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(A) :: Os vencedores, os vencidos e o resiliente do Congresso do PSD

Os vencedores, os vencidos e o resiliente do Congresso do PSD

Bugalho ascendeu, Palma Ramalho e Ana Paula Martins entusiasmaram, Moedas e Pedro Duarte subiram, Santana reapareceu, Passos desapareceu, Lucinda Dâmaso eclipsou-se e Montenegro resistiu a tudo.

Miguel Santos Carrapatoso
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Miguel Pinheiro
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Rui Pedro Antunes
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Os vencedores

Sebastião Bugalho

Se quiséssemos ser exagerados, poderíamos dizer que ninguém foi promovido tão rapidamente como Sebastião Bugalho desde que Napoleão chegou a general de brigada aos 24 anos. Em 2024, aos 28 anos, passou de comentador de televisão a cabeça de lista do PSD nas europeias; e agora, aos 30, passou de eurodeputado a vice-presidente e porta-voz do partido. Entra, assim, no círculo mais restrito do montenegrismo e terá um papel essencial a criar, a moldar e a transmitir a narrativa política do partido e, inevitavelmente, do Governo. No PSD, muitos estarão a pensar (uns com entusiasmo, outros com inveja) qual será a próxima promoção — e quando. Na manhã do primeiro dia do Congresso, antes de se conhecer esta sua mais recente ascensão, Sebastião Bugalho sofreu uma pequena humilhação. Quando estava a discursar, Miguel Albuquerque, que dirigia os trabalhos, repreendeu-o por estar a falar mais tempo do que o permitido e atirou-lhe: “Aqui não há estrelas”. Claramente, Albuquerque não sabia o que aí vinha.

Maria do Rosário Palma Ramalho e Ana Paula Martins

Desde os tempos de Leonor Beleza no Ministério da Saúde cavaquista que os laranjinhas adoram ministras fortes que sejam atacadas por todos os lados. Por isso, só podia acontecer o que aconteceu: o congresso maravilhou-se com os discursos de Maria do Rosário Palma Ramalho e de Ana Paula Martins. A ministra do Trabalho atacou a “politização do sindicalismo nacional”, criticou os socialistas por não suportarem não estar no Governo e provocou André Ventura com referências ao TikTok. No final, ainda mostrou continuar disponível para o combate, dirigindo-se diretamente a Luís Montenegro: “Lá iremos outra vez fazer esta e outras reformas.” Já a ministra da Saúde enumerou aqueles que entende serem os seus feitos e até articulou um novo argumento para a pouca visibilidade de algumas das medidas: “Um aumento populacional brusco, causado pelo acolhimento de imigrantes que entram no país sem regras e sem humanismo, a que acresce a existência de redes organizadas que se aproveitam da bondade da democracia e de negócios ilegais assentes nas ineficiências dos sistemas de saúde de outros países faz com que o esforço e sucesso que temos tido no aumento do número de médicos de família pareça não existir”. O momento em que Ana Paula Martins agarrou o congresso foi quando quis mostrar que tem pele dura: “Eu, pessoalmente, tenho a consciência de que, segundo a comunicação social, sou a ministra menos popular deste Governo, mas sempre assumi que governar não implica ser popular”. Os congressistas aplaudiram muito, mas todos sabem que há mais país para lá do Velódromo de Sangalhos.

Carlos Moedas e Pedro Duarte

A valorização dos presidentes das duas maiores câmaras do país já tinha começado quando Luís Montenegro escolheu ambos para ocupar dois dos três lugares do partido no Conselho de Estado. Agora os dois sobem um novo patamar internamente ao tornarem-se vice-presidentes do PSD. Montenegro quer aproveitar o espaço mediático dos autarcas de Lisboa e Porto para o combate político-partidário, o que ao mesmo tempo os valoriza como figuras nacionais do PSD. Carlos Moedas já o era desde que conquistou Lisboa — e neste Congresso voltou a levantar os militantes com o seu discurso. E Pedro Duarte, após recuperar o Porto, tem sido apontado nos últimos meses como um forte candidato à sucessão de Montenegro, aconteça ela quando acontecer. Pedro Duarte nem falou ao Congresso (não precisa e andava entretido com aviões acrobatas na invicta) e Moedas pareceu afastar-se da corrida à liderança de curto prazo ao anunciar que quer ficar em Lisboa até 2033, mas é inegável que são cada vez mais duas figuras incontornáveis do partido. E agora podem, com legitimidade do cargo, falar em nome do PSD.

Pedro Santana Lopes

Enfant já não sou, mas terrible espero ser sempre”. Foram estas as últimas palavras de Pedro Santana Lopes quando, já depois da uma da manhã, saiu de Anadia. A hora não foi a melhor, o Congresso não estava cheio e o discurso não teve o arrojo dos tempos em que era a alma dos Congressos, mas Santana voltou ao partido, o que só por si é uma vitória depois da aventura mal sucedida no defunto Aliança. O político que tem mais vidas do que um gato tem uma nova vida no seu partido do coração. Não é uma surpresa, já que Montenegro apoiou Santana em 2018 na corrida ao PSD e no dia a seguir a ser eleito, em julho de 2022, foi visitá-lo à Figueira. Além disso, Santana já foi nas listas do PSD nas autárquicas. Era um casamento há muito anunciado que agora se concretizou. Santana está de volta. E recupera os poderes de ex-presidente, prometendo até ir ao Conselho Nacional e a Congressos no futuro nessa qualidade. Ninguém sabe se o sénateur terrible, sendo um homem livre, será sempre bom para Montenegro, mas ter voltado é bom para ele: o regresso ao partido é uma reconciliação com o seu percurso político.

Os vencidos

Passos Coelho

O mais provável é que Pedro Passos Coelho não se incomode nada com isso, mas o Congresso deste fim de semana decorreu como se ele não existisse. Ninguém quis discutir as críticas e as preocupações do antigo líder. Quando eram confrontados com as declarações insistentes de Passos nos meses mais recentes, os ministros que passaram pelo congresso fizeram de conta que não se passa nada digno de nota. Só Pedro Santana Lopes, o regressado, afirmou no seu discurso noctívago que, “seja quem for que se candidatasse”, Montenegro ganhava “por largo” — mas mesmo ele jurou que não estava a atacar Passos. Não há dúvida: o partido está com Montenegro. Para já.

Lucinda Dâmaso

A relação entre o PSD e os TSD, uma estrutura autónoma do partido que também é filiada na UGT, ficou definitivamente afetada com toda a discussão em torno do pacote laboral. Na fase de negociações na concertação social ainda foi transmitida a Montenegro por parte de alguns dos dirigentes dos TSD alguma insatisfação pela forma como a ala do PS estava a tentar instrumentalizar a UGT. Mas essa dissonância com a ala socialista era simulada. Lucinda Dâmaso, que era vice-presidente do PSD e também presidente da UGT, votou sempre ao lado de Mário Mourão. Isso foi um desconforto insuportável para Luís Montenegro que, obviamente, retirou Lucinda Dâmaso da sua comissão política permanente. É verdade que Pedro Roque, líder dos TSD, continua a ter assento na direção (na mais alargada) por inerência e que votou a favor da reforma laboral, mas a relação entre a direção e a estrutura autónoma mudou. E Lucinda Dâmaso foi a primeira baixa.

O resiliente

Luís Montenegro

Se há pessoa que já enganou várias vezes a morte política é Luís Montenegro, o que obriga a ter especial cuidado com as leituras que se fazem. A lista de desaires é longa: perdeu duas vezes a Câmara de Espinho, perdeu quando concorreu à liderança do PSD/Aveiro e perdeu duas vezes para Rui Rio quando tentou tomar o partido — há meia dúzia de anos era apupado pelos mesmos militantes que agora o reverenciam. Quando finalmente chegou à presidência do PSD, muitos apostaram que não seria mais do que um líder para queimar durante a maioria absoluta de António Costa. E ei-lo primeiro-ministro há mais de dois anos, com duas vitórias legislativas no bolso, a segunda com especial sabor por ter sido um referendo à sua integridade. A partir da Mesa do Congresso elogiaram-lhe a “resiliência” que tem demonstrado e não será para menos. Dito isto, não há como não reconhecer que está num momento difícil: José Luís Carneiro começa a mostrar os dentes, André Ventura já não esconde que tudo fará para lhe tomar o lugar e o risco de o Governo atolar no pântano é muito real. Não sabe exatamente o que esperar de António José Seguro e Pedro Passos Coelho, o maior dos fantasmas, não sai de cena. Deste Congresso fica a clara sensação de que está à espera do melhor momento para se atirar para o chão e gritar penálti, mas este não é ainda o tempo. Precisa de mostrar mais trabalho antes de carregar (mais) na tese da vitimização. Os próximos seis meses (época de incêndios, pressão nas urgências hospitalares e Orçamento do Estado) serão um teste à resistência de Luís Montenegro. Vai precisar, como alguém lhe prescreveu a partir do palco do Velódromo de Sangalhos, de paciência de Jó. E alguma sorte.