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Uns ganharam, cumpriram e lideravam o grupo, outros empataram, deixaram tudo adiado para as jornadas seguintes e sabiam da importância dos jogos que se seguiam para definir o grupo. Quase de forma paradoxal, os que empataram foram alvo de rasgados elogios na imprensa internacional e os que ganharam receberam as palmadinhas nas costas de quem não fez mais do que a sua obrigação. Apesar dessa vantagem da Escócia no grupo, falava-se de Marrocos, com Marrocos e sobre Marrocos. Com sentido, claro – quem achava que esta equipa africana tinha sido um lusco-fusco de uma fase final após terminar em quarto no Qatar não demorou a perceber que não só os Leões do Atlas vinham para confirmar aquilo que tinham feito em 2022 como até podiam estar melhor do que nessa fase final jogada a meio da época. E o Tartan Army era essa espécie de teste do algodão às capacidades depois de dias a fio de elogios pelo jogo com o Brasil.
https://observador.pt/2026/06/14/se-e-mesmo-para-ser-por-eles-tera-de-ser-muito-mais-do-que-isto-a-cronica-do-brasil-marrocos/
Do lado dos escoceses, que iriam contar com muito apoio em Boston (como se viria a confirmar, com a zona atrás de uma das balizas a concentrar a maior falange que tinha ramificações por todas as bancadas e que se fez ouvir e bem na altura do hino), parte do Mundial estava ganho – os três pontos “obrigatórios” estavam no bolso, se fosse possível pontuar com Marrocos ou Brasil melhor, se não desse havia sempre a esperança de uma repescagem se a diferença de golos ajudasse. Da parte de Marrocos, havia uma questão de “afirmação” para ser confirmada pela forma como os africanos conseguiram colocar os brasileiros no bolso na partida inaugural. Apesar de muitos fazerem uma ponte da equipa de 2022 para agora, a verdade é que nem mesmo em relação ao que se passou na última Taça das Nações Africanas, perdida em campo frente ao Senegal de forma dramática mas ganha na secretaria dois meses depois da final, se podia traçar um paralelo.
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Porquê? A saída de Walid Regragui, o herói do Mundial-2022, quis não só dar uma resposta à traumática derrota em casa na final da CAN mas também acelerar um processo de transição que visava já aquilo que irá acontecer em 2030, quando os africanos receberem como coorganizadores o Mundial com Espanha e Portugal. Aí, a ideia da Federação Marroquina de Futebol, que tem apostado cada vez mais na deteção e recrutamento de jovens talentos que possam não ter nascido no país mas que tenham ascendência e manifestem interesse em representar os Leões do Atlas, é assumir sem rodeios uma candidatura ao pódio. E, para isso, voltou a fazer subir o elevador do edifício federativo, promovendo Mohamed Ouahbi, que foi campeão mundial Sub-20, à equipa A para liderar as novas gerações que continuam a brilhar na Europa.
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Se dúvidas existissem, e com Pep Guardiola nas bancadas a ver o tipo de futebol de que gosta, Marrocos só precisou de dois minutos para inaugurar o marcador: grande passe na profundidade de Brahim Díaz para a velocidade de Saibari, receção orientada do avançado e “fuzilamento” a Angus Gunn descaído sobre a direita (2′). O jogador de 25 anos, que vai trocar o PSV pelo Bayern após o Mundial, voltou a mostrar que é um caso sério de bola mas mostrou também aquela que foi a grande mudança no futebol dos africanos com Ouahbi: uma filosofia bem mais ofensiva, que sabe o que fazer em posse, que aposta na mobilidade para tirar referências à defesa contrária, que faz imperar a velocidade e que consegue manter os equilíbrios em todos os momentos. Mais: quando Bilal El Khannouss, que antes tivera um cruzamento perigoso, cortou uma bola de carrinho e festejou como se fosse um jogador de futsal no chão, até a própria “atitude” estava explicada.
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Bounou não existiu enquanto jogador na primeira parte perante a incapacidade ofensiva dos escoceses, Marrocos foi criando ocasiões para aumentar a vantagem. Hakimi, capitão que era assobiado sempre que ia tocando na bola no dia em que soube que terá de ir a julgamento por alegada violação, antecipou-se na área a Grant Hanley mas viu Angus Gunn evitar o golo com o pé (18′), Neil El Aynaoui atirou cruzado mas por cima após passe de Brahim Díaz (33′), Bilal El Khannouss rematou na passada numa saída rápida com igualdade numérica mas voltou a falhar o alvo (36′). O domínio marroquino era total, com mais uma grande exibição do jovem médio Ayyoub Bouaddi, a nova coqueluche deste Mundial aos 18 anos que “secou” por completo as zonas que estavam a ser pisadas pelas grandes armas escocesas, McTominay e Lewis Ferguson.
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O segundo tempo recomeçou com a Escócia a tentar mostrar algo mais mas bastou uma transição rápida de Marrocos para tudo voltar ao normal, neste caso com Saibari a desviar um cruzamento de El Khannouss e a acertar na trave (50′) antes de uma grande defesa de Angus Gunn a um cabeceamento de El Khannouss (52′). Os adeptos escoceses continuavam incrédulos a queixarem-se de um possível penálti sobre McGinn (49′), a formação marroquina não conseguiu “matar” o jogo e os últimos minutos ficaram a jeito para uma surpresa de última hora com um jogo mais direto do Tartan Army que conseguisse chegar ao empate, contando com um Scott McTominay mais adiantado no terreno a rematar com perigo às malhas laterais (85′). Com o jogo partido, os marroquinos ainda ameaçaram por duas vezes o golo mas o 1-0 iria persistir até ao final.
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A estrela
- Um avançado de uma seleção que não está habitualmente nos favoritos que marca ao Brasil no primeiro jogo e que volta a marcar a abrir frente à Escócia na segunda partida é um motivo imediato de destaque mas Ismael Saibari tem algo mais a dourar a pílula neste Mundial: numa jogada de antecipação bem conseguida, o Bayern chegou-se à frente e terá acordado pagar 55 milhões de euros ao PSV pelo jogador que será anunciado oficialmente para a semana. No entanto, e mais uma vez, houve outro destaque de quem trabalha para corrigir um erro que só não custou mais por causa da secretaria: Brahim Díaz, jogador do Real Madrid que falhou uma grande penalidade que podia ser decisiva nos descontos da final da CAN, continua a fazer um grande Mundial, fez uma assistência e voltou a ser um dos melhores.
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O joker
- Pode entrar como estrela, pode entrar como joker, vai entrar de forma inevitável em tudo o que esteja relacionado com este Mundial: Ayyoub Bouaddi, jovem médio de 18 anos do Lille que dificilmente irá ficar muito mais tempo neste clube da Ligue 1, tinha feito um autêntico tratado de futebol frente ao Brasil e não voltou a ficar atrás com a Escócia. Não precisa de tocar muitas vezes na bola, não necessita de aparecer muito no jogo, mas tudo o que faz é bem feito pela capacidade de ler os momentos e aquilo que pedem. Desta vez, foi bem acompanhado por Neil El Aynaoui, o todo-o-terreno da Roma que funciona como pulmão e músculo do meio-campo para que Bouaddi fique como cérebro de tudo.
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A sentença
- Com este resultado, Marrocos passa a liderar o grupo C com quatro pontos, mais um do que a Escócia, ficando à espera daquilo que irá acontecer no Brasil-Haiti que se segue. Os dados para a última ronda estão lançados: caso o conjunto de Carlo Ancelotti confirme o favoritismo contra os caribenhos, o primeiro lugar poderá ser decidido pela diferença de golos marcados e sofridos caso Marrocos e Brasil cheguem aos sete pontos. Diferença? Marrocos defronta o modesto Haiti, ao passo que o Brasil terá pela frente uma formação escocesa que precisa de pontuar para assegurar logo o apuramento (se perder, terá de ficar à espera para perceber se fica entre os oito melhores terceiros).
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A mentira
- O nível das arbitragens neste Mundial tem estado altíssimo. Protestos dos bancos há sempre, funciona quase como tradição, mas nos lances capitais as decisões surgem, podem ou não ser contestadas e tudo segue em frente. Até no plano disciplinar têm sido partidas com muito menos cartões do que estamos habituados nas ligas europeias. No entanto, e em várias ocasiões, o uzbeque Ilgiz Tantashev deixou que se jogasse “a mais”, passando ao lado de vários lances que seriam faltas óbvias mas que ficaram sem sanção – com essa nuance de Escócia e Marrocos serem equipas que queriam jogar, o que fez com que os protestos existissem mas desaparecessem pouco depois. Houve ainda um episódio “paralelo” que marcou a partida: no dia em que viu confirmada a ida a julgamento num caso de alegada violação, Hakimi, capitão de Marrocos, foi assobiado sempre que tocava na bola (e por razões extrafutebol).
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