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(A) :: Luís Montenegro precisa de começar a demitir ministros

Luís Montenegro precisa de começar a demitir ministros

O primeiro-ministro tem de fazer, urgentemente, uma remodelação profunda. É verdade: formalmente, este governo tem pouco mais de um ano; mas há um problema: parece ter mais de dez.

Miguel Pinheiro
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Peço a Deus que Luís Montenegro não esteja a ler isto. Toda a gente sabe que os primeiros-ministros odeiam que lhes digam o que devem fazer, por isso convinha que ele não soubesse que alguém anda a escrever o seguinte: o chefe do governo tem de fazer, urgentemente, uma remodelação profunda. É verdade: formalmente, este governo tem pouco mais de um ano; mas há um problema: parece ter mais de dez.

Não vale a pena achar e repetir que esta é apenas a opinião da oposição, da bolha ou, pior, da “jornalada”. Como o Observador escreveu há umas horas, os próprios ministros sentem, neste momento, que estão a planar sobre um vazio de hesitação, desorientação e confusão. Podemos citar António Guterres: é o “pântano”. Ou, se quisermos falar a linguagem dos laranjinhas, podemos citar Sá Carneiro: é o “impasse”. O governo não quer aprovar reformas com o PS e, como se percebeu agora com o pacote laboral, não consegue aprovar reformas com o Chega. A isso, soma-se um Presidente da República que não saberia identificar uma reforma se se cruzasse com ela na rua. Sobram, por isso, poucas alternativas a Luís Montenegro.

Há pelo menos uma. Em tempos, um primeiro-ministro português disse que, se fosse colocado “entre a espada e a parede”, escolheria “a espada”. Era falta de imaginação política: estando nessa posição desconfortável, um primeiro-ministro pode sempre ter a ousadia de rebentar com a parede. É aí que entra a remodelação profunda. Cavaco Silva, que é o grande guru de Montenegro, conhecia o potencial político desta medida radical. Como explicou num dos seus livros, “a razão de uma tal decisão pode residir na necessidade política de relançar o clima de confiança dos agentes económicos e sociais, de refrescar a imagem do executivo com caras novas ou de lhe imprimir uma nova dinâmica”, mas “também pode ser provocada por sondagens negativas ou dificuldades de relacionamento entre ministros”. Em 1990, Cavaco não hesitou: no espaço de poucas horas, chamou cinco ministros ao seu gabinete e cortou-lhes ritualmente a cabeça. Nas suas memórias, escreveu que os achava “pessoas competentes e tinha um elevado apreço pelo seu trabalho”. Por causa disso, precisou de “deixar o sentimentalismo de lado” para tentar “recuperar o eleitorado”. Confessou que foi “a pior semana” da vida dele como primeiro-ministro, até porque teve de tomar a decisão “particularmente penosa” de despedir o amigo Eurico de Melo. Mas resultou.

Convém, porém, sublinhar que uma remodelação profunda não resolve tudo — especialmente se não houver mais nada. Em 1962, o primeiro-ministro conservador Harold Macmillan despediu sete ministros, um terço do governo, naquela que ficou conhecida como “A Noite das Facas Longas”, mas isso não o salvou. Foi tão implacável que, ao ouvi-lo, um dos ministros demitidos lhe disse que, “se fosse ele, teria dado um maior pré-aviso a um cozinheiro do que Macmillan lhe dera a ele”. Mais tarde, Macmillan responderia que “era muito mais fácil arranjar um bom ministro do que um bom cozinheiro”. A frase tem graça, mas é forçoso reconhecer que também é razoavelmente difícil arranjar um bom ministro. Como se percebe, aliás, olhando para o atual governo. Uns, como Maria do Rosário Palma Ramalho, fazem o que não devem; outros, como António Leitão Amaro, não fazem o que devem.

De qualquer forma, há uma coisa mais difícil do que tudo isso. Um “bom ministro” não serve de nada se o governo não tiver um rumo que os eleitores conheçam, subscrevam e apoiem. Cavaco Silva conseguiu uma maioria absoluta porque o país inteiro sabia o que ele pretendia fazer. Sem isso, eleições antecipadas são uma inutilidade, ou um suicídio. As remodelações cavaquistas não foram um fim — foram um instrumento. Já Luís Montenegro quer fazer o quê? Se não arranjar um plano, e se não o tornar claro, a vontade de emular Cavaco soará sempre a fanfarronice. Uma e outra vez, confrontado com as armadilhas das oposições, o primeiro-ministro berra: “Agarrem-me, senão eu mato-o”. Mata mesmo?