e o chamado “ceiling glass” e o novo milénio prometia resolver definitivamente o problema das mulheres: a década de 2010 é marcada pelo imagética da “girlboss” (uma mulher ambiciosa e bem-sucedida, especialmente no mundo profissional) e pela expressão “Lean in”, título do livro de Sheryl Sandberg, ex-chefe de operações da Meta. Foi também a década em que se acreditou que as mulheres podiam ter tudo: maternidade, família, dinheiro e um sucesso profissional igual ao dos homens.
Ainda assim, e apesar de todas as mudanças e conquistas, os dados revelam que as mulheres norte-americanas continuam insatisfeitas. Como nota Louise Perry:
“Os inquéritos sugerem que as mulheres americanas estão agora menos satisfeitas com as suas vidas do que estavam na década de 1970, sendo que as mulheres que se identificam como liberais têm muito mais probabilidades de serem diagnosticadas com um problema de saúde mental. A infelicidade entre as mulheres jovens tem representado uma oportunidade comercial para as empresas farmacêuticas, com pelo menos uma empresa de telessaúde a pagar avultadas quantias a influenciadores para promoverem antidepressivos junto dos seus públicos. Entretanto, uma em cada cinco mulheres de meia-idade toma antidepressivos.”
3 Yesteryear
As tradwives, como uma espécie de movimento político, parecem tentar responder a esta ansiedade feminina com a mensagem central de que a sua satisfação não será conseguida imitando os homens. Em vez de correrem para o labirinto do mundo profissional, estas jovens mulheres procuram encontrar tranquilidade e propósito na domesticidade e na constituição da família.
Trata-se de uma hipótese contra-a-corrente, precisamente porque significa abdicar de liberdade individual e de uma vida mais confortável. Mas, sobretudo, porque a tarefa da maternidade tem sido dificultada no mundo moderno pelo isolamento das mulheres, a pressão das redes sociais, as ideias de parentalidade gentil e as atuais exigências educativas. O momento mais marcante de Yesteryear é, provavelmente, aquele em que Natalie sente uma explosão de alívio quando contrata a sua primeira ama: finalmente, não teria de voltar a ficar sozinha com os filhos. E não deixa de ser inquietante como o mundo moderno tornou a função mais natural de todas tão complicada.
A outra opção, representada pela autora do livro, é a de continuar a forçar a igualdade no mundo profissional, veicular as ideias de trabalho doméstico paritário e aumentar o apoio do estado para creches e escolas. É isto que Caro Claire Burke defende no seu podcast Diabolical Lies, sob o lema “let women be awful” [deixem as mulheres ser horríveis].
E assim se percebe por que razão todas as mulheres do livro são desagradáveis: afinal, foi escrito por alguém que acha que a melhor resposta que uma mulher pode dar ao problema sem nome é olhar de forma rancorosa para o mundo. Mas não será esta solução um tipo específico de fundamentalismo?