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Como terminar uma guerra

Este compromisso acolhe uma série de pretensões iranianas, reduz os meios de pressão dos EUA, e deixa cair praticamente todos os principais objetivos declarados por Trump.

Bruno Cardoso Reis
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Para que serve uma guerra? War! What is it good for? Cantavam os The Temptation e depois os Jam. E respondiam: Absolutely nothing! Absolutamente nada! Não é assim tão simples. Grandes inovações da triagem na medicina até à internet surgiram num contexto de conflito. Apesar disso, ninguém – pelo menos, ninguém no seu perfeito juízo, como escrevia Clausewitz – inicia uma guerra sem saber quais são os seus objetivos políticos, e sem se certificar de que não os consegue alcançar por meios mais pacíficos, menos custosos, menos incertos. Uma guerra pode ser um mal necessário: não creio, por exemplo, que Hitler fosse suscetível a argumentos diplomáticos. Um dos grandes problemas de uma guerra, no entanto, é ser muito difícil saber como irá acabar. O inimigo tem um voto que torna a sua evolução, custo e desfecho difíceis de prever. Trump cometeu em relação ao inimigo iraniano um erro frequente e sempre muito custoso – subestimar o inimigo e a sua vontade de continuar a combater. Este acordo de cessar-fogo reflete esse erro. O mínimo que podemos fazer é tentar aprender alguma coisa com o sucedido.

Lições de geografia

O grande escritor e humorista Mark Twain gostava de dizer que a guerra era a forma de Deus obrigar os seus compatriotas norte-americanos a aprenderem geografia, a conhecerem melhor o resto do Mundo. Um dos autores mais conhecidos da escola geoestratégica francesa, Yves Lacoste, deu como título ao seu livro clássico de 1976: A Geografia serve sobretudo para fazer a guerra. Efetivamente, sem um bom conhecimento de geografia não é possível compreender ou conduzir operações militares com sucesso. Por muito que os meios tecnológicos e as suas aplicações militares possam ter mudado, o controlo do estreito de Ormuz, um dos pontos de estrangulamento da navegação global e ponto de passagem obrigatório de rotas comerciais vitais ligando oriente e ocidente, continua a ser tão importante hoje como era no tempo de Afonso de Albuquerque. E em Ormuz a geografia apertada do estreito que reduz o tempo de reação das defesas, combinada com tecnologia como drones, mísseis e novos tipos de minas, favorecia o Irão. Trump optou por ignorar que estamos num mundo onde nivelar o poder é mais fácil, e garantir a liberdade de navegação é mais difícil.

Lições de tecnologia

A centralidade de novas tecnologias disruptivas é clara na Terceira Guerra do Golfo, e também na Guerra de agressão russa contra a Ucrânia. O governo de Kiev transformou o seu país, sob bombardeamento constante e indiscriminado, numa superpotência de drones. A Ucrânia está a produzir perto de 800.000 drones por mês dos mais variados tipos, aéreos, navais e terrestres! Isso não garante a vitória, tendo em conta a enorme assimetria de poder militar favorável à Rússia, mas devolveu alguma iniciativa à Ucrânia, e aumentou muito o custo económico e em baixas da guerra para a Rússia.

A inovação não fica por aí. Teremos de lidar com o peso crescente da robótica militar, no mínimo semiautónoma. Teremos de lidar com o uso crescente da inteligência artificial. Isso cria grandes oportunidades, mas também cria grandes problemas, inclusive éticos. Um dos mais importantes para a Europa é que os europeus se habituaram nos últimos séculos a uma forma de fazer a guerra com base numa enorme assimetria tecnológica que lhes é favorável. A sua perda seria uma enorme revolução estratégica. Zelensky tem razão quando insistiu esta semana, no encontro do G7 e no Conselho Europeu, que a Europa não pode ficar para trás.

A proibição imposta pelo governo de Trump ao uso, fora dos EUA, dos modelos mais avançados de inteligência artificial da Anthropic deixa isso bem claro. Estamos cada vez mais numa Guerra Fria tecnológica e em torno de outros recursos estratégicos entre os EUA e a China, em que a Europa está a ficar para trás, marginalizada. A Europa corre o risco, se ficar a regular sem inovar, de acabar por não ter o que regular. Precisamos de mudar de paradigma, não nas palavras, mas nas ações. Temos de investir numa escala massiva. Isso implica criar um mercado de capitais realmente integrado. Implica também uma cultura de risco e recompensa que parece cada vez mais ausente da Europa – com exceções como a Ucrânia, forçada a isso pela guerra. Talvez precisemos de aprender alguma coisa com o sucesso da China e criar zonas económicas especiais, com menos regulação e menos impostos, para promover com a rapidez necessária quer a inovação tecnológica, quer a produção massiva de meios militares, por exemplo drones. Se isso não for feito ao nível da União Europeia – por inércia e bloqueios vários – corremos o risco de que não seja feito de todo, ou que acabe por ser feito por alguns países mais relevantes e dinâmicos, ou seja, sem Portugal.

Lições de paz

Trump sempre achou que podia acabar com uma guerra com a facilidade com que fecha acordos imobiliários à custa da força da sua marca personalizada. A política externa é mais complicada, e terminar uma guerra é especialmente complicado. Na passada semana estive numa conferência internacional de história militar. Um dos temas mais discutidos foi precisamente este, que na língua franca académica global é etiquetado como war termination. Quais são alguns dos seus problemas clássicos? Numa guerra a dimensão emocional muitas vezes sobrepõe-se ao simples cálculo racional de perdas e ganhos. Muitas vezes o inimigo não aceita a derrota, e opta por prolongar o conflito mesmo que por meios não-convencionais, como a guerrilha espanhola e portuguesa contra as tropas do invencível Napoleão. O acumular de baixas, de mortos, de custos, torna politicamente mais díficil de vender ao público o fim do conflito com um compromisso que formaliza cedências, do que prolongar ou congelar o conflito no limbo, num cessar-fogo que se vai prolongando. Como aqui escrevi várias vezes esse era o cenário mais provável para o desfecho deste conflito.

Vimos todas essas dinâmicas em jogo na Guerra russa contra a Ucrânia e na Terceira Guerra do Golfo. Este memorando de entendimento reflete um padrão fundamental dos conflitos armados de tipo assimétrico desde o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945): favorece o lado aparentemente mais fraco, mas que joga no próprio terreno, face a uma potência mais bem armada, mas que está a assumir os custos de projetar forças a milhares de quilómetros da sua pátria. Este padrão é claro do Vietname às guerras coloniais tardias até ao Afeganistão. E com um presidente tão impaciente por resultados rápidos, tão preocupado com o mercado bolsista como Donald Trump, a limitada vontade política dos EUA para se envolver num conflito prolongado no Médio Oriente ainda se acentuou mais. O Irão parece ciente de que os EUA querem terminar rapidamente o conflito e precisam da reabertura do estreito de Ormuz para evitar os custos da estagflação e de uma crise económica global mais séria. Efetivamente, Trump deixou claro que uma das razões por que chegou agora a este acordo frágil com o regime dos aiatolas é que não quer ser um novo Hoover, o presidente dos EUA que foi responsabilizado pela Grande Depressão.

O resultado é que este compromisso acolhe uma série de pretensões iranianas, reduz os meios de pressão dos EUA, e deixa cair praticamente todos os principais objetivos declarados por Trump: mudança de regime, fim do programa de mísseis, fim do apoio a grupos armados pela região, fim do programa de enriquecimento nuclear. De todos estes pontos apenas o nuclear é mencionado, mas em termos de um compromisso de continuar a negociar. E o Irão sempre disse que não queria ter armas nucleares. O problema nunca foi que o dissessem, mas sim, ter garantias concretas que impedissem que fizessem uma bomba atómica. Os principais problemas e ameaças criados pelo regime iraniano ficam por resolver, e podem agravar-se com a promessa do fim das sanções e de um fundo de 300 mil milhões de dólares para ajudar o Irão a reconstruir-se. Não custo imaginar que o regime dos aiatolas dará prioridade à reconstrução da sua máquina de guerra. Este memorando será no máximo um mal menor, se garantir a reabertura segura e sem restrições ou taxas do estreito de Ormuz. Mas mesmo isso não está garantido, e não era um problema antes do início desta guerra. Os EUA viram a sua credibilidade como aliado e o seu papel de máximo garante da ordem global mais uma vez minados pela Administração Trump. A Trump isso não importa, só lhe interessa o seu protagonismo, os seus ganhos económicos e políticos pessoais, mas os verdadeiros amigos dos EUA sabem que isto é um grande problema, e não apenas para os norte-americanos.