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(A) :: O mar já não existe

O mar já não existe

Acontece que o livro do Apocalipse diz que na eternidade “o mar já não existe”. Se queremos o paraíso, como é que ele pode dispensar a maravilha que a praia é?

Tiago de Oliveira Cavaco
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Se há frase de que não gosto na Bíblia é esta do Apocalipse em relação ao futuro: “e o mar já não existe”. A minha história com o mar é complicada. Ao crescer não tinha grandes alternativas ao que era o normal para as férias de Verão de uma família portuguesa nos anos 80: muita praia. Podia ser a mais próxima, como Carcavelos ou a Costa da Caparica, ou a mais distante, como o Algarve ou o litoral alentejano. Como a Sara, a minha irmã gémea, era mais atlética do que eu (no fundo, o rapaz que o meu pai nunca teve), na praia era um miúdo enjoado, sem a coragem de furar pelas ondas do mar a dentro como ela fazia com o meu pai (merecendo até o apito censor dos nadadores-salvadores). Quando cheguei à adolescência, a única praia que tolerava era a que ia com os meus amigos. Ia à praia pelos outros, não por mim.

Quando comecei a namorar com a Ana Rute, ela era o contrário: adorava a praia e ficava preta. Eu, até depois de casados, tolerava mas sempre a resmungar, a estragar-lhe a fruição natural do tempo e do espaço. Até que tudo mudou aí por volta dos meus trinta e pouco, sobretudo à custa da música. Na altura bandas como os Vampire Weekend faziam um rock viçoso mas com imaginário veraneante. Mais: outras bandas juntavam-se à moda e exploravam sons da nostalgia ocidental infantil, sempre recheada de verões na praia. De repente, dei por mim a voltar a um passado que me sugeria sensações familiares e certamente sublimadas pela distância. Como tendo a ser de extremos, passei de suportar a praia para achar que se havia futuro, ela tinha-o todo.

Isso trouxe um problema: o vitiligo da Rute estava a alastrar e a praia tornou-se tristemente árdua para ela. Vivíamos em percursos divergentes: eu só queria praia e ela procurava as alternativas que a aliviavam dos sarilhos que o sol lhe infligia. Ainda hoje andamos à procura do equilíbrio conjugal. A minha mulher, como não é uma pessoa qualquer, buscou tratamentos e técnicas eficazes para continuarmos a fazer férias de praia. Eu sinto-me feliz e culpado. Feliz porque nada para mim se compara com a beleza da praia, culpado por não ter ainda o devido espírito de sacrifício e aventura para me satisfazer noutros cenários. Aos 48 anos estou cada vez mais agarrado aos confortos do previsível, constantemente hesitante para mudar o que já me alegra.

Podemos adicionar a isto outro facto feliz: vivemos perto da praia. Em 20 minutos a pé estamos na de Santo Amaro, em 30 estamos em Carcavelos. Eu e a Rute tiramos proveito disto o ano inteiro. Corro três vezes por semana para Santo Amaro, mergulhando, novamente, durante o ano inteiro. A Rute mergulha nos nossos passeios a Carcavelos durante quase todo o ano—a excepção é durante o Inverno. Esta proximidade da praia faz de nós um casal que não se relaciona com o mar apenas no Verão. Temos o mar para nós praticamente sempre. É verdade que fazemos dias de praia propriamente ditos apenas quando saímos de férias no Verão. Mas a praia nunca nos falha. Somos muito abençoados.

Acontece que o livro do Apocalipse diz que na eternidade “o mar já não existe”. Se queremos o paraíso, como é que ele pode dispensar a maravilha que a praia é? Este texto é o que em toda a Bíblia mais triste me deixa. Mas depois estudamo-lo um pouco. Há um alívio: os teólogos explicam que o mar já não existir na Nova Jerusalém tem menos a ver com água e mais a ver com maldade. Quando a pessoa lê o Velho Testamento, as águas aparecem como abismos, como lugares das trevas. Isso acontece no Velho Testamento e um pouco por toda a literatura antiga. Quando se chega ao Apocalipse até os maiores bandidos como o Diabo, o Anticristo e todo o restante império satânico tendem a ser descritos como monstros marítimos. O que nos deixa a esperança, afinal, de que o paraíso não seja anti-praia.

Depois de tanta desgraça que o livro do Apocalipse nos mostra, finalmente um de sete anjos que tinham sete taças cheias com sete pragas fala com o apóstolo João para ele ver o futuro em forma de uma noiva que é também uma cidade: a Nova Jerusalém. A descrição do lugar é uma mistura de arquitectura com êxtase religioso através do uso abundante de pedras preciosas. A qualidade do lugar é tal que não há nem Templo, nem sol, nem lua porque a presença de Jesus substitui isso tudo. Temos uma tendência de achar que o nosso melhor é o melhor que nos pode acontecer. Para quem, como eu, adore praia, não haver mar parece que estraga o paraíso. Mas o ponto do alto do Apocalipse não é as pessoas irem para o céu mas o céu vir às pessoas. Não é o nosso melhor que mede a eternidade mas é o melhor de Deus, que vai acima do nosso melhor, que vem até nós.

A minha fé cristã também é acreditar que estar com Jesus vai ser ainda melhor do que o meu muito amor pela praia. Tenho esperança de que o meu rosto perto do rosto dele fique até mais bronzeado.