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(A) :: Um panzer para espantar serpentes e caçar os Elefantes (a crónica do Alemanha-Costa do Marfim)

Um panzer para espantar serpentes e caçar os Elefantes (a crónica do Alemanha-Costa do Marfim)

Nagelsmann andou entre a crença e a teimosia ao não desfazer ideia tática que pedia outra presença na área mas Undav entrou para mudar a história do jogo – e a história nos Mundiais recentes (2-1).

Bruno Roseiro
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Fun fact logo a abrir: por mais inusitado que pudesse parecer, a Alemanha, que começou este Mundial a todo o vapor a passar a ferro a frágil formação do Curaçau, podia carimbar em Toronto a primeira passagem à fase a eliminar de um Campeonato do Mundo desde 2014, aquele ano em que ficou ao pé da praia na Bahia mas saiu do Brasil com o título debaixo do braço. Em 2018, correu mal. Em 2022, correu ainda pior. Agora, 2026, não havia margem para nada que não fosse correr bem, bem e bem. Até porque, se deixarmos de parte as serpentes venenosas que andam a rondar o centro de estágios da Mannschaft, a equipa de Julian Nagelsmann tinha todas as condições para prosseguir a história que começou a ser reescrita ao longo do último Europeu (que ficou pelos quartos), com a afirmação de uma nova geração que chegou para ficar.

https://observador.pt/2026/06/14/a-goleada-cheia-de-cabeca-contra-quem-so-tem-curacau-a-cronica-do-alemanha-curacau/

Ainda assim, de Nagelsmann aos jogadores, todos sabiam que a estreia com o Curaçau tinha mais parecenças com um último jogo-treino do que com uma estreia de Mundial, seguindo-se a primeira de duas das zebras que quem gosta de futebol coloca logo a seguir à Noruega, ao Japão e a Marrocos como possíveis surpresas neste Mundial: Costa do Marfim e Equador. Mais: o próximo adversário era mesmo o conjunto africano, que venceu nos derradeiros minutos os sul-americanos e deu um passo fulcral para o apuramento com esses três pontos antes do jogo mais complicado que antecedia uma partida teoricamente acessível com Curaçau. E se a evolução marroquina tem sido falada nos últimos dias, o “planeamento” marfinense não passou ao lado.

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Sem que nada o fizesse prever, Emerse Faé mudou metade da equipa em relação ao onze que tinha jogado (e bem) com o Equador. Figuras como Yan Diomandé e Kessié ficaram para segurar as caras novas mas Guéla Doué, o ex-portista Seko Fofana, Bazoumana Touré, Nicolas Pépé ou Elye Wahi ficaram agora no banco, com oportunidades para Kossounou, Ibrahim Sangaré, Christ Inao Oulaï, Amad Diallo e Ange-Yoan Bonny. Num plano teórico, a ideia era clara: guardar alguns elementos para a partida decisiva com Curaçau e ter sangue novo caso a partida com a Alemanha continuasse equilibrada. Pensando mais à frente, Emerse Faé sabia que essa rotação seria fulcral para uma competição que à partida teria pelo menos quatro jogos dentro de uma identidade de jogo muito física, em força e com velocidade. Mas “poupar” não era sinal de facilitar.

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Foi essa a imagem inicial da Costa do Marfim no jogo. A pressão alta da Alemanha conseguia muitas vezes condicionar a saída dos africanos mas a estratégia era clara e chegava à paragem para hidratação com quase todos os objetivos cumpridos: não sofrer, explorar as transições com Yan Diomandé, manter o encontro em aberto. Kai Havertz, que fez o primeiro remate logo na bola de saída, teve um grande cabeceamento na área após cruzamento de Kimmich para defesa de Yahia Fofana (10′), Musiala tentou a meia distância em jeito que saiu ao lado (18′), Nmecha teve um tiro que rasou a trave (21′), Pavlovic marcou de canto num lance que seria invalidado por falta sobre o guarda-redes (22′). Tentaram muito, tiveram pouco, acabaram sem nada.

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Pouco depois dessa pausa, a Costa do Marfim teve o primeiro remate enquadrado com a baliza e inaugurou o marcador. O banco germânico ainda tentava perceber se Nico Schlotterbeck tinha condições para prosseguir ou se ia dar lugar a Rüdiger quando Yan Diomandé teve mais uma arrancada pela esquerda, cruzou rasteiro com a bola a atravessar toda a área, Amad Diallo viu o desvio ao segundo poste cortado por Nathaniel Brown mas Kessié, na recarga, fez mesmo o 1-0 (29′). A partir daí, e até ao intervalo, o jogo abriu ainda mais. Bonny ainda teve um remate em jeito para as mãos de Manuel Neuer (37′), Kai Havertz viu mais um golo anulado por uma falta clara de Musiala no início da jogada (38′) e o intervalo aproximava-se com a formação africana a ter períodos com mais posse para tentar conservar a vantagem de 1-0 até ao descanso.

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A Alemanha tinha um problema entre mãos, tendo em conta que, nos últimos dez jogos do Mundial em que sofreu primeiro, apenas tinha conseguido ganhar um (e perdera sete). E, com o passar dos minutos, era um problema cada vez maior: quem pensava que a Mannschaft poderia entrar a asfixiar a Costa do Marfim até marcar estava redondamente enganado, com Nagelsmann a lançar Undav, Amiri e Leweling para a última meia hora numa fase em que até eram os africanos a chegar mais vezes ao último terço. Foi do banco que chegou o crédito para algo mais no jogo: numa das raras vezes em que os alemães saíram sem uma pressão imediata, Amiri cruzou largo para a área e Undav, de primeira, fez o empate (68′). Houve depois um período de quebra física antes de minutos finais a todo o gás com oportunidades nas duas áreas mas o resultado só voltaria a mexer no quarto minuto de descontos, com um passe fabuloso de Nmecha a isolar Undav para o bis que fez a reviravolta. Sobrou o aviso da Costa do Marfim, sobrou um aviso para a Alemanha…

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A estrela

  • Não tem o tamanho do ainda “encostado” Woltemade, não tem a técnica de Kai Havertz, está a tornar-se uma daquelas figuras que, quando é necessário algo mais, sai do banco e apresenta resultados. Depois de uma grande época no Estugarda (25 golos e 14 assistências em 45 jogos, só superado pelos 27 golos e 12 assistências no Union Saint-Gilloise por empréstimo do Brighton em 2021/22), Deniz Undav vestiu a pele de panzer alemão e voltou a marcar saído do banco, melhorando e muito aquilo que era o jogo dos germânicos na área e marcando nas duas oportunidades que teve, primeiro a encostar de primeira e depois a rodar antes do remate. Pode demorar mais ou menos mas a hipótese de Nagelsmann abdicar de Musiala ou Havertz para apostar no avançado de início parece estar cada vez mais em cima da mesa…

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O joker

  • Frank Kessié teria de ser um jogador em destaque – e não apenas pelo golo. As substituições dos marfinenses demoraram mas o grande segredo para a resistência dos Elefantes foi a condição física do médio que joga nos sauditas do Al Ahli, que enquanto teve pilhas conseguiu segurar a equipa e foi o ponto de equilíbrio e liderança entre setores. No entanto, há outro nome que não pode passar ao lado daquilo que foi a história do jogo: Nmecha. Fazer um passe a 20 metros entre um sem-número de pernas adversárias em período de descontos só está ao alcance de jogadores acima da média.

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A sentença

  • Com o triunfo nos descontos, a Alemanha garantiu finalmente a passagem à fase a eliminar do Mundial, algo que não acontecia desde 2014. Mais: mesmo que o Equador vença Curaçau, os alemães entram na última jornada com os sul-americanos a necessitarem apenas de um empate para ficarem no primeiro lugar do grupo E. Já a Costa do Marfim, apesar da frustração da derrota nos instantes finais, continua a depender apenas de si para passar na segunda posição, necessitando de ganhar a Curaçau.

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A mentira

  • Existe uma espécie de chavão quando se analisa antes das grandes competições as equipas africanas: têm “falta de organização”, da parte logística à disciplina tática, passando pelos “choques” que vão sendo públicos entre dirigentes e jogadores. Ainda este sábado, as notícias davam conta de problemas com o Senegal, das alegadas más condições da unidade hoteleira onde estão alojados ao facto de o selecionador não ter contrato há cinco meses. Se Marrocos já está num patamar acima, a Costa do Marfim mostrou que também está num bom caminho: ganhou a “guerra” para Elye Wahi entrar no Canadá, percebeu os terrenos que pisava no grupo E, rodou a equipa mantendo uma fantástica organização tática e mostrou que, mesmo sem ter uma referência como era Didier Drogba (que chegou a pagar hotéis para que os companheiros tivessem todas as condições), continua a crescer a este nível.

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