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(A) :: Quando a CGTP se emocionou com Ventura

Quando a CGTP se emocionou com Ventura

Imprudente, a esquerda não percebeu que foi o Chega quem chumbou a reforma laboral; não foi ela. Quem fica com os créditos é o Chega; não é ela. Quem vai ficar com os votos será o Chega; não será ela

André Abrantes Amaral
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Na última sexta-feira André Ventura completou o círculo que iniciou em 2019. Há 7 anos, Ventura apresentou-se como um populista de direita que usou um discurso extremista para chamar a atenção. Conseguiu e foi eleito deputado, apenas seis meses depois da fundação do seu partido. A partir daí começou a entrar em certos sectores do eleitorado da direita tradicional. Foi quando atacou forte e feio o CDS e o apelidou de “direita mariquinhas”. Desaparecido o CDS, Ventura virou-se para a esquerda. Para os funcionários públicos e para os pensionistas até chegar aos 60 deputados, conforme mencionei há três semanas neste espaço.

Com o chumbo da reforma laboral, Ventura lançou uma verdadeira OPA ao eleitorado da esquerda. Todo ele, desde o PCP e o Bloco ao PS passando pelo Livre. Imprudentes como são, nenhum percebeu que foi o Chega quem chumbou a reforma laboral; não foram eles. Quem fica com os créditos é o Chega; não são eles. Quem vai ficar com os votos será o Chega; não serão eles. Através desta oferta pública de aquisição, Ventura visa conquistar este eleitorado tão necessário para vencer as próximas legislativas.

Perceber por que o fez é indispensável para que se compreenda como é que Ventura funciona e como é que agirá se alguma vez for governo. Desde 2022 que Ventura percebeu que não tinha muito mais espaço à direita para crescer. Os resultados de 2024 e 2025 foram à custa do PS, mas não foram suficientes para ganhar. Para ser primeiro-ministro, Ventura precisa de juntar ao que já tem o eleitorado mais esquerda. O chumbo da reforma laboral é uma tentativa disso mesmo. Uma jogada que esse eleitorado compreendeu porque ouviu muito bem o que Ventura lhes disse e viu muito bem tudo o que ele está disposto a fazer. A reforma laboral foi chumbada porque Ventura quis. Uma verdade que o eleitorado de esquerda que queria o chumbo não esquece.

É com este eleitorado de esquerda (que pretende juntar ao que já tem) que Ventura conta vencer as próximas legislativas e tornar-se primeiro-ministro. Atenção que não estou a dizer que vai acontecer, mas a escrever que é esta a estratégia. Se vai correr bem ou mal, isso o tempo nos dirá.

Perante este cenário há quem possa considerar que uma passagem de Ventura pelo governo é a solução para que o país ultrapasse esta onda de populismo de direita. A ideia seria as pessoas desiludirem-se com Ventura quando este tiver de fazer escolhas difíceis e impopulares. Puro engano. Caso seja governo, dificilmente Ventura largará o poder. Não porque vá pôr em causa a democracia, que não vai. Mas porque continuará no governo a comportar-se da mesma maneira que na oposição. Se na oposição está sempre contra alguém, no governo contra alguém vai estar sempre. Permanentemente à procura de um alvo, de um culpado, de alguém em cima de quem possa despejar as culpas e as responsabilidades dos males que assolem a vida das pessoas. A táctica do bode expiatório funcionou para dividir o país e passará a funcionar para unir o país. Na oposição dividiu com vista à conquista do reino; no governo unirá contra alguém que não o deixe reinar em paz.

É pouco provável que Ventura ponha em causa a democracia se alguma vez chegar ao governo. Se tal vier a acontecer não será por ele, mas porque as condições o convidam e os tempos o aceitam. O cenário mais verosímil será a utilização das regras democráticas a favor da sua manutenção no governo por via da dramatização a que já nos habituou. O eleitorado, esse, desejoso de segurança não terá dificuldades em fechar os olhos. Enquanto isto, o líder da CGTP emocionou-se nas galerias do Parlamento com o chumbo da reforma laboral e os partidos de esquerda, todos eles, aplaudiram eufóricos.

Não estivesse em causa o nosso destino e esta história tinha todos os ingredientes para nos fazer rir.