Está a animação em alta? veio para ficar? Antes de apresentarmos ao leitor do Observador a 68.ª edição de Annecy, que arranca este domingo (até dia 27), com a mais fervilhante plateia do planeta, e o seu tradicional festim de aviões de papel atirados pela audiência para o palco da sala grande do Centro Bonlieu, recuemos cerca de um mês para salientar o seguinte: pela primeira vez este ano, não houve secção em Cannes que não tivesse programado, pelo menos, um filme de animação, salvo a competição principal pela Palma de Ouro. Mesmo esta — acreditamos — acabará por ceder, mais tarde ou mais cedo (vai ser uma questão de tempo), ou não tivesse Cannes, desde sempre atento à evolução da animação, atribuído uma Palma de Ouro honorária a Hayao Miyazaki, em 2024.
Quer pela geografia, quer pela proximidade de datas, Cannes e Annecy, os mais importantes festivais das suas categorias, trabalham, de resto, em conjunto, sem que isso tenha que ser publicamente anunciado. Ambos galvanizam a pujança da produção europeia, em especial a francesa, numa altura em que a produção americana, dominante a todos os níveis, tem estado a perder gás a nível criativo desde o pós-pandemia. Isto não tem só que ver com contingências de mercado e mega-operações comerciais que remodelaram o ecossistema da produção (como a compra da Pixar pela Disney, por exemplo). Tem também que ver com espectadores a mudarem de hábitos. Não percam, a propósito, Toy Story 5, que é absolutamente exemplar a focar esta questão.
Certo é que, em Annecy, e tal como sucedeu na Croisette, é a França que assume o papel de destaque desta edição, com o país presente em seis dos onze títulos que competem pelo Cristal de Melhor Longa-Metragem. Cerca de metade deles já teve exibição em Cannes em maio passado.
Os “Mínimos” abrem a festa
A abertura oficial do festival acontece este domingo com a estreia mundial (fora de concurso) de Mínimos e Monstros, novo capítulo do popular universo dos Mínimos, produzido pela Illumination e pela Universal. O filme é realizado por Pierre Coffin, o criador das irreverentes criaturas amarelas que se transformaram num dos maiores fenómenos de animação das últimas décadas. Co-escrito por Brian Lynch e pelo próprio Coffin, este novo tomo da franquia propõe uma narrativa assumidamente delirante: é a história dos Mínimos à conquista de Hollywood, enquanto se tornam estrelas de cinema e se unem para salvar o planeta. O filme estreia-se em Portugal dia 1 de Julho, pela mão da Cinemundo.

Já no concurso de longas-metragens, encontram-se produções de França, China, Canadá, Singapura, Japão, Estados Unidos assim como Espanha e Portugal, pela chamada do já multi-premiado Decorado, do cineasta galego Alberto Vázquez, filme co-produzido com a portuguesa Sardinha em Lata, numa competição que evidencia a multiplicidade de técnicas, estilos e abordagens narrativas que hoje definem a animação contemporânea.
Mas há mais cinema português em destaque em Annecy. Na renhidíssima competição de curtas metragens, apresentam-se Filha da Água, de Sandra Desmazières, co-produção internacional (de 2025) com participação minoritária portuguesa da Animais AVPL, assim como Virgem Fandango, de Marcy Page, co-produção luso-canadiana em stop motion (participação da Ciclope Filmes), que utilizou 12 mil azulejos portugueses pintados à mão. O filme chega a Annecy depois de ter sido exibido no Cinema São Jorge, em Lisboa, na mais recente edição da Monstra.
Recorde-se que Portugal já arrebatou o Cristal de curtas da cidade alpina em duas ocasiões, por História Trágica com Final Feliz, de Regina Pessoa, em 2006, e por Percebes, de Alexandra Ramires e Laura Gonçalves, em 2024 — o ano em que Annecy organizou a maior homenagem (e condizente retrospectiva) até à data do cinema de animação português. A curta Porque Hoje é Sábado, de Alice Eça Guimarães (revelada no Curtas 2025) integra a competição Perspectivas após um périplo de selecções prémios pelos quatro cantos do mundo.
O trabalho de realidade virtual Lúcido, do realizador Vier, produzido pela COLA Animation e apresentado em Cannes, integra a competição de obras imersivas. No programa Off Limits está XYZ, de Alexandre Alagôa, produzido pela Filmes do Gajo. I’d Rather Be A Concorde, de Javier Fabregas, uma co-produção entre Bélgica, Finlândia e Portugal, compete na secção WTF. Por fim, destaque-se na secção competitiva de filmes publicitários a presença do spot Monstra 2025 – Lisbon Animated Film Festival, da autoria de Vasco Casula. Um corpo sem cavalo?, de Lara Fuke, uma coprodução portuguesa com apoio da Lusófona Filmes, faz parte da seleção de filmes de escola. E também no MIFA, o poderoso mecado de Annecy dedicado ao cinema animado, serão apresentados pitches de novos projectos portugueses.
Os pilares do futuro
Sob o lema de um cinema “aberto, exigente e profundamente internacional”, Annecy não se contenta em ser aquilo que já é há muito tempo: o epicentro da animação mundial. Este sábado, dia 20, na véspera de mais uma edição, e debaixo da canícula que se abate neste momento em grande parte do território francês (os parisienses falam de “apocalipse”, pouco habituados a termómetros a tocarem nos 40 graus), foi inaugurado na cidade um novo empreendimento dedicado ao património e à transmissão desta arte — a nova Cidade Internacional do Cinema de Animação.

Projecto único no mundo, este grande centro cultural marca uma nova era da CITIA (Cité de l’image en mouvement d’Annecy), o organismo público, criado em 2006, que organiza o festival. Objectivo? Criar um espaço permanente de divulgação, preservação e criação em torno da animação, funcionando ao longo de todo o ano. O equipamento inclui uma sala de cinema com 332 lugares, 1.200 m² de espaços expositivos, um museu dedicado à história do cinema de animação, exposições temporárias e uma grande exposição anual, bem como a programação de oficinas, conferências, actividades pedagógicas e programas de residências artísticas. Guillermo del Toro descreveu o projecto como um futuro “centro de excelência e de conhecimento” para a animação mundial.
A ideia desta Cidade Internacional data dos primórdios do festival, desde 1960, precisou Patrick Eveno, antigo director da CITIA, à revista francesa Le film français: “A questão do património existe no festival desde a origem, pois tornou-se um hábito para nós pedir uma cópia dos filmes selecionados aos seus cineastas. A ideia de um museu paralelo ao festival tem praticamente o mesmo tempo da sua existência.” Orçamentado em 54,5 milhões de euros maioritariamente financiados pelo departamento da Alta Saboia, e certamente o maior projecto municipal de Annecy desde a edificação do centro cultural Bonlieu, nos anos 1980, eis uma obra “à grande e à francesa”, estrutura de excepção para preservar a memória e formar novos públicos. Num momento de profunda transformação tecnológica e económica para o cinema, Annecy afirma, deste modo, a animação como um sector estratégico, economicamente viável e criativamente indispensável.
O autor escreve segundo a antiga ortografia.