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(A) :: A incansável Katy Perry, o festão de Pedro Sampaio e um recinto melhorado: foi assim o primeiro dia do Rock in Rio Lisboa

A incansável Katy Perry, o festão de Pedro Sampaio e um recinto melhorado: foi assim o primeiro dia do Rock in Rio Lisboa

A 11.ª edição do festival arrancou dominada pela pop americana e brasileira. O parque Papa Francisco (com algumas mudanças face a 2024) esgotou e o mesmo vai acontecer este domingo, com Linkin Park.

Andreia Costa
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Diogo Ventura
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20 de junho de 2026, primeiro dia de Rock in Rio Lisboa, esgotado. E, neste caso, a definição “esgotado” equivale — diz a organização — a 100 mil pessoas (das quais 90 mil espectadores), mais 20 mil do que em 2024. Pela segunda vez a acontecer no Parque Papa Francisco, junto ao rio Tejo, na zona oriental de Lisboa, o recinto teve direito a algumas melhorias visíveis logo no primeiro dia do evento (que continua este domingo e dias 27 e 28). Katy Perry e Pedro Sampaio eram os nomes mais esperados e ambos corresponderam, nesta primeira etapa do festival.

Segundo a organização, a área de público aumentou 25 mil metros quadrados nesta 11.ª edição em Portugal, as zonas de restauração aumentaram 30%, as casas de banho (além de haver WC sem género) são mais 40% e isso nota-se. A avenida que anteriormente levava os festivaleiros do Palco Mundo à restauração deixou de estar delimitada com espaços de ativação e casas de banho, o que tornava a zona afunilada e de difícil circulação. Os sanitários que estavam emoldurados pela pala (e que criavam um engarrafamento digno da Segunda Circular) desapareceram. Ali está agora uma torre com um ecrã gigante, uma experiência imersiva sobre formas de “tornar o mundo melhor” e acessos a vários espaços de bastidores, como a sala de imprensa. As portas estão abertas desde as 13h, há filas em todo o lado, mas andar pelo recinto é agora mais fácil. As sombras continuam a não existir — pelo menos as naturais, árvores nem vê-las, mas é sempre possível encontrar um metro quadrado aqui e ali junto a um stand. Ainda assim, há várias mudanças.

Pagamentos digitais e fontes de cerveja

As marcas estão mais espalhadas e muitas parecem ter aumentado de tamanho (como se estivéssemos num jogo de Monopólio e as casinhas verdes tivessem dado lugar ao hotel vermelho), há oferta de bebidas por todo o lado e algumas opções de comida, para quem não precisa de tê-las todas juntas mesmo à frente do nariz.

Este ano, só é possível fazer pagamentos de forma digital e eletrónica (quem levar dinheiro em numerário, tem de o trocar por um cartão na central de atendimento), mas é preciso continuar a trazer paciência, há filas compridas em todo o lado.

Há 100 bebedouros com água potável e beerwalls, que são 40 torneiras onde é possível fazer o refill da bebida. A ideia é escolher o que quer beber, pagar no terminal multibanco e encher o copo na torneira. A questão que se coloca aqui é só uma: sabe tirar uma boa imperial sem encher metade do copo com espuma?

Os mochileiros circulam igualmente pelo recinto para reabastecer e, neste 2026, para recolher lixo. De macacão amarelo e com uma mochila da mesma cor, há um mochileiro pronto para ficar com as suas embalagens de plástico às costas. O mesmo acontece com o cartão, cortesia do colega de azul.

Há coisas que não mudam: a caça aos brindes e o parque de diversões

A roda gigante já faz parte da imagem de marca do festival e continua a dar voltas infinitas, com filas que nunca abrandam. O slide duplo volta a passar mesmo em frente ao Palco Mundo, sobrevoando o público.

Na Cupid House continuam a celebrar-se casamentos, mas a rua onde havia ativações de marcas porta sim, porta sim — e que, mais do que promover o que lá se vendia, era uma imagem de marca do festival — perdeu-se nesta transição para o Parque Papa Francisco.

Resta disso apenas uma memória difusa na forma de uma zona de restauração, com um design muito mais simples do que o das antigas casinhas que seguiam um tema (Brasil, África, etc.). Edifícios brancos com janelas vermelhas, amarelas ou azuis tomam agora conta da arquitetura.

E filas para os brindes? Claro que há: brilhantes para a cara, chapéus que piscam à noite, palas, sacos, há material suficiente para encher uma mochila — ou várias.

A hora de ver a bola

Este ano, como os dias dos concertos coincidem com vários jogos do Mundial de Futebol, foi criado um espaço para transmitir os encontros. Na Arena Música e Futebol há um ecrã gigante, oferta de bebida e comida, e também experiências interativas.

Às 20h, é preciso pausar tudo o que estiver a fazer: os olhos viram-se para o céu para ver The Flight, um espetáculo aéreo com cinco aeronaves Yak-52.

O Parque da Bela Vista continua a deixar saudades

Tinha um anfiteatro natural muito difícil de replicar em qualquer outro espaço, mas o Parque da Bela Vista há muito que rebentava pelas costuras. O espaço do novo parque escolhido para instalar o Palco Mundo não é completamente plano, mas o desnível não é acentuado o suficiente para que a visibilidade seja perfeita. Ainda assim, o segredo é instalar-se nas laterais e, antes dos concertos, passam indicações nos ecrãs gigantes a sugerir isso mesmo. Primeiro, há menos gente; segundo, a inclinação é maior. Além disso, o palco parece estar mais elevado este ano, o que faz com que a experiência seja bem mais agradável para todos.

Palavras de amor de São Tomé e Príncipe e um festão do Brasil

Atuar às 17h debaixo de 30 graus pode ser uma tarefa ingrata — para quem canta e para quem tem a tentação óbvia de procurar um sítio para se abrigar —, mas os Calema contrariam expectativas e é impossível chegar muito perto do Palco Mundo logo no primeiro concerto do dia. Com temas como A Nossa Vez, Onde Anda e Te Amo, os irmãos são-tomenses António e Fradique criam uma espécie de onda humana que vai puxando cada vez mais pessoas, envolvendo o Palco Mundo com muito mais gente do que é comum àquela hora.

Duas horas depois, estão no ar os leques amarelos, que começam a abrir e a fechar, marcando o ritmo para a entrada de um nome que toda a gente sabe em quantas sílabas se divide: “Pe-dro Sam-paio”. Fumo amarelo, confetti e “oh, DJ, mete um funk nessa po**a”! Que comece a festa com Pocpoc, No Chão Novinha e Galopa.

O palco está ocupado por uma pirâmide com vários níveis. Num deles estão os pratos de DJ, mas Pedro Sampaio, todo de preto vestido (incluindo óculos de sol), passa pouco tempo aí. “Eu sou o Pedro Sampaio do Brasil e é um prazer estar com vocês aqui, em Portugal”, diz.

À volta dele há uma trupe que dança e faz cambalhotas. Não há espaços por ocupar, não há momentos mortos. “Abraça quem tá do seu lado”, pede, e o público cumpre. Aliás, cumpre tudo o que ele pede e o que não pede. A festa é feita de um diálogo constante entre quem está em cima do palco e à frente do dito — e é assim durante uma hora inteira.

Nos leques amarelos lê-se “brazilian chaos e Pedro Sampaio” e há bandeiras com a mesma mensagem que vão circulando pelo palco. Pedro Sampaio acompanha coreografias, salta para cima do balcão, canta e desencadeia uma gritaria que é provável que chegue a Alcochete, do outro lado do Tejo. Isto porque se coloca de lado, flete um pouco as pernas e estica os braços. “É o cavalinho!”, grita alguém. “Também pode ser o jet ski”, contrapõe outra pessoa. Confirma-se, primeiro vamos à água com Jet Ski e a cantora Melody, que surge de capacete no topo da pirâmide.

Em Dançarina, Sampaio usa uma bandeira portuguesa pelas costas, mas está tudo à espera para montar o Cavalinho, que chega às 19h52. É impossível jurar que este cavalinho é o maior de sempre, mas pelo menos foi isso que ele desejou.

https://twitter.com/sampaiers/status/2068460662515261873

Há dois anos, Pedro Sampaio arrastou uma multidão para o palco secundário, sendo agora promovido para o principal. É o segundo nome do alinhamento, atuando às 19h, mas vai certamente ser promovido para cantar mais tarde, ali mesmo (fica aqui feita a futurologia ou a sugestão).

Aos concertos do Palco Mundo podem assistir 100 mil pessoas, enquanto no Music Valley há espaço para 60 mil. Depois de Maninho e Nena, a cantora Audrey Nuna atrai curiosidade — sobretudo por dar voz à personagem Mira da banda Huntr/x no filme Guerreiras do K-Pop. A seguir a ela, Alok muda as agulhas para música eletrónica e puxa pelo público já depois da 1h e do fim do concerto de Katy Perry. O percurso até à saída faz-se por aqui e, por isso, há muita gente que vai ficando.

O Palco Super Bock abre dominado por temas em português, graças a Napa e a Bárbara Bandeira. Tanto esta última como Bebe Rexha conseguem juntar uma massa considerável de fãs, que cantam tão alto que é possível ouvi-los noutras extremidades do recinto.

O “nerd” cativante e a humana frenética

“Viemos de longe para vos vermos e todos os segundos valeram a pena”, diz o americano Charlie Puth.

De camisa verde de manga curta, calças de ganga, gravata e boné branco e vermelho, parece o garoto bem comportado a quem deram permissão para brincar no palco principal entre concertos. Porém, quando Charlie Puth canta, não há uma nota fora do sítio e é isso que quem está ali quer comprovar.

We don’t talk anymore é das que mais cativa o público, mas há também Attention e See You Again. A julgar pela aula de simpatia que deu, Puth pode voltar quando quiser, os portugueses vão querer vê-lo de novo.

Pelas 23h07 o já tradicional fogo de artifício ocupa o céu, com a ponte Vasco da Gama como pano de fundo. Com mensagens de paz e amor nos ecrãs, o medley de cinco minutos vai de Queen a Post Malone e está agora mais dinâmico e atual.

Seis minutos após a hora marcada, Katy Perry chega transportada pelos dançarinos em tronco nu e com músculos propositadamente exagerados. Do cenário fazem parte um portátil, bananas e uma garrafa de plástico — tudo em ponto grande.

https://twitter.com/KatyCatsChile/status/2068507098095255847

Na camisa branca da cantora pode ler-se “I am not a robot [não sou um robot]”, enquanto nas costas está gravada a palavra “human [humana]”. Ao pescoço exibe uma gravata brilhante com a bandeira dos EUA. Este concerto tem um conceito bem definido e, segundo a cantora, é apenas a segunda vez que está a concretizá-lo ao vivo.

Na narrativa, os telefones, a Internet e a Inteligência Artificial estão a dominar a vida de Perry (ou a nossa, fazendo certamente uma comparação fácil), mas ela quer mostrar que é ela que manda na máquina e não ao contrário.

California Gurls, Teenage Dream e Last Friday Night (T.G.I.F.) sucedem-se, mostrando que estão ali os fãs que conhecem todo o repertório.

“Olá! Cuspi num tubo que disse que era 24% portuguesa. O meu tetravô [Trisavô Francisco Pereira da Silveira] era de Ponta Delgada, São Miguel.” Estão feitas as apresentações com a quase obrigatória ligação portuguesa ao mundo e seguem-se temas como Chained to the Rhythm e Never Really Over.

https://twitter.com/norseejj/status/2068463358798438708

Os bailarinos são agora astronautas e sobem ao palco com uma bandeira de Portugal, antes de começarem a ecoar Dark Horse, E.T. e Part of Me.

Katy Perry grita bastante quando fala, faz um jogo com o público e quebra por vezes o ritmo com a escolha dos temas. Dá três canções conhecidas para duas das quais ninguém parece querer muito saber e, quando os ponteiros do relógio já ultrapassam as 00h, isso pesa na decisão de ouvir mais uma ou ir embora. Nem toda a gente fica até ao fim, vão-se criando clareiras no meio do público, mas o que é inegável é o facto de Katy Perry ter uma energia fenomenal. A mulher canta, salta, corre e os momentos de pausa não vão além de alguns segundos para beber água.

Além disso, repesca o fato de calções e soutien que usou em Portugal há 18 anos (e que quer agora leiloar para reverter para a fundação dela) e mergulha dentro de uma garrafa de água gigante que rebola pelos braços do público — sim, ela continua lá dentro a cantar.

Legendary Lovers, The One That Got Away e I Kissed a Girl transformam o público num coro e Roar é servido numa versão diferente: mais calma e quase sem instrumentos, é assim que Katy Perry quer partilhá-la. “Perdi-o [o rugido] só durante um segundo, mas está de volta. Vou cantá-lo para vocês, mas de maneira diferente.”

Nos ecrãs vão passando mensagens de incentivo, como “não sejas um ‘escolhe-me’, escolhe-te a ti próprio”, uma mensagem de confiança e amor próprio que a cantora está empenhada em fazer passar desde o início do concerto.

Chegados ao fim, não é preciso puxar muito por Katy Perry para que ela regresse ao palco para um último tema. De um frasco gigante de protetor (mais um dos adereços em formato XXL, ao lado de um computador, bananas, um telemóvel e a já referida garrafa de água) retira creme com que besunta a cara e o resto da embalagem é oferecido ao público, sob a forma de espuma. Tal como em 2018, quando atuou no RiR, Katy Perry adora divertir-se (di-lo várias vezes durante a noite) e é com Firework que se despede, após 1h41 de um espetáculo incansável. “Às vezes a vida não é divertida, portanto temos de nos divertir agora”, diz Katy Perry — do lado de cá, parece não ser uma má ideia.