Escritor (tem publicados dois romances e um título de não ficção ainda fresco, A Mais Bela Maldição — Histórias de Gente Apaixonada por Livros) e até há pouco tempo editor, Rui Couceiro, 42 anos, deixou o cargo na Contraponto para levar ao Porto figuras de proa da literatura mundial, enquanto comissário do Babell, evento literário e cultural que começa esta quarta-feira, dia 24. É promovido pela Fundação Livraria Lello, que nele investe mais de três milhões de euros.
Entre os ilustres com presença garantida nesta primeira edição (não se sabe, para já, o futuro do evento), estão dois prémios Nobel da Literatura – Lászlo Krasznahorkai, da Hungria, e Olga Tokarczuk, da Polónia –, o britânico Julian Barnes (que lançou recentemente aquela que diz ser a sua última obra), o indiano-britânico Salman Rushdie, o espanhol Javier Cercas e a brasileira Conceição Evaristo. Até ver, há apenas uma presença cancelada, por motivos de saúde: a da mecenas literária italiana Beatrice Monti della Corte, centenária. O festival – que se distingue pelo modelo de acesso, assente na compra de livros que valem entradas –, arranca com o contributo de Byung-Chul Han, filósofo germano-coreano, autor de títulos como A Sociedade do Cansaço.
O responsável pelo festival e programador garante que a equipa nuclear do Babel tem trabalhado “dia e noite” nos escritórios instalados no coração do Porto. No fim, o impacto do festival na cidade “será mensurável”, promete Couceiro, sem adiantar números. Fala sentado a uma mesa onde repousam livros dos autores convidados e responde a todas as perguntas, incluindo as que versam sobre as recentes polémicas que envolvem o grupo Lionesa (proprietário da Lello) à demolição de património e ao forte investimento em imobiliário no Porto e defende a ação da família Pedro Pinto no panorama cultural da cidade e do país. E acrescenta: continua à espera de um governo que faça da leitura “um desígnio nacional”.
Portugal tem muitos festivais e eventos literários. Como encara essa realidade?
O país, de facto, tem muitos festivais literários e, como editor, isso sempre me satisfez. São palcos muito importantes para a divulgação do livro, da leitura, do trabalho dos autores. Claro que há festivais e festivais. Há uns que têm uma capacidade maior de divulgar o livro e a leitura, há outros que não tanto. Percebo também que são, para muitas autarquias, formas fáceis de criar políticas dentro desta área do livro. Porque o que as câmaras fazem, normalmente, é subcontratar alguém que foi ali propor um projeto desta natureza. Empresas e, às vezes, particulares que propõem: olhe, não gostariam de ter um festival literário? E os autarcas pensam: bom, nós não temos nada disto. “Quanto é que custa? Vamos fazer. Também queremos ter, porque aquela localidade vizinha tem, aquela também tem, aquela também tem.” E há uma proliferação de eventos literários muito grande, mas não proporcional à qualidade que poderiam ter.
Ou seja…
Ou seja, há muitos, mas não há muitos que sejam muito bons. E digo isto com conhecimento de causa, enquanto editor e enquanto autor que, muitas vezes, os frequenta. Sei que os autores gostam dos festivais literários. É uma forma de estar perto dos leitores. É também uma forma, para os autores portugueses, de ganharem algum dinheiro. Porque há cachés associados às participações, e ainda bem que há, é justo que haja. Eu, trabalhando nas editoras, há muitos anos que me batia pela remuneração dos autores quando eles vão, em público, falar do seu trabalho de criação artística. É um trabalho intelectual e merece remuneração. Felizmente, os municípios já perceberam isso e os autores são remunerados por esse trabalho.
E o que é que faz o tal “muito bom” festival a que se refere?
Um conjunto de várias coisas. Por um lado, o cartaz é muito importante. Por outro, a forma como a própria organização se compromete com a divulgação da iniciativa e a mobilização de público. Porque, se estes eventos não têm como objetivo a criação de públicos, são fogos-fátuos, não têm nenhuma expressão do ponto de vista das políticas culturais. Quando um município organiza um festival literário, está a pôr em prática uma política pública para a cultura. Na maior parte dos casos, não há preocupação em medir o resultado dessa política. E não há preocupação em medir porque, antes, não houve preocupação em garantir que o evento fosse direcionado para a obtenção de um resultado. Porque tem de estar. Uma política cultural tem um objetivo. Agora, se fizermos só por fazer – e é o que sinto que acontece em muitos eventos desta natureza –, estamos a falhar do ponto de vista político. Para um evento ser bom, tem de ter um bom cartaz, um bom elenco, e tem de ter uma claríssima definição de objetivos. Os objetivos não têm de ser todos altamente ambiciosos, como são os do Babel. Podem ser à escala da localidade em que aquilo é feito. Portanto, se for numa aldeia, vai atingir X pessoas; se for numa vila, um bocadinho mais; numa cidade pequena, um pouco mais. O que interessa é prestar um serviço à comunidade. E construir públicos leitores, porque é um evento de natureza literária. Parece-me que há muito bons exemplos e outros em que, se calhar, falta a noção de que isto deveria ser assim.
Quer concretizar?
Não quero dar exemplos, porque seria deselegante, sobretudo tendo em conta a posição em que estou. Mas gosto muito de partilhar ideias, quando frequento estes festivais, com as organizações. Fui a muitos festivais literários e feiras do livro no estrangeiro e gosto de me inspirar nas melhores práticas que vou conhecendo. É assim que robustecemos as coisas que vamos fazendo. Vejo muitas vezes coisas que podiam ser feitas de outra forma. E fico muito contente quando vejo coisas bem feitas. Há exemplos excelentes, aqui perto. Temos não só o mais antigo encontro desta natureza, que são as Correntes d’Escritas [na Póvoa de Varzim], mas outros exemplos muito bons. Ainda recentemente estive no LeV, em Matosinhos. Vou todos os anos ao Escritaria, a Penafiel, que acho que tem um conceito absolutamente extraordinário, pelo facto de ser centrado num só autor e de se focar na lógica da contaminação literária. De um momento para o outro, a cidade, sejam os talhos, as mercearias, as lojas de roupa, estão contaminadas pela literatura. E se temos como objetivo fazer chegar os livros e a leitura a mais pessoas, os livros e a leitura têm de estar perto das pessoas, no seu dia-a-dia. Se crescermos numa localidade onde não há livrarias nem bibliotecas, qual é a probabilidade de nos tornarmos leitores? Só se em casa tivermos a sorte de ter pais leitores, que nos põem os livros nas mãos. Mas não podemos partir do princípio de que isso é uma realidade comum a toda a gente.
Qual é a realidade comum?
Do ponto de vista das práticas culturais, continuo a achar que estamos na cauda da Europa. E, no que toca aos índices de leitura, é só olhar para os dados e perceber que estamos lá no fim. Poderíamos ter feito muito melhor, e por isso digo que ainda está por vir um governo que tenha a coragem de fazer da leitura um desígnio nacional. Que tenha a ousadia, a ambição de mostrar que acredita que um povo mais culto é um povo capaz de construir um país mais civilizado e democraticamente mais robusto. Infelizmente, tudo o que temos à nossa volta aponta para um retrocesso a esse nível.
Em que é que o Babell se distingue, neste panorama?
Desde logo, o Babell conseguirá, no final desta edição, medir o impacto no território, junto das pessoas. Porque vamos poder dizer, no final, que graças a este evento se venderam “X mil livros” nas livrarias da cidade do Porto.
Devido ao modelo de acesso [um livro comprado nas livrarias da cidade, um bilhete]?
O modelo de acesso é absolutamente inovador, inspirado no modelo da própria Livraria Lello, e que está a levar milhares de pessoas às livrarias. Livrarias essas que, em muitas circunstâncias, sofrem todos os meses para conseguirem resistir à pressão do mercado imobiliário, ao aumento das rendas. Muitas mudam de localização porque não conseguem aguentar o preço das rendas. E este centro da cidade, onde estamos a fazer esta entrevista, ainda tem bastantes livrarias, mas já teve muitas mais. Lembro-me de ser mais novo, vir para esta zona e ser capaz de passar uma tarde de livraria em livraria. Isso era formidável, porque cada uma tinha o seu perfil.
Alfarrabistas incluídos.
Alfarrabistas incluídos. Seguramente, a primeira boa metade da minha biblioteca, quando era jovem e tinha menos dinheiro, foi adquirida em alfarrabistas. São um templo formidável do livro e da leitura, onde conseguimos encontrar autores que, de outra forma, não encontraríamos. Porque a forma voraz como as novidades se sucedem nas prateleiras das livrarias convencionais, das grandes cadeias e tal, não permite a descoberta de coisas que não têm a ver com o imediato. Sabemos que o melhor é aquilo que resiste à passagem do tempo. E é estranho que não esteja nessas livrarias. Se é o melhor, porque é que não está lá? Na semana passada, fui a uma livraria de uma grande cadeia procurar cinco livros da Agustina [Bessa-Luís], para uma pessoa que estava no estrangeiro, queria bilhetes para o Babell e pediu para comprar livros por ela. E só encontrei quatro títulos diferentes. Foi bom ter encontrado quatro, até tinha medo de encontrar menos. Mas ela queria cinco. E, por exemplo, não estava disponível A Sibila. Pedi para encomendar. Mas sei que, se fosse a um alfarrabista, encontrava mais títulos da Agustina disponíveis.

Sobre a questão do bilhete-livro, qual a origem desse modelo?
Eu tinha uma grande frustração, justamente por aquilo que debatíamos há pouco: a impossibilidade de se mensurarem os resultados destes eventos. Mas depois o Pedro Pinto, administrador da Livraria Lello, começou a falar comigo do modelo que tem para vários projetos do grupo, e que é devedor do tal sistema da Livraria Lello: um modelo em que o livro é a moeda. E, quando ele me contou isto, eu disse: não precisamos de ir mais longe, já encontrou a forma de distinguir o Babell. A forma de acesso é essa: as pessoas compram um livro e têm direito a um bilhete. Isso, confesso, nessa altura, fez-me sentir uma excitação, um entusiasmo com o que estávamos a construir muito grande, porque nunca foi feito. E quando anunciámos o modelo foi muito curioso ver responsáveis por festivais de outros países, do outro lado do mar, da Europa, a perguntar: como é que vão fazer isto? Alguns vão estar cá para perceber como é que vamos conseguir fazer isto – porque vamos conseguir, já conseguimos, na verdade –, e como é que isto se concretiza.
Já há números?
Há, mas não posso ainda partilhá-los. Estamos a preparar a forma de os divulgar no final, porque estamos a fazer um estudo de público com uma instituição preparada para isto.
Nem por aproximação?
Não, mas é fácil percebermos. Temos sessões com 1.600 lugares esgotadas. Não há eventos com plateias desta dimensão. Temos muita gente.
Pode dar exemplos de sessões esgotadas?
Sim. A Margaret Atwood já esgotou, o Byung-Chul Han já esgotou, já esgotaram há muito tempo. Provavelmente, à hora a que estamos a conversar, a Olga Tokarczuk já terá esgotado também. O Salman Rushdie não esgotou, porque é na maior sala, no Coliseu. Temos 3.000 lugares, mas acho que já passámos os 2.000 bilhetes emitidos e, provavelmente, vamos chegar aos 3.000 até ao dia da sessão.
“Ainda me custa acreditar que esta gente toda vem ao Babel”
Como chegou a este papel de comissário? Foi por convite?
Sim, fui convidado pelo Pedro Pinto para desempenhar esta função.
E aceitou logo?
Aceitei. No dia seguinte.
Essa decisão teve em conta que haverá outras edições do festival? Pode confirmar?
Estarei a dizer a verdade se disser que queremos que continue; direi a verdade também se disser que ainda não sabemos se vai continuar, porque, neste momento, o nosso único objetivo é fazer este e bem. E, se isto satisfizer os nossos padrões altíssimos de exigência e de ambição, acredito que possamos fazer outras edições.
Nesse caso, gostaria de se manter como comissário?
Muito francamente, não pensei sequer nessa possibilidade. Estou focadíssimo em terminar este desafio. Sou muito racional e metódico e, portanto, é uma coisa de cada vez. Tenho dito isto também à minha equipa: não pensemos em mais nada do que nesta semana que começa a 24 e termina a 29. Foquemo-nos e, depois, cada um pensa no que tiver de pensar. Para fazermos isto bem, temos de estar 100% dedicados, mental e fisicamente, a isto. E, felizmente, tenho uma equipa fora do normal, que se tem dedicado a isto… não é de corpo e alma, há de haver um superlativo melhor, porque a dedicação das pessoas tem sido notável. É muito bonito ver quando há uma causa por detrás de um projeto – e esta causa é o livro e a leitura –, porque as pessoas agarram-se ao que estão a fazer com mais vigor, com mais entusiasmo. Isso é muito bom.
Quem é que teve a ideia do festival, em primeiro lugar?
O Pedro Pinto queria fazer um grande evento, que partisse do facto de neste ano se assinalarem os 120 anos da Livraria Lello, e que pudesse unir vários projetos do grupo que estão em execução, como a expansão da livraria, aquilo que hoje é o Jardim do Pensamento… E desafiou-me a idealizar um grande evento.
Com que objetivos?
Havia um objetivo de promoção do território através da cultura. Esta foi a base. O Pedro Pinto disse: quero contribuir para este território através da criação de um evento de natureza cultural que pode ter a sua génese no livro. Claro que o meu interesse era que tivesse essa génese no livro. E ele, ao desafiar-me, também sabia que seria a partir do livro que eu iria desenhar o projeto. Mas o facto é que isto foi um extraordinário trabalho de equipa desde então, idealizado de forma muito mais próxima entre mim e o próprio Pedro Pinto, com conversas diárias, multi-diárias, durante mais de um ano; e depois com o contributo de muita gente que foi chegando à nossa equipa. Ainda esta semana entrou mais gente.
Quantas pessoas tem a equipa?
A minha equipa próxima, que está aqui no escritório a trabalhar, o coração do Babell, são 20 e tal pessoas. Mas no terreno, para fazer o Babell, vamos ter mais de 800.
Foi o Rui quem desenhou a programação?
Sim, sou o responsável pela programação. Tenho gente que me auxilia, como a Patrícia Reis, e a própria Câmara do Porto, o vereador [da Cultura] Jorge Sobrado. Porque a Câmara, a partir do momento em que assumiu a co-produção do evento, assumiu também partes da programação. Já tínhamos idealizado as aulas de História, a Poesia ao Poder ou a Poesia Está na Rua, mas quem depois deu corpo a isso foram o vereador Jorge Sobrado e as equipas que trabalham com ele.
Quais foram os critérios, quando desenhou a programação?
Não há nunca um critério só; há uma multiplicidade de fatores que nos levam a ir por um caminho e não por outro. Queríamos ter um cartaz internacional de grande qualidade. Obviamente que o meu gosto e a minha noção de qualidade literária também têm uma influência grande na escolha dos escritores a convidar – e da própria Patrícia Reis, que me ajudou muito nesse domínio. Portanto, havia essa vontade de colocar a fasquia num nível de qualidade muito, muito elevado. Queríamos que as pessoas olhassem para o cartaz e dissessem: este é um evento em que quero estar, porque estão aqui grandes escritores, grandes pensadores, grandes figuras da cena literária. Que tivessem em comum só o facto de serem grandes escritores. E todos estes nomes são, efetivamente, grandes escritores. Conheço a obra de todos eles e ainda me custa acreditar que esta gente toda vem ao Babell.
Como fizeram para garantir a presença destes nomes?
Foi um processo relativamente simples, na medida em que os autores portugueses conheço-os todos, dos estrangeiros conhecia alguns e, quando não conhecia os autores, conhecia os agentes. Havia essa mais-valia que eu, enquanto editor, trazia para o projeto: o facto de, com relativa facilidade, conseguir chegar às pessoas. Depois, foi fazer convites, explicar às pessoas porque é que um evento que não existia era bom para elas.
Foi fácil convencê-las?
Elas estão aqui, portanto, se foi fácil ou não, não sei, mas que as consegui convencer, consegui.


Houve alguma exigência mais curiosa que tenham feito e que possa partilhar?
Há coisas relativamente frequentes, não têm nada de extraordinário. Há autores que só ficam em quartos cuja janela abra. Gente com claustrofobia, que tem medo de, caso precise deixar o quarto pela janela, não o conseguir fazer se a janela não abrir. É comum as janelas dos hotéis, hoje em dia, só bascularem ou só funcionarem em oscilobatente, e não permitirem a abertura total.
Isto é fácil de resolver. Alguma coisa mais complicada?
Depois há mais algumas coisitas que é capaz de ser melhor não revelar. Mas, sei lá, o Byung-Chul Han pediu-nos um piano e pediu-nos para fazer jardinagem. As pessoas também vêm a confiar que o Porto lhes oferecerá grande gastronomia, mas algumas têm curiosidade, perguntam-nos sobre as tripas, sobre o bacalhau, perguntam pela francesinha, vêm com algum entusiasmo em relação a essas coisas.
Alguém vai fazer jardinagem com Byung-Chul Han, ou ele quer fazer jardinagem sozinho? E onde é que vai acontecer?
Não posso contar, porque senão aparecem pessoas. A quantidade de admiradores do Byung-Chul Han que existe em Portugal é impressionante. A quantidade de pedidos de cunhas que eu recebi para pessoas assistirem à sessão do Byung-Chul Han, ou estarem, ou cumprimentarem, ou conhecerem, ou proporem projetos ao Byung-Chul Han, é escandalosa. É impressionante. Nisso, ele é o recordista.
Um orçamento que já ultrapassou os 3 milhões
Em relação à preparação do festival, qual foi o maior desafio? Estou a lembrar-me, por exemplo, do Salman Rushdie, o único autor a falar num espaço que não é público, imagino que por razões de segurança, face ao que já viveu. A segurança, tendo nomes tão grandes aqui, foi uma das preocupações?
A segurança é uma grande preocupação, não no sentido que estejamos preocupados, porque não estamos, sabemos que temos um grande dispositivo montado; mas no sentido em que precisámos de lhe prestar atenção. E, felizmente, temos tido uma colaboração extraordinária das autoridades, muitíssimas reuniões feitas com a PSP, com outras forças policiais, com a Proteção Civil, com os bombeiros, com uma série de instituições que são absolutamente fundamentais para que tudo corra bem. E aí é muito justo que destaque o papel do município e, em especial, da Ágora, empresa municipal ligada ao entretenimento, cujos profissionais nos têm ajudado muito. Eles sim, viveram um desafio muito grande ao terem de encaixar o Babel no contexto do São João e de outros eventos que acontecem mais ou menos nesta altura.
A menos de uma semana do evento, qual é o sentimento? Estão ansiosos, ou ainda não tiveram tempo para isso?
Não estou ansioso, porque não sou uma pessoa ansiosa, mas estou, obviamente, com muito trabalho e com muita coisa para resolver até ao último minuto e, tenho a certeza absoluta, durante o decorrer do próprio evento. E a maioria das pessoas da minha equipa também não está com tempo para sentir ansiedade. Não, não temos tempo para sentir ansiedade. No limite, sentiremos ansiedade em relação à execução de tarefas que são imprescindíveis e que se avolumam a todo instante, porque todos os dias, a toda hora, surgem novas situações para resolver, e o trabalho de produção de um evento tem uma exigência muito, muito grande. Não conhecemos horários há vários meses, trabalhamos madrugada dentro há vários meses. É absolutamente chocante a quantidade de telefonemas que fazemos por dia.
E há as entrevistas.
Sim, sim. A divulgação é muito importante. É muito bom sentir que a comunicação social também se interessou pelo Babell. Neste momento, já temos mais de 120 ou 130 jornalistas acreditados, de Portugal e do estrangeiro. Na imprensa espanhola, numa revista nacional, uma jornalista disse: Babell, o único sítio do mundo onde queria mesmo estar, nesta altura. Temos sentido esse entusiasmo dos jornalistas portugueses e de muitos jornalistas estrangeiros. Isso deixa-nos contentes, porque significa que veem na proposta que o Babell transporta interesse suficiente para mobilizarem os seus esforços e o seu trabalho. Isso, para nós, é muito importante. A Fundação Livraria Lello investiu até agora, neste evento – e isto não são contas finais, porque o orçamento está a crescer todos os dias –, mais de 3 milhões de euros. É muito dinheiro, do próprio bolso.
Mais de 3 milhões: mais perto dos 3 ou dos 4?
Neste momento, não quero concretizar.
E qual é o contributo da Câmara Municipal do Porto?
Não é um contributo financeiro direto. A autarquia não nos dá dinheiro, presta serviços. Desde logo, a disponibilização do espaço público, as licenças, alguma programação do Babell é da responsabilidade da Câmara e, portanto, os profissionais da Câmara envolveram-se. Mas estamos aqui a fazer um grande esforço financeiro, foi um grande investimento que a família Pedro Pinto quis fazer nisto, e que me inspirou desde o primeiro momento. Ver alguém a querer oferecer ao seu território, à sua cidade, é uma coisa muito bonita. E o amor que o Pedro Pinto tem por esta cidade foi, provavelmente, a coisa que fez com que nos entendêssemos muito bem nessas primeiras conversas.
Há algum receio de eventuais cancelamentos em cima da hora?
Temos um cancelamento: a sessão protagonizada pela mecenas literária italiana Beatrice Monti della Corte, que tem 100 anos e que, por razões médicas, está impedida de viajar. Vamos informar as pessoas que têm bilhete para essa sessão de que a sessão não poderá acontecer. Não tenho a certeza se vamos ter substituto ou não. Caso contrário, os bilhetes para essas sessões serão válidos para outras. Tenho muita pena, porque é uma mulher absolutamente fascinante. A sessão ia ser muito bonita, porque era ela e os amigos: o Héctor Abad Faciolince, a Olga Tokarczuk e o Alberto Manguel. Era uma homenagem a uma mecenas literária extraordinária, uma mulher com uma vida cheia. Tenho pena. Talvez para a próxima não seja impossível.
No ano que vem?
Quem sabe.
“A família Pedro Pinto tem feito muitíssimo por esta cidade”
A família Pedro Pinto tem adquirido imóveis pela cidade, tem vários projetos em andamento e, recentemente, soube-se que uma mesquita no Porto tem de sair do edifício onde está instalada, que foi comprado pelo grupo Lionesa [que detém a Lello]; houve também a questão da demolição ilegal no interior da antiga Confeitaria Serrana. Receia que o Babell seja visto como uma tentativa de dar uma outra imagem?
Acho que isso não tem qualquer sentido. A família Pedro Pinto tem feito por esta cidade muitíssimo. Vamos elencar algumas coisas. A Livraria Lello é Monumento Nacional graças à reabilitação rigorosíssima que esta família fez da livraria, e que permitiu que, desde este ano, seja Monumento Nacional. O arquiteto Siza [Vieira] tem projetos na cidade do Porto encomendados pela Livraria Lello, como a expansão da própria livraria, o Jardim do Pensamento, em Matosinhos, e, de resto, faz projetos na Albânia e no Oriente. Muito importante: o quadro do Domingos Sequeira [Descida da Cruz] estaria no estrangeiro se a família Pedro Pinto não o tivesse adquirido e cedido a um museu público – está no Museu Soares dos Reis, não está na sala de casa da família Pedro Pinto. Já agora, para quem fala de questões de reabilitação, o soalho da expansão da Livraria Lello é soalho de riga velha que esteve na reitoria da Universidade do Porto, que a reitoria arrancou e deitou fora, e que o Pedro Pinto fez questão de comprar e reutilizar na livraria. Os novos escritórios da Livraria Lello são um projeto do arquiteto Nuno Valentim, que é o arquiteto premiado da reabilitação do Mercado do Bolhão, talvez o maior especialista em reabilitação em Portugal, e que está a fazer um trabalho de ourivesaria filigrana na rua da Galeria de Paris, nesse prédio. Portanto, virem falar dos donos da Livraria Lello como destruidores de património é uma coisa que eu, simplesmente, só compreendo se as pessoas ignorarem, ou quiserem ignorar, tudo o que esta família tem feito por esta cidade.


Ainda sobre a Fundação Livraria Lello: quais os detalhes sobre o pedido indeferido e da criação de uma fundação com outro nome?
A Fundação Livraria Lello existe. E está reconhecida em Diário da República. Houve um primeiro processo de pedido de reconhecimento da Fundação Livraria Lello que ficou parado no CEJUR — Centro Jurídico do Estado, durante 18 meses, por razões totalmente alheias à entidade instituidora. O CEJUR reconheceu o erro em reunião comigo. E tivemos de encontrar uma solução. Aquele processo era um processo, digamos, para simplificar, feito à medida, com estatutos elaborados, e que iria levar muito mais tempo a ser apreciado. Ora, como queríamos ter a fundação pronta a trabalhar, por exemplo, para o Babell, em conjunto com o CEJUR, entendemos que a melhor forma era matar aquele processo e criar um novo, com uma figura que é a figura do licenciamento simplificado, com o próprio CEJUR. Então criámos uma segunda fundação, Fundação para a Leitura e o Pensamento Livre, que não se podia chamar Fundação Livraria Lello, porque o processo original ainda não estava cancelado. Quando a Fundação para a Leitura e o Pensamento Livre ficou reconhecida oficialmente, o outro processo foi indeferido e a Fundação para a Leitura e o Pensamento Livre hoje já se chama novamente Fundação Livraria Lello, assim está publicado, e é assim que já estamos a operar e a trabalhar. Para sintetizar, o que aconteceu foi que o Centro Jurídico do Estado demorou demasiado tempo a analisar o processo da fundação original e decidimos criar um atalho, através dessa figura ótima que é uma espécie de empresa na hora, que é uma fundação na hora, que não podia ter o nome Fundação Livraria Lello porque ele estava no outro processo. Portanto, ele foi indeferido. Nós próprios pedimos para indeferir, para podermos usar o nome na fundação que estávamos então a criar. Portanto, é uma situação que não tem nenhum tipo de confusão ou situação estranha associada. Foi provocada por nós.
Falou há pouco do modelo de bilhete-livro, que, no fundo, já estava em vigor na Livraria Lello. Na Lello paga-se um valor para entrar que depois é descontado na compra de um livro. Esse sistema de acesso é para manter?
Só pode. Repare: quando a família Pedro Pinto chega à Livraria Lello, vendiam 70 mil livros por ano na livraria e, se não me engano, havia oito colaboradores. Hoje, vende-se mais de um milhão de livros contra 70 mil e, em vez de oito pessoas, trabalham lá cerca de cem.
É um modelo vencedor?
É um modelo mais do que vencedor. Que era a única forma possível de aquele local continuar a existir. O que acontecia até então é que os anteriores proprietários da livraria se queixavam de que entravam dezenas, centenas de pessoas na livraria, todos os dias, para tirar fotografias, e não compravam nada. Imaginemos o que é sermos donos de um espaço que é vítima da sua própria beleza, onde as pessoas só entram para tirar fotografias e não querem comprar. Desgastam o espaço, o soalho, a escadaria… As pessoas não sabem, mas a escadaria da Livraria Lello é pintada todas as semanas. Entram quatro ou cinco mil pessoas por dia naquela livraria.