Tal como nós e as nossas esperanças, os livros são frágeis. Percorrendo as grandes catástrofes da história, o mais natural e expectável teria sido que o saber contido nos livros tivesse desaparecido, às mãos de guerras, epidemias e saques. E, no entanto, ao longo do tempo, um silencioso arroio de bravos homens e mulheres salvou-os, vezes sem conta, da destruição mais que certa. De uma forma misteriosa e espontânea, a necessidade de ler forjou uma lealdade discreta entre pessoas que, sem se conhecerem, empenharam os seus esforços em preservar o caudal dos nossos melhores relatos, sonhos e pensamentos. Pessoas unidas por um desejo de proteger os livros. E, perante os profetas da extinção, nós sabemos que este antigo amor anónimo continuará a salvá-los
Etimologicamente, o livro descende do substantivo latino liber, nome pelo qual era conhecida aquela finíssima membrana entre a madeira e a casca de uma árvore, sobre a qual se escrevia antes da descoberta do papiro. Mas muito mais eloquente é o facto de esse termo ser homógrafo do adjectivo liber, (livre) – do qual se distingue apenas pela duração da vogal i, breve no primeiro caso e longa no segundo – e também parónimo de um substantivo que se usava apenas no plural, liberi (filhos).
“Se o trabalho for feito com amor – lembravam-se de ter dito São Patrício aos seus discípulos – até as pedras sorriem.” Nunca um mosteiro havia sido construído tão em cima do mar, na abrupta costa da Irlanda, erguido com pedras arrancadas às colinas vizinhas, fizesse bom ou mau tempo, sob céus em que também as gaivotas pareciam falar da alegria das nuvens. Recolhido sobre si mesmo, demasiado pequeno para albergar mais de uma dúzia de monges, o mosteiro tinha uma biblioteca que dava para as espumas enfurecidas, na qual nunca havia um silêncio completo, pois o canto do mar subia até lá para evocar a profundidade dos seus segredos.
Ainda não haviam chegado os dias de Alcuíno de Iorque, aquele que viria a ser conselheiro de Carlos Magno, mas os livros iluminados, as grandes páginas cheias de delicadas iluminuras com a notação das missas cantadas, eram o tesouro maior que os abades, à morte dos seus predecessores, recebiam. Existia, a respeito da biblioteca, a superstição de que, se se contasse o número exacto de exemplares que albergava, poderia acontecer uma desgraça, chegar a peste vinda das dissolutas cortes inglesas ou brotar lava ardente do lugar mais inesperado.
Por essa razão, caso os monges alguma vez contassem os livros e rolos, não o confessavam a ninguém. Contentavam-se em enumerar, em voz muito baixa, os livros da esquerda ou da direita, os de cor de casca de carvalho ou aqueles que, ao abrirem-se, sussurravam a sabedoria dos primeiros mártires com aquele inconfundível sotaque grego. Era verdade que, cravadas numa paisagem verde-esmeralda, borrifadas por chuvas abundantes e fustigadas por ventos impiedosos, as pedras do mosteiro sorriam. À sua maneira, os monges eram felizes; suportavam as suas paixões inclementes, a fome constante e as dores de cabeça com orações que eles deslizavam pelos seus rosários de osso de veado. O pequeno horto das ervas medicinais recebia a atenção e o cuidado de Iona; a capela-mor, o cuidado de Columba; o altar-mor, a diligência das mãos de Shanon. A biblioteca estava ao cuidado de um monge-criança, precoce na leitura e de memória prodigiosa, uma criatura que alguém abandonara às portas daquele lugar numa longa noite de Verão em que, inchadas de doçura, cresciam as maçãs. Trazia consigo um pedaço de pergaminho em que estavam escritas as sagradas letras alfa e ómega de que fala o livro do Apocalipse. Chamaram-lhe Líber e brincaram com ele a ser pais e mães ao mesmo tempo.
Era medíocre no canto, mas tinha, para o desenho das letras capitulares, o pulso firme da garça que dorme apoiada apenas numa das patas. A relação entre a garça e Líber não era casual: aos nove anos encontrou uma dessas aves, com uma asa partida, junto à lagoa que ficava ao lado da nascente de Auxilius. Levou-a para o mosteiro e cuidou dela como se fosse a sua melhor amiga. Chegou mesmo a construir-lhe, com a ajuda de Shanon, um pequeno tanque para onde lançava minhocas do horto e outros insectos. A brancura da ave deslumbrava-o e a sua elegância parecia-lhe um dom de Deus.
Pintou-a uma dúzia de vezes no Livro de Horas que levou três anos a copiar de um outro mais antigo: com o bico voltado para o céu, adormecida, desperta, com os olhos amarelos bem abertos, a pescar e a observar o próprio reflexo na água. De bom grado a teria tido a seu lado na biblioteca. De bom grado lhe teria ensinado a cantar melhor do que ele, se é que as aves daquela espécie são capazes sequer de o fazer. No dia de Primavera em que a garça-branca partiu, voando, Líber, que nunca chorara, chorou, mas em silêncio. O ser abandonado fazia-o lembrar-se do seu próprio abandono. Deixou que as lágrimas lhe enevoassem os olhos, foi à biblioteca, sentou-se numa cadeira não muito cómoda e pôs-se a escutar o mar.
Os seus sopros de inquietação viajante, o crepitar das espumas, os assobios nas rochas perfuradas da costa, o gemido das ondas que são engolidas uma e outra vez pela areia grossa, a sua voz rouca de gigante cuja boca abrangia todo o horizonte, a sua felicidade enrolada em ondas e, por fim, o seu sussurro no dourado meio-dia que os monges cantavam com devoção. Ficou ali horas, talvez dias, sentado. A certa altura pensou na sua verdadeira mãe, não aquela que não conhecera, mas no imenso mar aos pés do mosteiro. Nunca estava só e jamais abandonava as suas conchas e peixes, a não ser quando eram pescados ou quando já tinham morrido. Se era capaz de suportar o peso do monstruoso Leviatã, que dor não seria capaz de lavar? Que solidão não dissiparia? Que remoinho, prestes a afundar-se, não acabaria por recolher no seu seio?
Líber ergueu-se, foi até à estante onde estava o Liber somnium do irmão Leinster, abriu-o na página que falava do sonho de Jacob com os anjos que sobem e descem ao longo do que lhe parecia uma amendoeira, suspirou e, com a voz quase inaudível, dedicou um adeus de afecto à garça fugitiva.
Entre o mistério de uma anónima fidelidade aos livros e as histórias concretas de quem os guarda, abre-se um intervalo de séculos em que a fragilidade do liber se confunde com a fragilidade das mãos que o copiam e protegem. É nesse intervalo, feito de incêndios evitados por milagre e de páginas salvas ao acaso de um abrigo improvisado, que se desenham rostos sem nome, monges e leigos, navegantes e exilados, para quem o simples gesto de virar uma folha equivalia a resgatar do esquecimento um mundo inteiro.
Talvez não seja fortuito que, em latim, a mesma raiz liber convoque à memória o livro, os filhos e a liberdade. O livro, como um filho, nasce frágil, precisa de ser cuidado, acarinhado, transmitido; e, tal como a liberdade, subsiste apenas na medida em que alguém o acolhe, o exerce e o defende contra a violência do esquecimento. Nos livros, como nos filhos, a liberdade não é apenas um dom, mas uma tarefa: escrever, ler e educar são formas diferentes de inscrever no tempo a promessa de que aquilo que mais amamos poderá continuar a existir para além de nós.