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Os prémios do Congresso do PSD. O rezingão, as estrelitas e o prémio de consolação

O Observador volta a atribuir prémios a congressistas, ausentes e até a um restaurante. Miguel Albuquerque foi o "rezingão" que pôs a sala na ordem, mas também houve "estrelas" e a surpresa Santana.

Inês André Figueiredo
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Mariana Lima Cunha
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Vasco Maldonado Correia
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Inês Correia
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Miguel Albuquerque, que presidiu aos trabalhos, pôs o congresso na ordem e ordenou que ninguém discursasse por mais tempo do que devia. Chamaram-lhe “rezingão” e o presidente do governo regional respondeu que não precisa de ser “amado”, nem mesmo pelo “best friend” Carlos Moedas (que se demorou no discurso). O vencedor do prémio Rezingão acabou por gerar o segundo prémio, o das “estrelitas”, quando avisou Sebastião Bugalho de que no PSD “não há estrelas” (mais uma vez, o cronómetro não perdoa e Albuquerque também não) — mas Bugalho acabou mesmo promovido a vice e a porta-voz do partido. No congresso visto da bancada dos jornalistas foi possível atribuir prémios ao forte aplauso de consolação para a ministra do Trabalho, ao regresso tardio de Santana Lopes (que chegou ao congresso já a horas de ir dançar para o Lux) ou ao restaurante Mugasa, a cantina dos congressistas que, de fim de semana em Anadia, não resistiram ao leitão.

Prémio Rezingão: Miguel Albuquerque

“Quem quer ser amado todos os dias compra um cão”. A lição é do presidente do governo regional da Madeira, Miguel Albuquerque, especialista em debitar conselhos para quem quer andar na política (diz sempre que é preciso ter uma pele grossa e um nariz comprido e inquisitivo, como um elefante) e também em pôr o congresso na ordem, enquanto presidente da Mesa do Congresso. Neste que foi a sua última reunião magna nessa qualidade, Albuquerque, apelidado de “rezingão” por Hugo Soares pela rapidez (e rispidez) com que ia despachando os congressistas para obrigá-los a cumprir os tempos previstos, não quis ser “amado” – “se não tiver a vossa compreensão, paciência”. E nem para os amigos mais próximos fez exceções: “You’re my best friend, mas já ultrapassaste o teu tempo em dois minutos”, disparou enquanto Carlos Moedas discursava. Quando Albuquerque deixou de gerir os trabalhos pela meia noite e picos a sua ausência foi, imediatamente, notada: assim que saiu do pavilhão, a meio do discurso de Santana Lopes, a velocidade com que os congressistas discursavam abrandou e os resistentes tiveram de ficar a ouvir os companheiros de partido até depois das 1h30 da manhã – um cenário que Albuquerque, enquanto “sexagenário” que precisa de se “deitar cedo”, tinha tentado evitar o dia todo.

Prémio Lux : Pedro Santana Lopes

A sala estava praticamente vazia, apenas os mais resistentes (ou aqueles que ainda iam subir ao púlpito) ouviam os militantes inscritos para discursar noite fora. De repente, sem indicação prévia, Albuquerque anuncia uma “notícia muito agradável”. A conclusão parecia óbvia: os trabalhos do Congresso estariam prestes a terminar. Só que não. Era mesmo um regresso a casa. Santana Lopes entra no Velódromo Nacional de Sangalhos para confirmar que voltou a assinar a ficha da militância do PSD. Já passava da meia-noite. A surpresa, que teria levado a sala à euforia durante outra hora do dia, acabou reduzida a um discurso — sem cronómetro ligado — cheio de emoção e elogios a Luís Montenegro. O presidente do PSD tentou fazer voltar Santana logo no primeiro dia de mandato, em 2022. Três anos depois teve a recompensa.

Prémio Estrelitas: Sebastião Bugalho

Com o cronómetro sempre à mão, Miguel Albuquerque avisou cedo que iria ser implacável e os representantes das moções temáticas foram os primeiros a testar a paciência. Que o diga Sebastião Bugalho. Subiu ao palco para apresentar uma moção em nome dos eurodeputados, começou a disparar em todas as direções e foi interrompido por Miguel Albuquerque com um aviso de tempo. “Tem a certeza, senhor presidente?”, questionou Bugalho. Albuquerque, sem papas na língua, atirou rapidamente um “aqui não há estrelas” — para uma expressão incomodada do eurodeputado, que ainda tentou dizer que estrelas são os representantes sociais-democratas em Bruxelas. No final do dia, o regresso à harmonia foi tornado público  nas redes sociais, com uma foto de ambos e uma descrição: “Duas estrelas.” Com mais ou menos tempo para estrelas, a verdade é Bugalho acabou promovido por Montenegro a vice e porta-voz do PSD.

Prémio Mugasa: congressistas

Nos últimos dias foram poucos os sociais-democratas que passaram em Anadia e não encheram a barriga de leitão. Ainda antes do arranque do 43.º Congresso do PSD, na sexta-feira, já a sala do Mugasa estava cheia para um aquecimento da reunião magna. Houve quem sugerisse que aquele era o lugar certo para os trabalhos dos dias seguintes. O desejo não foi cumprido, mas os congressistas aproveitaram todas as pausas para se atirarem à carne. Não só em restaurantes, como com pedidos para o Velódromo Nacional de Sangalhos. À hora de jantar foi flagrante: o regresso dos trabalhos estava marcado para as 22h30 e a essa hora a sala estava completamente vazia, até o primeiro-ministro viu o cenário quando chegou ao local. Os trabalhos ainda foram retomados, mas muitos sociais-democratas ficaram mesmo agarrados ao leitão. Ou, pelo menos, chegaram muito tarde.

Prémio de Consolação: Maria Rosário da Palma Ramalho

Maria Rosário da Palma Ramalho terá acreditado que chegaria ao congresso em glória, com uma espinhosa reforma laboral aprovada e uma vitória retumbante para apresentar. Em vez disso, o Chega tirou o tapete ao PSD mesmo em vésperas de Congresso, chumbando o pacote. Mesmo assim, a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social mereceu um dos aplausos mais fortes do congresso – Montenegro levantou-se para bater palmas –, com o partido a fazer questão de mostrar que está com Palma Ramalho. No púlpito, a ministra criticou a “coligação” entre PS e Chega, falou na frustração dos primeiros por estarem arredados da governação e descreveu os segundos como os que votam em “função da sondagem do dia e das tendências do Tik Tok”. E antecipou que o Governo ainda voltará a esta reforma. Quando e como, não se sabe – o que ficou claro para já foi que o partido quis cerrar fileiras e pareceu absolver a ministra de culpas no fracasso da reforma laboral, focando-se nos culpados externos.

Prémio Saco de Boxe: José Luís Carneiro

Quem diria, há meros meses, que se ouviriam ministros do PSD a elogiar Pedro Nuno Santos em comparação com José Luís Carneiro. Mas foi isso mesmo que aconteceu neste congresso, rico em ataques impiedosos ao PS e ao seu atual líder, até agora conhecido como um socialista moderado. No palco e nas entrevistas ao Observador, elementos do Governo foram argumentando que Carneiro não só é afinal idêntico a Pedro Nuno Santos como talvez se comporte de forma até mais radical, chegando a ser comparado ao PCP (António Leitão Amaro dixit), criticado por não controlar um partido dividido e por ser afinal uma pessoa nova que os portugueses só estão a “descobrir” agora. O tom escalou e o PSD prosseguiu a sua estratégia de colocar PS e Chega no mesmo patamar, de forma a procurar equivalências entre ambos e ficar livre para negociar com os dois. Carneiro foi a principal vítima dessa estratégia – e dificilmente não terá ficado com as orelhas a arder.

Prémio Seguro (de Vida):  António José Seguro

O chumbo inesperado da reforma laboral em vésperas de congresso trouxe inevitavelmente de volta a sensação de que uma crise política pode estar ao virar da esquina, e que poderá ser provocada quando Governo ou oposição acreditarem que a situação lhes é favorável. Mas, por agora, o Executivo jura que não lhe interessa ir a votos, e foram vários os ministros que garantiram que não há qualquer motivo para pensar em eleições – “Deus nos livre”, exclamou Leitão Amaro. O que ficou claro para vários congressistas é que o Presidente da República, António José Seguro, também deve ser responsabilizado pelas promessas que fez de lutar pela estabilidade até ao fim (Santana Lopes ou Paulo Rangel Rangel lembraram que um dos desígnios do Presidente é esse mesmo, e que deve conseguir o que Marcelo Rebelo de Sousa, que dissolveu a Assembleia da República várias vezes, falhou). A cartada da estabilidade foi de resto mesmo o único motivo para se falar em Seguro: apesar de ter sido eleito este ano, o Presidente foi quase sempre ignorado nos discursos dos congressistas. Mas mesmo no fim, no discurso de encerramento, Montenegro fez questão de reiterar a “total disponibilidade e empenho na colaboração construtiva e estratégica” com a Presidência da República.

Prémio IA

Nem sempre as novidades reveladas em congressos dão lugar a grande entusiasmo, mas esta foi uma ideia vencedora. Num dos corredores do Velódromo Nacional de Sangalhos, o PSD disponibilizou uma máquina que permite tirar “fotografias” com figuras marcantes da vida do partido. Montenegro, claro está, mas também Francisco Sá Carneiro e Francisco Pinto Balsemão. As imagens, logicamente, são geradas com recurso a ferramentas de inteligência artificial, mas o resultado foi realístico o suficiente para provocar filas ao longo do fim-de-semana, e deixar várias centenas de militantes satisfeitos. E tudo sem cansar o líder, claro está.