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Mundial 2026. Polémica interna na FIFA pelo Prémio da Paz atribuído a Trump ganha novo capítulo

O troféu entregue a Trump terá sido financiado pela FIFA sem o conhecimento dos seus próprios órgãos internos. Infantino está a ser acusado de decidir tudo sozinho, à margem das regras democráticas.

Mariana Carrilho
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O Prémio da Paz foi entregue ao presidente dos EUA no dia 5 de dezembro de 2025, em Washington, pelo presidente da FIFA, Gianni Infantino. Isto aconteceu durante o sorteio do Mundial-2026. No entanto, os contornos desta iniciativa permanecem envoltos em forte secretismo, provocando uma onda de contestação dentro da Federação.

Durante a cerimónia, Infantino elogiou os esforços incansáveis de Trump para unir as pessoas num espírito de paz. No entanto, a entrega do prémio foi planeada por menos de uma dezena de colaboradores e apanhou de surpresa a esmagadora maioria dos funcionários. Falando sob condição de anonimato, um membro do Conselho da FIFA disse ao Le Monde que soube do troféu pela imprensa. “Infantino faz tudo isso com o dinheiro da FIFA sem consultar ninguém. O Conselho da FIFA trata de assuntos triviais, e Infantino decide tudo”, mencionou. Criticando a falta de transparência, a fonte garantiu que a FIFA “está longe de ser uma organização democrática e moderna que opere segundo os princípios da boa governança“.

https://observador.pt/2025/12/09/fizeram-a-festa-atiraram-os-foguetes-agora-ha-canas-soltas-comite-de-etica-da-fifa-recebe-queixa-contra-infantino-e-o-premio-da-paz/

O caso escalou para o plano jurídico. Três dias após a entrega do prémio, a organização não governamental FairSquare avançou com uma queixa na Comissão de Ética da FIFA, alegando que Infantino desrespeitou a neutralidade política exigida pelos estatutos da entidade.

Mais recentemente, a Federação Norueguesa de Futebol, liderada por Lise Klaveness, apresentou também uma queixa ao Comité para exigir esclarecimentos sobre as motivações de Infantino, sobre os critérios de atribuição do prémio e sobre a possível recorrência da entrega do mesmo.

O silêncio da comissão de ética está a levantar suspeitas. Hans-Joachim Eckert, antigo copresidente desta comissão, afastado em 2017, defende que o caso tem de ser investigado de imediato e aponta para a possibilidade de um crime de desvio de fundos – caso se confirme que a FIFA pagou o troféu sem qualquer aprovação interna. Eckert lamenta que o tribunal da FIFA tenha perdido independência e esteja agora controlado por “pessoas escolhidas por Infantino”.

Miguel Poares Maduro, ex-presidente do comité de governação da FIFA, que também foi afastado em 2017, considera que Infantino já não se preocupa com a imagem que projeta. “A verdadeira questão não é se o Sr. Infantino vai mudar as coisas, mas se as autoridades governamentais e as instituições políticas se interessarão por ele”, explicou.

O presidente da FIFA já foi investigado e ilibado pela Comissão de Ética em duas ocasiões: em 2016, após uma investigação formal sobre voos em jatos privados pagos pela Rússia e pelo Qatar, e em 2020, após terem vindo a público reuniões secretas com o então procurador-geral suíço, Michael Lauber. A própria justiça suíça abriu um processo-crime contra Infantino, mas acabou por arquivá-lo em 2023 por falta de provas.

Como reflexo desta alegada complacência, o tribunal interno da FIFA nunca investigou outras figuras altamente influentes do futebol. É o caso de Nasser Al-Khelaïfi (“NAK”), presidente do Paris Saint-Germain. Embora tenha sido absolvido judicialmente na Suíça, três tribunais criminais sucessivos, entre 2020 e 2025, dissseram que o líder do clube francês e o ex-número dois da FIFA, Jérôme Valcke, celebraram um pacto de corrupção, com Al-Khelaïfi a subornar Valcke em troca de favores.