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Pastoral summit: a Igreja … eppur si muove!

A identificação com Cristo não se pode fazer à margem da Igreja, nem da identificação pessoal com a sua doutrina e vida.

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
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Diz a lenda que Galileu, quando se viu obrigado a desistir da sua tese heliocentrista, teria dito: “eppur si muove!”. Isto é: no entanto, a Terra move-se! O cientista italiano tinha razão, apesar de não ter sido capaz de o provar cientificamente. Desde então, embora a expressão não seja histórica, usa-se para significar a força da verdade, mesmo quando não é reconhecida.

Tão certo como a Terra girar à volta do Sol, a Igreja está viva e activa, sobretudo entre os jovens. De facto, de 12 a 14 deste mês, teve lugar na Lourinhã a Pastoral Summit, uma cimeira eclesial subordinada ao lema “Pensar os desafios, discernir caminhos, lançar o futuro”. Este encontro, em que participaram várias centenas de fiéis, contou com a presença do Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, dois dos seus Bispos auxiliares, para além de outras personalidades, como o Dr. Miguel Morgado, do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, e o Dr. Paulo Portas, ex-vice-primeiro-ministro e líder do CDS/PP.

Curiosamente, a comunicação social de referência não esteve presente, nem noticiou o acontecimento, o que parece indiciar uma espécie de ‘conspiração do silêncio’ em relação a certos acontecimentos eclesiais. Claro que, se em vez de uma iniciativa que evidencia a vitalidade e juventude da Igreja em Portugal, se tratasse de um escândalo que envolvesse eclesiásticos, ou de excêntricos defensores de uma qualquer aberração, é certo e sabido que o evento teria sido referido nas manchetes dos jornais, com direito a reportagens nas rádios e honras de abertura nos telediários.

Por amável deferência do Padre Ricardo Franco, a quem coube o mérito da excelente organização, tive a honra e o prazer de participar no painel subordinado ao tema “As grandes questões da Igreja actual – Um olhar externo sobre os desafios, interrogações e expectativas que hoje se colocam à Igreja no espaço público, na cultura e na sociedade”. Esta sessão, que foi moderada pelo Professor João Clemente, Director do Serviço da Juventude no Patriarcado de Lisboa, contou com as participações de D. Nuno Isidro, Bispo Auxiliar de Lisboa, da Drª. Rita Valadas, Presidente da Cáritas Portuguesa, e ainda com a minha, a título de excepção que confirma a regra da excelência.

Só posteriormente me dei conta de que, quer nas palavras dos quatro intervenientes no painel, quer nas várias questões levantadas pelos assistentes, nunca foi referida a questão dos abusos no âmbito eclesial. Esta omissão, que contrasta com a manifesta obsessão de alguma comunicação social com o tema, a que circunscrevem toda a sua informação religiosa, é significativa de que essa dolorosa questão, que a Igreja católica soube enfrentar com enorme determinação e coragem, está já, felizmente, em vias de erradicação, graças às medidas entretanto assumidas pela Santa Sé, pela Conferência Episcopal Portuguesa e por todas as dioceses, no sentido de assegurar que os espaços eclesiais sejam ambientes seguros para todos, sobretudo para as crianças.

No entanto, este drama é ainda uma penosa realidade na sociedade portuguesa, sobretudo no âmbito das famílias e instituições educativas estatais e desportivas, em parte devido ao desinteresse das entidades responsáveis e dos media.

Acrescente-se que a natural omissão do tema não foi sugerida pela organização, tendo antes ocorrido de forma absolutamente espontânea, o que prova que o tema, felizmente, já não é uma prioridade da agenda eclesial. Por isso, a insistência nesta temática não só é artificial e anacrónica, como potencialmente inibidora de desafios mais urgentes, como a evangelização, a defesa da vida, a luta contra a miséria e as desigualdades sociais, etc.

Como acentuou o Dr. João Clemente na sua abordagem inicial, a principal tensão na Igreja não é a que existe, se se permite o uso de termos essencialmente políticos, entre ‘progressistas’ e ‘conservadores’, mas entre a tendência para a auto-referencialidade, potenciada pela falsa sensação de socialização gerada pelas realidades virtuais, e a experiência da comunhão, que é essencial à Igreja. A fé, embora seja uma graça individual de que cada fiel dará contas a Deus, só pode ser vivida na comunidade dos crentes.

A este propósito, tive ocasião de denunciar a tendência para inventar um Cristianismo ‘à medida do freguês’, em que a conjugação arbitrária de máximas supostamente cristãs é avessa a princípios irrenunciáveis da moral evangélica. Neste sentido, são recorrentes as imagens de Jesus de Nazaré em jeito de Che Guevara, ou reduzido à dimensão de um mero activista social e moral, como se o Sinédrio de então fosse a Igreja de hoje, e a suposta rebeldia de Cristo em relação ao poder religioso judaico, que o condenou à morte por blasfémia, fosse comparável à dissidência dos católicos que, ingénua ou hipocritamente, defendem o aborto, a eutanásia, a ideologia de género, etc.

Na realidade, esse Jesus revolucionário, de fartas melenas, não existe senão na imaginação dos que o não conhecem, nem amam de verdade. Só na Igreja a sua presença é uma realidade viva, não apenas na Eucaristia, mas também na sua Palavra e nos pastores de que ele se serve para apascentar o seu rebanho. A Igreja não é uma coutada de santos, onde só os puros têm lugar, mas a identificação com Cristo não se pode fazer à margem da Igreja, nem da identificação pessoal com a sua doutrina e vida.

Uma vez, um jovem disse-me, em tom provocatório, que não ia à Missa porque a considerava cheia de hipócritas. Tive que lhe dar a razão, embora os ‘hipócritas’ que vão à Missa saibam que o são, queiram deixar de o ser, peçam perdão a Deus por serem pecadores e rezem para obter a graça da sua conversão. Pelo contrário, os hipócritas que não vão à Missa julgam-se santos e, portanto, não se emendam, não rezam e ainda chamam hipócritas aos outros! Mas, como a Igreja a todos chama à salvação – todos, todos, todos! – acrescentei, com um sorriso inclusivo e não menos desafiador: – É verdade que as Missas estão cheias de hipócritas, mas cabe sempre mais um!

P.S. A Santa Sé, em 2023, arquivou uma falsa denúncia de abusos em sede de confissão. Apesar disso e contra as mais elementares exigências do direito e da justiça, foi pedida a reabertura do processo, não obstante o caso julgado, a falsidade da acusação e a inexistência de novos dados. Se resultar este iníquo golpe dos que fizeram deste drama um modo de vida, senão mesmo um negócio, os processos de Galileu e de Santa Joana d’Arc poderão ser reabertos em breve e ambos, de novo, condenados pela Inquisição!