Temos um percurso feito, mas estamos aqui, sobretudo, para tratar daquilo que ainda vamos fazer. Chegamos aqui unidos e, tenho a certeza, vamos sair daqui ainda mais coesos. Quero desejar que possam fazer uma discussão livre, uma discussão aberta, com sentido crítico, com sentido construtivo e, como é timbre e apanágio do PSD, sempre a pensar nas pessoas.
Não é por acaso que Luís Montenegro arranca este congresso com uma mensagem de “união” e de “coesão” para dentro de portas. Nos últimos meses, o primeiro-ministro tem ouvido recados crescentemente arrasadores da parte do antigo aliado Pedro Passos Coelho (de críticas por falta de reformismo à insinuação de que Montenegro se comporta como um “prostituto político”), o que naturalmente agita o partido. Montenegro lançou o desafio a Passos para que então assumisse a oposição à sua liderança e se candidatasse no congresso, mas, como seria previsível, não teve sucesso. E a sombra não desapareceu. Sabendo que as críticas sobre as reformas que tardam em aparecer são partilhadas por muitos outros dirigentes e militantes, gerando até comparações com a governação de António Costa, Montenegro pede que os sociais democratas se mantenham unidos. Mais à frente, deixará a garantia de que não está preocupado com o seu futuro político em particular.
Caros congressistas, este Portugal está a acontecer. Tudo isto está em execução. Este Portugal não está igual e não vai ser o mesmo que encontramos há dois anos atrás. Estamos mesmo a trabalhar para fazer Portugal maior. Um Portugal moderno, arejado e arrojado, credível e atrativo. Um Portugal solidário entre gerações e entre regiões. Esta transformação, este reformismo está a acontecer.
A garantia de que um Portugal mais moderno e arrojado “está a acontecer” pode fazer lembrar a gafe que persegue o primeiro-ministro, que quando era líder parlamentar, nos tempos da troika, garantiu que o país estava melhor — a vida dos portugueses é que não. Agora, Montenegro sente necessidade de assegurar que as mudanças estão mesmo em marcha, numa altura em que é frequentemente acusado de estar apenas a gerir o dia a dia (de novo, Passos ao ataque) e de não fazer reformas de fundo. Pelo menos, daquelas que se fazem sentir mesmo na vida da população. Ainda na sexta-feira a reforma laboral, uma das principais bandeiras deste Governo, ruiu às mãos do Chega. O caminho para Montenegro conseguir apresentar trabalho e resultados concretos tornou-se mais estreito. E o PSD sabe que, por muito que as estatísticas económicas animem o Governo, os portugueses continuam a queixar-se quando vão ao supermercado ou abastecem o carro.
Nós respondemos com trabalho ao ruído, ao ressentimento, ao imobilismo e à falta de coragem. São tantos os que reclamam que mude tudo, mas verdadeiramente desejam que tudo fique na mesma. Como ainda ontem se viu com especial nitidez, as oposições vibram com a politiquice e destratam a mudança. Falta-lhes a coragem, falta-lhes a firmeza e o sentido de responsabilidade. Para dizer mal de tudo ou bloquear soluções não é preciso ter grande coragem. Para ser teleguiado por comentadores-mentores ou pelas tendências das redes sociais também não é preciso ter grande coragem.
Montenegro entra rapidamente no tema que é o elefante no Velódromo Nacional onde acontece este congresso: o chumbo da reforma laboral, contra todas as expectativas que André Ventura tinha criado. É o início da narrativa das forças de bloqueio, como lhes chamava Cavaco Silva, mentor de Montenegro: o Governo quer trabalhar, mas a oposição não deixa e dedica-se a sabotá-lo, “bloqueando soluções”. E volta à acusação que deixou a André Ventura, após o balde de água fria que lançou sobre o PSD na votação da reforma laboral: está a ceder à pressão dos comentadores e das redes sociais. Não será só essa a explicação: todas as sondagens têm indicado que o pacote do Governo é impopular — e para o Chega, que há muito quer seduzir o eleitorado dos trabalhadores normalmente associado à esquerda (chegou a prometer a criação de uma central sindical que nunca apareceu), foi crucial manter essa faixa eleitoral como prioridade. Montenegro mantém a sua versão: o PSD é a única força capaz de negociar, mudar e fazer reformas. Mas também não faltam críticas ao Governo pela forma como negociou e comunicou a sua reforma, que começou logo pela polémica das restrições nas regras para mães que amamentam — e nunca se endireitou. Nesta parte do discurso Montenegro lança ainda um recado dirigido a Ventura: não está disponível para “hipotecar o futuro”, reafirma, depois de o Chega ter colocado a diminuição da idade da reforma como linha vermelha nestas negociações.
O povo escolheu duas vezes a liderança do Governo. O povo disse que queria o atual primeiro-ministro, queria o programa da AD, mas também queria que o Governo dialogasse e negociasse(…) Os segundo e terceiro partidos, um teve mais votos e o outro teve mais mandatos na Assembleia da República. Isto é que é verdadeiramente um empate técnico. E foi o povo que deu aos dois igual nível de responsabilidade. O povo disse que os dois devem contribuir e dialogar com o Governo e caberá em cada momento, em cada matéria específica, a encontrar os pontos de contacto com a força vencedora.
Tem sido uma das principais discussões à volta da governação de Montenegro, que assumiu o “não é não” ao Chega — um “não” a acordos de fundo, não a discussões de dossiês pontuais — mas é cada vez mais acusado de se aproximar mais do partido de André Ventura. Na moção que aqui apresenta, Montenegro deixava duas ideias sobre a sua política de (não) alianças: é um absurdo colocar “cercas sanitárias”; e o “não” ao Chega é igual ao que impõe ao bloco central com o PS. Aqui, reafirma a sua estratégia, que tem definido como “planar” entre a esquerda e a direita: põe as duas oposições no mesmo patamar e faz equivaler as negociações com ambos, sem privilegiar nenhum. Montenegro continua a querer negociar dossiê a dossiê, sem compromissos a longo prazo (Passos chegou a defender que deveria ter procurado esse entendimento com Chega e IL). Pelo menos, até concluir definitivamente, como pode vir a acontecer, que a oposição não o deixa cumprir o seu programa — afinal, Montenegro admitiu que o sonho de chegar à maioria absoluta continua vivo. Aliás, neste trecho do discurso nota que o PS e o Chega se juntam mais vezes para contrariarem o Governo — como acontecia na véspera, com o chumbo da reforma laboral — do que para o ajudarem a aprovar medidas.
Vamos assistindo à afirmação de uma tendência, em particular do Partido Socialista, que tem como pano de fundo o seguinte: não estamos disponíveis para aprovar nada com o Governo, simulamos em palavras e em cartas o espírito construtivo da nossa ação política e assim vamos obrigar a AD e o Governo a negociar exclusivamente com o Chega. E com esta atitude pretendo o PS depois dizer: eles estão juntos, eles são uma linha conjunta e nós somos a alternativa. E claro, também aqui se mobilizam logo os comentadores mentores do PS que não querem outra coisa que não o fracasso do Governo a virem proclamar, muitas vezes até com um tom compungido: isto é o fim do PSD.
Curiosamente, e apesar de Ventura ter recuado numa reforma tão importante para o Governo ainda na véspera, Montenegro dedica as críticas mais violentas ao PS, garantindo que o partido está apostado em juntar AD e Chega no mesmo saco para capitalizar junto do eleitorado de centro. Segundo Montenegro, até é isso que leva a que o PSD se veja “obrigado” a negociar com mais frequência com o Chega. José Luís Carneiro mandou várias cartas com propostas a Montenegro, como este refere aqui, e estas ficaram sem resposta; agora, o primeiro-ministro diz que tudo isso não passava de uma simulação de vontade de negociar por parte do PS, que cedo se pôs de fora das negociações laborais. A prova de que este discurso do PS sobre o papão de uma AD aliada ao Chega pode resultar será a maioria absoluta conquistada por António Costa em 2022, depois de ter insistido nesse discurso, com Rui Rio como alvo. Montenegro está consciente desse perigo e acautela-se: é preciso estar atento a esta “política manhosa” feita por quem, no PS, na verdade deseja ver o partido ser engolido por André Ventura.
Por isso eu quero dizer-vos que no PSD sabemos ouvir a sociedade, escutamos com humildade aqueles que são os verdadeiros sinais da sociedade e dos cidadãos comuns. E os sinais da sociedade e dos cidadãos comuns estão muito longe, muitas vezes, dos sinais que alguns, por terem mais espaço mediático, querem representar sem legitimidade em nome das pessoas. Quero, portanto, dizer-vos que este comportamento é denunciado, é compreendido e está a ser avaliado.
Esta argumentação é um clássico de Montenegro e da sua equipa: sempre desconfiado da chamada bolha político-mediática, o primeiro-ministro tenta falar sem intermediação e garantir que percebe o que as pessoas comuns sentem. É de resto frequente, em contactos com elementos do PSD e do Governo, ouvirem-se respostas sobre como as prioridades mediáticas estão longe do sentimento popular. E Montenegro não é exatamente o primeiro-ministro com maior vontade de falar com a imprensa, como se pode constatar pelas raras entrevistas que dá e pelas poucas perguntas a que costuma responder quando faz declarações a partir de São Bento, por exemplo. Aqui, Montenegro tenta que o partido não se deixe influenciar pelas críticas que o comentariado e a opinião publicada vai fazendo à ação do PSD, garantindo que está atento a esse “comportamento” e que as figuras mediáticas não representam a vontade das pessoas. Desvalorizadas no PSD são também as sondagens que mostram o partido em queda — nestas alturas, há sempre quem lembre que as sondagens mudam radicalmente consoante o momento em que são feitas e a aproximação de eleições.
Aquele outro comportamento que se inspira na agitação permanente, na irresponsabilidade, quando não, muitas vezes, na imaturidade. Em ambas as circunstâncias, o que nós temos visto é permeabilidade aos interesses pessoais, aos interesses de determinados segmentos e não a preocupação com o interesse nacional. Nós governamos com sentido estratégico. Nós não governamos por causa das eleições, mas a causa de ganharmos eleições é governarmos bem. Nós não somos os donos da verdade, mas nós temos a obrigação de executar o nosso compromisso.
Sem nunca chamar o Chega pelo nome, Montenegro repete a caracterização que na moção escrita colava ao partido: chamava-lhe “imaturidade chegana”, agora fala em agitação, irresponsabilidade e imaturidade. Não dá, por agora, mais atenção ao partido de André Ventura, mas serve-lhe para defender que os dois maiores partidos da oposição são permeáveis aos “interesses de determinados segmentos”. É a essas pressões que o PSD atribui a queda da reforma laboral, assegurando que, mesmo que não seja “dono da verdade”, é no fundo o único partido firme e que consegue tomar decisões sem se basear apenas na sua popularidade imediata. Hugo Soares defendia, aliás, na sequência do chumbo do pacote que essas cedências fazem com que o Chega não tenha “estofo” para governar. Por comparação, o PSD quer ser visto como o partido mais previsível, fiável e convicto da sua visão para o país.