Se de um lado estava o peso da história recente, com o cabo-verdiano Vozinha a conquistar os corações dos adeptos neste Mundial, do outro estava o da história que há muito assentou nos pergaminhos do futebol, bem antes de existirem redes sociais. O Uruguai, o primeiro vencedor da história dos Campeonatos do Mundo, ainda não tinha ganho nesta edição da prova e não chegava para fazer parte de uma festa que começou em Atlanta, onde os africanos fizeram a estreia com um empate sem golos frente à Espanha.
Nas bancadas, o jogo já tinha começado. A cerca de 40 minutos de a bola começar a rolar, a mãe de Vozinha, entre “muitos nervos”, já estava pronta para ver ao vivo o seu filho jogar num Campeonato do Mundo. Esta era mais uma história do Mundial – uma das principais, inclusive –, e que teve um final feliz. Na sequência, o Uruguai preferia ser vilão a personagem secundária.
https://twitter.com/MCordeiro28/status/2068806454413283414?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E2068806454413283414%7Ctwgr%5E2da7aeb07eb342278f613dfb3f34d59d49eaad60%7Ctwcon%5Es1_&ref_url=https%3A%2F%2Fobservador.pt%2Fliveblog-partial-admin%2F
Foi nesse cenário que a partida começou. Era visível a diferença entre o primeiro campeão do Mundo e os estreantes em Campeonatos do Mundo, por mais que o efeito sensação se pudesse fazer sentir antes de Espen Eskäs apitar para o início da partida. Mais agressiva, a seleção charrúa entrou no Hard Rock com uma declaração de intenções. Sentado na geladeira, como habitualmente, Marcelo Bielsa, selecionador do Uruguai, via a sua equipa rapidamente ganhar terreno e instalar-se no meio-campo adversário. A seleção cabo-verdiana tentava sair da sua área em velocidade, quando conseguia recuperar a bola, mas sem grande consequência. Aos 14′, a consequência até poderia ter sido na baliza de Cabo Verde. Vozinha viu os colegas serem apanhados em contrapé e, muito investidos em atacar a baliza de Muslera, tinham menos unidades para responder a um contra-ataque uruguaio, que terminou num remate ao lado de Valverde – a primeira oportunidade dos uruguaios com espaço para abrir a contagem.
Não aproveitaram os uruguaios, aproveitou a equipa sensação do torneio. Aos 21′, Kevin Pina entrou na história do futebol cabo-verdiano. O médio do Krasnodar foi responsável por bater um pontapé livre ganho por Telmo Arcanjo, avançado do V. Guimarães. Não houve grandes contemplações para entrar na história: o número 6 dos Tubarões Azuis atirou potente a cerca de 30 metros da baliza, fez a bola passar pela barreira e bateu Muslera, no primeiro golo da história da seleção cabo-verdiana num Mundial.
O mundo estava mais uma vez em choque e via que aquele empate de Cabo Verde contra Espanha não era obra do acaso. A vítima também falava espanhol, mas era diferente. Mas o caráter também era, não fossem os charrúas conhecidos pela sua raça. Maxi Araújo personifica quase na perfeição o que se espera de um jogador uruguaio: atitude, objetividade e qualidade – por esta ordem. Foi num lance de insistência e de crença que o ala do Sporting empatou tudo e limpou o estatuto de personagem secundária do Uruguai em Miami. Já tinha empatado a partida diante da Arábia Saudita e aos 43′ igualava o marcador diante de Cabo Verde, cuja festa se fazia ouvir cada vez mais alta, a cada minuto de vantagem que passava.
A cumbia uruguaia passou a ouvir-se com ainda mais eco no Hard Rock Stadium quando Maxi voltou a aparecer junto da baliza de Vozinha. Desta vez não era para marcar, mas para assistir Agustín Canobbio. Uma bola bombeada desde o meio-campo encontrou o número 20, que recorreu à cabeça agora para assistir o extremo do Fluminense, sem hipóteses para Vozinha evitar a reviravolta sul-americana, mesmo antes do apito de Espen Eskås para o intervalo.
https://twitter.com/_Goalpoint/status/2068831006342443058
O segundo tempo trazia a sensação de que, uma vez em vantagem, a seleção uruguaia fecharia os três pontos com um terceiro golo, mais cedo ou mais tarde. Mas apareceu a resiliência africana, que aos 60′ pesou mais que a raça latina. Uma saída de Muslera, guardião dos uruguaios, na tentativa de emendar um erro de construção foi o suficiente para Hélio Varela, mais rápido, recuperar a bola para os cabo-verdianos e atirar à baliza vazia. Nova explosão de alegria em Miami, que já não sabia que música havia de tocar. De um lado, o Uruguai apertava o cerco à baliza de Vozinha. Do outro, com cada vez mais espaço, os africanos ameaçavam confirmar a continuação da festa em Atlanta, com um eventual golo da vitória. O quinto golo da partida não aconteceu. Até ao fim da partida permaneceu o empate, com sabor a vitória para os cabo-verdianos.
A estrela
- Maxi Araújo continua a ser a grande figura da seleção uruguaia neste Mundial, à frente de Fede Valverde. Já tinha sido decisivo diante da Arábia Saudita, com o golo do empate. Diante dos Tubarões Azuis voltou a igualar o marcador e ainda assistiu para a reviravolta, no golo apontado por Agustín Canobbio.
O joker
- Foi um golo que lançou a dúvida e, provavelmente, o efeito surpresa do dia. Quando Kevin Pina assumiu a responsabilidade de bater aquele pontapé livre aos 21′, não estava apenas a arrancar para a vantagem cabo-verdiana àquela altura da partida. O golo significou muito mais que isso: Pina tornou-se no autor do primeiro golo da história de Cabo Verde em Mundiais.
A sentença
- A sentença é não haver sentença e mais positivo que isso para Cabo Verde era impossível. Depois de duas jornadas num grupo com Espanha e Uruguai, seria de esperar que os africanos estivessem a esta altura arredados da possibilidade de seguirem para a próxima fase. Os Tubarões Azuis arrancam para o último jogo com o adversário teoricamente mais acessível dos três que teriam pela frente: Arábia Saudita. Ao mesmo tempo, jogarão Uruguai e Espanha.
A mentira
- O jogo diante de Cabo Verde diante de Espanha não foi, afinal, um acaso. Cabo Verde não só saiu vivo desse jogo, como ainda ameaçou ganhar o deste domingo, diante do Uruguai. Os Tubarões Azuis não são apenas sensação nas redes sociais e os seus últimos dois jogos provam essa tese.