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(A) :: "Por mais anos que eu viva, vou-me lembrar sempre desta noite". Discussão acabou em "vingança" quando pai saltou do 8.º andar com a filha

"Por mais anos que eu viva, vou-me lembrar sempre desta noite". Discussão acabou em "vingança" quando pai saltou do 8.º andar com a filha

Vizinho do casal garante que já tinha chamado a polícia devido às discussões que ouvia. Homem teria antecedentes de violência doméstica. Psicólogo alerta para risco de "contágio" do caso de Valpaços.

Marina Ferreira
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Francisco Romão Pereira
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Manuel (nome fictício) chegou a casa, no bairro de São Domingos, em Santarém, por volta da 1h00 da madrugada deste domingo. Mal entrou no prédio ouviu “muitos gritos e uma grande discussão”. “O que me chamou logo a atenção foram os gritos da criança”, conta ao Observador, no momento em que regressa ao apartamento na praceta da urbanização, durante esta tarde.

Os gritos intensificaram-se uma hora e meia depois de chegar a casa, eram “cerca das 2h30 da manhã”. “Quando fui à janela, porque decidi chamar a PSP, vi um vulto a cair lá para baixo e liguei logo para o 112”, relata. Testemunhou o suicídio de um homem de 33 anos acompanhado do homicídio da filha, de apenas quatro anos.

Por ser profissional de saúde, foi também a primeira pessoa a prestar auxílio médico à criança, que morreu no local. Yara, de quatro anos, foi a vítima mortal do homem, com antecedentes de violência doméstica, e que já tinha um processo aberto pelo menos desde 2024, como confirmou a PSP ao Observador.

Manuel conhecia e tinha contacto com o vizinho e a mulher dele, que estava no apartamento no momento em que o homem pegou ao colo na filha dos dois e se atirou com ela da varanda do apartamento do oitavo andar em que viviam.

Esta não foi a primeira vez que o vizinho testemunhou discussões e gritos como os que ouviu nessa madrugada que acabou em tragédia. “Recentemente, chamei várias vezes a polícia, a PSP, uma vez que esta é a área de intervenção deles, e eles não vinham”, garante ao Observador.

Conta ainda que tentou “socializar” com os vizinhos e perceber o que se passava, mas acabava travado pela barreira linguística, uma vez que o casal era de nacionalidade indiana e não falava português fluente. Tal como outros vizinhos, descreve o homem como pouco falador e a mulher como sociável e simpática.

No apartamento dos vizinhos, Manuel também já tinha visto o irmão do homem de 33 anos, que vivia com o casal e a filha, e que estaria no local no momento do crime.

Vizinha diz que homem se queria “vingar” porque a mulher ia “contar tudo à família dele”

Fernanda e Natércia, vizinhas do primeiro andar do prédio, estão encostadas a um banco da praceta de onde foi desmobilizado há poucos minutos o perímetro de segurança que as autoridades — que receberam o alerta às 3h00 — montaram de madrugada.

Ao Observador, recordam o momento da mudança do casal para o bairro “há seis anos”. Depois de se mudarem para o apartamento no oitavo andar, começaram a tomar conta do negócio no rés-do-chão do edifício — uma mercearia –, que entretanto fechou. As vitrines estão forradas a papel branco.

Depois disso, o homem começou a trabalhar como motorista de TVDE e a mulher tornou-se trabalhadora doméstica. Fernanda recorda-se de ver a vizinha grávida e de acompanhar aos poucos o crescimento da menina, que brincava na praceta. Só soube das suspeitas de violência doméstica este domingo, “pelas notícias e pelo que se diz na rua”.

Natércia diz que o homem queria “vingança” porque a mulher tinha decidido “fazer queixa à polícia” dos episódios de violência doméstica e ia “contar tudo à família dele”. Segundo a descrição de uma fonte da PJ ao Observador, durante a discussão entre o casal na madrugada deste domingo “a mulher ameaçou que ia ligar para a família do companheiro a contar o comportamento que ele tem tido”. Precisamente para que a família o “dissuadisse”. “No momento em que ela pega no telefone, ele agarra na criança e atira-se do oitavo andar”, detalha ainda a PJ.

Fernanda conta que a menina de quatro anos frequentava a creche em Almeirim, localidade onde o casal tinha vivido. Os dois teriam imigrado para Portugal há mais do que os seis anos em que viviam em São Domingos e recentemente o irmão do homem de 33 anos ter-se-á mudado para viver com o casal. “Por mais anos que eu viva, vou-me lembrar sempre desta noite”, afirma Natércia.

O efeito de “contágio” do homicídio da menina de oito anos em Valpaços e o “conceito de pai” que não serviu de salvaguarda

“Uma pessoa que faz uma coisa destas, à partida, é uma pessoa que já apresenta determinadas fragilidades do seu funcionamento psicológico, que chamamos de perturbações da personalidade, e que apresenta comportamentos de alguma forma disruptivos. Neste caso, já com antecedentes de violência familiar, na casa de família e a pessoas próximas”, explica ao Observador João Veloso, psicoterapeuta e investigador no Observatório do Trauma da Universidade de Coimbra, sobre o comportamento do homem.

O psicólogo explica que uma vez associada esta “estrutura fragilizante” a “um pico” e a “uma intensidade muito grande de um evento que está a decorrer” — neste caso “a discussão, o conflito” —, a pessoa na maior parte das vezes nem sequer entra no chamado surto psicótico, “mas entra em dissociação, deixando de estar de alguma forma em contacto com a realidade“.

O psicólogo diz que é importante fazer aqui a distinção entre dizer que um “pai fez isto e que uma pessoa fez isto”. “O conceito do pai aqui seria uma salvaguarda que não foi ativada, exatamente porque a pessoa está num estado dissociado”.

"Depois de haver uma situação com este tipo de violência [caso da madrasta que matou criança em Valpaços], nós sabemos que é expectável que existam outras pessoas que, eventualmente, com níveis de desorganização, o possam fazer por imitação".
João Veloso, psicoterapeuta e investigador no Observatório do Trauma da Universidade de Coimbra

Já sobre o sofrimento que o homem terá pretendido causar à mulher através da filha, o especialista entende que pode estar em causa um caso de “agressão por projeção”. “Sente tanta raiva que executa algo que está completamente fora da realidade”, afirma. “São sempre emoções de sobrecarga negativa, de raiva, fúria e que levam a este tipo de comportamentos”, explica.

João Veloso entende que o recente caso da madrasta que matou a enteada de 8 anos em Valpaços pode servir enquanto efeito de “contágio” para situações de violência como esta. “Os estudos referem esse fenómeno contagiante”, nota. “Depois de haver uma situação com este tipo de violência, nós sabemos que é expectável que existam outras pessoas que, eventualmente, com níveis de desorganização, o possam fazer por imitação”.

Por isso mesmo, entende que é “preciso ter muito cuidado da forma como estas coisas são apresentadas à comunidade e como são divulgadas”. “Nesta circunstância, pode ter ficado [no homem] um registo relativamente a esta situação da tal criança e da madrasta que a matou”, explica, mencionando também outros casos de pais que arrastam os filhos para a morte e que de forma mais específica se atiram de edifícios com eles.

“Estas coisas todas ficam disponíveis como informação e depois as pessoas ativam-nas quando as emoções as encaminham para aí”, refere, mas ressalva: “Isto não quer dizer que estas pessoas não sejam responsabilizáveis pelos seus comportamentos, ou seja, o facto de elas terem este tipo de perturbação prévia, não vai desresponsabilizá-las relativamente ao acontecimento”, assegura ainda.